Ana Abrunhosa foi com a lição bem estudada. Surgiu com o colete da proteção civil, sublinhando visualmente o contexto que justificava a oportunidade: as cheias que devastaram a zona centro do país. Foi uma escolha cénica eficaz.
Foi este o tempo que durou a entrevista de Ricardo Araújo Pereira(RAP) a Ana Abrunhosa, no passado domingo, no programa mais visto da televisão portuguesa. Não é um detalhe irrelevante. Num formato como aquele, uma entrevista com mais de 20 minutos é perfeitamente incomum. Aliás, quando há entrevista, e nem sempre há, estas costumam oscilar entre os 8 e os 10 minutos. O dobro do tempo não é apenas generosidade: é escolha “editorial”. Uma benesse.
Não tenho qualquer intenção de formular teorias da conspiração. Ricardo Araújo Pereira tem o direito, e a veleidade, de convidar quem bem entender, durante o tempo que a SIC lhe conceder. Tal como tem todo o direito de não convidar André Ventura, o que, diga-se, até me parece politicamente higiénico, considerando a sucessão inédita de dezenas de entrevistas semanais que o líder do Chega concede às televisões que apelida de “sistema”, mas que curiosamente o promovem com zelo maternal.
Mas ninguém é inocente. E todo o aparato em torno daquela entrevista não é, obviamente, coincidência.
Ana Abrunhosa foi com a lição bem estudada. Surgiu com o colete da proteção civil, sublinhando visualmente o contexto que justificava a oportunidade: as cheias que devastaram a zona centro do país. Foi uma escolha cénica eficaz. Mais do que palavras, o colete comunicava presença, proximidade, comando. E comunicação política é, antes de tudo, encenação credível.
Lembrou-me o então presidente da Câmara do Funchal, nos incêndios que ameaçaram a cidade em 2016, quando assumiu o colete como segunda pele, resistindo a tira-lo ao mesmo ritmo que sentia a popularidade a subir, arriscando mesmo a pensar que chegou a dormir com ele.
Voltando a Abrunhosa, não me pronuncio sobre a qualidade da sua atuação enquanto responsável máxima pela proteção civil local, não disponho de elementos técnicos para tal. O que me interessa é o domínio da comunicação e da oportunidade políticas. E nesse capítulo, Abrunhosa teve semanas intensas.
Recorde-se a promoção gratuita concedida por Marcelo Rebelo de Sousa. O Presidente brindou-a com adjetivos generosos: “presidente excecional”, “esteve sempre tesa”, “comunica como praticamente ninguém”. Marcelo, no que toca à comunicação política, dá cátedra. Quando elogia assim, não é por distração semântica. Nem é inédita a queda adjetival para líderes socialistas.
No programa de RAP, Abrunhosa comentou com ironia que passou de “ministra chorona” a “autarca tesa”. A frase teve graça. Mas a memória é caprichosa. Eu recordo-me mais da ministra que tutelava a gestão dos fundos europeus e cujo marido beneficiou de apoios comunitários no valor global superior a 200 mil euros, conforme amplamente noticiado à época. Isso não é ser “chorona”. É, no mínimo, ser generosa. E quanto a ser “tesa”, admitindo que a economia familiar é comum, convenhamos que a expressão ganha elasticidade conceptual. No último quadro comunitário, “tesa” não ficou, com certeza!
Embalada pelo momento mediático, e pelo tempo de antena invulgarmente generoso concedido por duas das figuras mais mediáticas do país, Marcelo e Ricardo Araújo Pereira, Abrunhosa tentou capitalizar o embalo. No encontro com o Ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, aproximou-se quando este falava aos jornalistas e protagonizou o seu “momento Santana Lopes”: acusou-o de falta de respeito pelos autarcas, ameaçando abandonar o encontro se aquilo fosse apenas uma conferência de imprensa.
Durante segundos, parecia ter ganho a cena. A descompostura inicial do ministro, qual aluno encabulado, quase lhe teria rendido aplauso unânime. Mas o problema da política-espetáculo é o excesso. Abrunhosa persistiu durante largos minutos na reprimenda, não aparentando particular interesse em discutir soluções concretas para os conimbricenses afetados pelas cheias. E, ironia suprema, acabou por fazer precisamente aquilo de que acusava o ministro: show off mediático.
Acresce um detalhe nada despiciendo: terá chegado com… 20 minutos de atraso, (os “20 minutos” perseguem-na) sem aviso prévio. De falta de respeito, portanto, estamos conversados.
Num tempo em que tudo é momento e tudo é efémero, saber parar é tão importante quanto saber entrar em cena. Abrunhosa parecia reunir condições para se afirmar como uma possível figura de liderança num PS órfão de carisma.
O Partido Socialista atravessa uma travessia do deserto em matéria de protagonismo mobilizador. José Luís Carneiro é um líder de transição com o carisma de um vizinho do quinto esquerdo. Alexandra Leitão dificilmente será solução, pelas razões que já apontei noutro artigo . Ana Catarina Mendes e Mariana Vieira da Silva eclipsaram-se sem a mão protetora de António Costa. Duarte Cordeiro não teve tempo suficiente enquanto ministro para ganhar balanço. Pedro Delgado Alves prejudica-se mais do que beneficia com o seu comentário televisivo. E Eurico Brilhante Dias, legítimo herdeiro de Jorge Lacão, dificilmente ultrapassará a condição de “impedido”, parafraseando o saudoso arquiteto Saraiva.
Neste cenário, Ana Abrunhosa parecia uma alternativa plausível: presença mediática, experiência governativa, ligação territorial, narrativa de proximidade. Mas a política é um equilíbrio delicado entre firmeza e sobriedade. O excesso de confiança é um vício tão perigoso quanto a falta dela.
Talvez o tempo de antena tenha sabido a consagração antecipada. Talvez as águas da chuva a tenham embriagado. O certo é que, na política contemporânea, 21 minutos e 10 segundos podem ser uma oportunidade rara, um atraso indesculpável ou o início de uma queda d’água.
Ana Abrunhosa foi com a lição bem estudada. Surgiu com o colete da proteção civil, sublinhando visualmente o contexto que justificava a oportunidade: as cheias que devastaram a zona centro do país. Foi uma escolha cénica eficaz.
Nas suas intervenções recentes, Passos voltou a colocar-se como figura incontornável do centro-direita e da direita democrática. Fê-lo com um discurso claro: crítica à “reforma do Estado em PowerPoint”, denúncia da viciação de concursos públicos, defesa da meritocracia, transparência e exigência na administração.
Ventura não ganhará. E talvez fosse desejável que fizesse um percurso semelhante ao de Paulo Portas: não para se diluir numa voz indistinta, mas para, defendendo uma visão mais populista da sociedade, abandonar a verve de ameaça direta à democracia que hoje o define.
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