Durante muito tempo, falou-se na necessidade de se criar imunidade de grupo. Tenho para mim que, no processo, criámos um outro tipo de imunidade, a imunidade ao grupo.
Durante muito tempo, falou-se na necessidade de se criar imunidade de grupo, um estado de protecção de uma população contra uma doença infecto-contagiosa, que se obtém quando uma parte significativa da população fica imune, seja através de contágio ou vacinação. Se estamos a falhar na vacinação, os números recentes mostram que estamos, seguramente, a dar tudo pela imunidade de grupo, num confinamento desconfinado. Tenho para mim que, no processo, criámos um outro tipo de imunidade, a imunidade ao grupo.
E se alguns cientistas consideram a imunidade de grupo uma falácia para gerir uma pandemia pelos riscos associados e a sobrecarga do sistema de saúde, já a imunidade ao grupo, creio, ainda não foi devidamente observada.
O homem é, pela sua natureza, um ser social. Do paleolítico tribal ao tribalismo digital, começámos por agir colectivamente para a caça de sobrevivência. Hoje sobrevivemos a caçar gambozinos, perdidos num reino de algoritmos que nos dizem o que pensar e como pensar. O que é, então, a imunidade ao grupo?
É essa rebelião cobarde de quem chama nomes aos que têm coragem de dizer "não", e a coragem fantasiosa de circular sem máscara dos pseudo negacionistas, que são inconscientemente ignorantes, incapazes da empatia que faz o grupo ou de um sentido de (pequeno) sacrifício pelo colectivo. Perdemo-nos o respeito e, também, o respeito pelo próximo, porque arriscar participar numa festa - ilegal - é não respeitarmos a nossa segurança e desrespeitarmos a necessidade de protecção do outro. Quando olhamos para o umbigo, como centro do mundo - o nosso mundo - perdemos por completo aquilo que nos unia enquanto grupo. São muitos historiadores, sociólogos e filósofos que estudam o desequilíbrio da humanidade e a sua estagnação, fruto de múltiplas questões inter-relacionadas, cuja origem começa a ser cada vez mais difícil determinar. Inclui processos multi-culturais de globalização, colonização e apropriação que produzem violência e discriminações várias, dificultando a convivência social, agravada, nos dias de hoje, pelo excesso do politicamente correcto, uma cultura de normalização e de cancelamento daquilo com que discordamos. Dizer que a culpa é das redes sociais ajuda, mas não chega para explicar o estado latente de apatia e indiferença em que nos encontramos, a par com a necessidade de dar nas vistas para que, falando bem ou mal, possam falar de mim e, com isso, o "mim" receber cada vez mais likes, comentários e seguidores. O contraditório é fixe, quase como selfies perigosas de quem se pendura num arranha céus para dar nas vistas ou vai passear ao paredão, apanhar sol e esfregar na cara de quem ficou em casa que pode. Esse também o problema: podermos. Podermos ir ao pão, passear o cão e tantas outras coisas que nos permitem passar o dia fora de casa. Entre levar os filhos à escola ou a missa de Domingo, o confinamento, como foi definido, é um convite à transgressão para quem não se aguenta fechado em casa, e um ultraje para quem cumpre à risca as recomendações, para quem luta e quem está de luto. Estamos no limite do limite, com ambulâncias em fila para as urgências, ventiladores nos corredores e continuamos como se nada fosse. Porquê? Onde, no processo, perdemos a capacidade de racionalizar o problema, quando foi que os números perderam o rosto e se tornaram estatística?
No plano individual, cada número representa uma tragédia, contudo, globalmente, é um amontoado de mortes que nos torna indiferentes, tal como a repetição dos números, nas notícias, a crítica e o julgamento dos maus comportamentos tende, fim de algum tempo, a fazer ignorar o que dizem as notícias e a reforçar, num tom provocatório, o que nos dizem para não fazermos. Estamos cansados e angustiados, sabemos que a gestão pandémica tem sido feita de avanços e recuos sem grande justificação e que o pior está (sempre) ainda para vir: mais casos, mais mortes, maior calamidade. O cansaço provoca indiferença porque, quanto mais pessoas morrem, menos nos preocupamos com essas mortes, e mais nos concentramos em algo que pouco ou nada tenha a ver com o tema, num estado de dormência que nos impede de ver claro, largo e longe. Quanto mais os media insistem e repetem mais pessoas evitam as notícias e se refugiam onde e como podem, muitas vezes contra a lógica. Estamos, colectivamente, com uma atitude irresponsável, compreensível apenas se pensarmos que perdemos na imunidade de grupo para, infelizmente, ganharmos imunidade ao grupo. É urgente travar a Covid, como é urgente começar a olhar para a tragédia humana dos que lhe sobrevivem e dos que indirectamente são por ela afectados, porque no colectivo, não há pior do que a indiferença às necessidades do grupo e essa batalha, há muito que a perdemos.
As redes estão preparadas para alavancar o óbvio: emoção, contradição, discussão. O que nos provoca raiva ou indignação ganha uma força que a mesma história, contada de outra forma, não consegue alcançar. E, por isso, se queremos, realmente, fazer por mudar, o digital ajuda mas não chega.
O ChatGPT foi lançado no final de 2022 e, desde então, grande parte do conteúdo que encontramos online passou a ser produzido, parcial ou totalmente, por inteligência artificial. Falta discutir limites éticos.
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