Sábado – Pense por si

Mónica Ferro
Mónica Ferro Diretora do escritório de Londres do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA)
27 de abril de 2026 às 20:23

A verdadeira crise de fertilidade - a falta de escolhas

Num momento em que vários países parecem alarmados com a queda da natalidade, novos dados mostram que o verdadeiro problema não é a falta de vontade de ter filhos, mas sim a falta de condições para os ter.

O debate sobre natalidade está a confundir desejo com capacidade; muitas pessoas querem ter filhos, mas não conseguem.

Nos últimos anos, a queda das taxas de natalidade tem dominado o debate público em muitos países. Fala-se de “inverno demográfico”, de colapso populacional, de gerações que alegadamente perderam o interesse em ter filhos. Mas esta narrativa está errada e, mais grave ainda, conduz frequentemente a respostas políticas igualmente erradas.

O nosso mais recente relatóriosobre a Situação da População Mundial 2025, A verdadeira crise de fertilidade: em busca da autonomia reprodutiva num mundo em mudança, procura responder a uma pergunta essencial: porque estão as pessoas a ter menos filhos?

Os dados são claros. A maioria das pessoas continua a desejar ser mãe ou pai. A queda das taxas de fertilidade não resulta de uma mudança súbita de valores ou de uma rejeição da parentalidade. O que está a acontecer é algo muito mais profundo: milhões de pessoas não conseguem ter o número de filhos que desejariam. Esta é a verdadeira crise da fertilidade.

Um inquérito conduzido pelo UNFPA a 14 mil pessoas em 14 países - de todas as regiões do mundo incluindo países com taxas de fertlidade muito baixas e países com taxas elevadas - mostra-nos uma realidade surpreendente: uma em cada cinco pessoas com menos de 50 anos acredita que não conseguirá ter o número de filhos que gostaria. Entre aqueles que já completaram a sua vida reprodutiva, quase um terço acabou por ter menos filhos do que desejava.

As razões são múltiplas, mas raramente têm que ver com falta de vontade. Pelo contrário. Para mais de metade das pessoas que gostariam de ter filhos, os obstáculos económicos são a principal razão invocada: habitação demasiada cara, precariedade laboral, salários que não acompanham o custo de vida. Para muitos jovens casais, a parentalidade tornou-se um projeto quase impossível de financiar.

Outros enfrentam barreiras relacionadas com a saúde: doenças crónicas, infertilidade ou sistemas de saúde que não garantem acesso a cuidados reprodutivos de qualidade. A "dupla jornada" e a desigual partilha de tarefas de cuidado e domésticas entre homens e mulheres é outro dos determinantes fundamentais; muitas mulheres sentem qaue têm que escolher entre ter uma carreira ou uma família.

E há ainda um fator cada vez mais presente: a incerteza em relação ao futuro. Conflitos armados, instabilidade política e ansiedade climática fazem com que muitos jovens questionem que tipo de mundo irão deixar para os seus filhos.

Por detrás destes números existem histórias humanas muito concretas. Uma jovem ucraniana explicou-nos que sempre quis ter filhos, mas que, ao observar as dificuldades enfrentadas por tantas famílias à sua volta, questiona-se se seria justo trazer uma criança para um contexto de guerra. Noutra parte do mundo, em Abuja, na Nigéria, um casal que já tinha dois filhos acabou por enfrentar uma terceira gravidez não planeada, apesar de saber que os seus recursos já estavam no limite.

Estas histórias mostram duas faces da mesma realidade: muitas pessoas estão a ser empurradas para a parentalidade, enquanto muitas outras são impedidas de a concretizar. Quando reduzimos o debate a paragonas sobre pessoas que “não querem ter filhos”, perdemos de vista estas experiências e ignoramos as verdadeiras causas do problema.

Infelizmente, algumas das respostas políticas que começam a surgir não ajudam. Em vários países europeus, por exemplo, cresce a pressão, mais ou menos explícita, para que as mulheres tenham mais filhos. Há governos que lançam campanhas públicas para incentivar a natalidade. Outros restringem o acesso à contraceção ou aos serviços de saúde sexual e reprodutiva. A história mostra-nos à saciedade que este caminho não funciona.

Políticas coercivas ou moralizantes não aumentam a natalidade. Pelo contrário: quando as pessoas sentem que as suas escolhas reprodutivas estão a ser condicionadas, a probabilidade de decidirem ter filhos diminui. Além disso, estas abordagens ignoram um facto essencial: as mulheres não são responsáveis pela queda da fertilidade.

As taxas de natalidade estão a cair porque as sociedades falharam em criar condições para que as pessoas possam construir as famílias que desejam. Habitação inacessível, desigualdade no trabalho doméstico, falta de serviços de apoio à infância e precariedade laboral não são apenas problemas sociais; são também determinantes demográficos.

A experiência mostra-nos, por exemplo, que quando as mulheres carregam sozinhas o peso do trabalho de cuidado dentro de casa, as taxas de fertilidade tendem a diminuir. Pelo contrário, sociedades onde os homens participam mais ativamente na parentalidade tendem a oferecer melhores condições para quem deseja ter filhos. Também não podemos ignorar as desigualdades no acesso aos cuidados de fertilidade: comunidades marginalizadas, migrantes ou pessoas LGBTQI+ continuam frequentemente excluídas.

Se queremos enfrentar os reptos demográficos do século XXI, precisamos de abandonar respostas simplistas e investir em políticas que ampliem as escolhas das pessoas. Isso significa garantir acesso universal a serviços de saúde sexual e reprodutiva, incluindo planeamento familiar e cuidados de fertilidade; promover igualdade entre mulheres e homens no trabalho e na vida familiar; investir em habitação acessível, emprego digno e políticas familiares que tornem possível conciliar trabalho e parentalidade.

Mas significa também algo mais profundo: reconstruir a confiança no futuro. As decisões sobre ter filhos são, talvez, as decisões mais íntimas e consequentes das nossas vidas. Ninguém as toma num vazio. Tomam-se olhando para o mundo à nossa volta e perguntando: haverá estabilidade? haverá oportunidades? haverá esperança?

O debate sobre fertilidade é também um debate sobre o tipo de sociedade que estamos a construir. Se queremos que as pessoas tenham filhos (se e quando o desejarem) precisamos de construir sociedades onde isso seja possível sem receio, sem pressão e sem sacrifícios impossíveis. Essas seão sociedades onde os direitos reprodutivos são respeitados, onde as famílias sãoapoiadas e onde os jovens podem acreditar que os seus filhos irão crescer num mundo mais justo, mais seguro e mais sustentável.

A verdadeira resposta à crise da fertilidade não está em dizer às pessoas quantos filhos devem ter. Está em garantir que cada pessoa pode decidir livremente se quer ter filhos, quando quer tê-los e quantos deseja ter.

Essa é a base de qualquer sociedade verdadeiramente livre e também a base de um futuro demográfico sustentável.

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