Sábado – Pense por si

Mónica Ferro
Mónica Ferro Diretora do escritório de Londres do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA)
07 de abril de 2026 às 07:00

Redesenhar o mundo para metade da humanidade

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Edição de 17 a 23 de março

O mundo foi, durante décadas, desenhado com um padrão implícito: o corpo masculino. Esse facto — tantas vezes invisível — continua a influenciar a ciência, a tecnologia, o design de produtos e até algumas políticas públicas.

Hoje (7 de Abril) celebra-se o Dia Mundial da Saúde. Este ano as Nações Unidas escolheram como tema global “Juntos pela Saúde. Apoie a Ciência” — um apelo a que sociedades, governos e instituições se unam em torno da ciência para melhorar a saúde de todas as pessoas. Porém, se queremos realmente “apoiar a ciência”, precisamos também de reconhecer uma verdade desconfortável: durante demasiado tempo, a ciência e a inovação em saúde ignoraram metade da humanidade.

O mundo foi, durante décadas, desenhado com um padrão implícito: o corpo masculino. Esse facto — tantas vezes invisível — continua a influenciar a ciência, a tecnologia, o design de produtos e até algumas políticas públicas. E as consequências são reais. Por isso, num momento em que a inovação avança a uma velocidade sem precedentes, pense comigo: para quem é que a inovação está realmente a ser construída?

Apesar dos enormes progressos na saúde global nas últimas décadas, a saúde das mulheres continua subinvestigada, subfinanciada e subpriorizada. Décadas de subinvestimento deixaram marcas profundas: hoje, apenas cerca 7% da investigação em saúde se dedica a condições que afectam exclusivamente as mulheres.

Este défice de conhecimento e de investimento traduz-se em falhas concretas. Em média, as mulheres passam 25% mais tempo em mau estado de saúde ao longo da vida do que os homens. E quando olhamos para a investigação clínica, o padrão repete-se: um estudo sobre ensaios de dispositivos médicos realizados entre 2016 e 2022 mostrou que as mulheres representavam apenas cerca de 33% dos participantes, sendo ainda menos representadas em áreas críticas como a cardiologia.

As consequências destas ausências não são despiciendas. Todos os dias, 712 mulheres morrem devido a complicações relacionadas com a gravidez, o parto e o pós-parto — muitas delas preveníveis. Ao mesmo tempo, mais de um milhão de infeções sexualmente transmissíveis são contraídas diariamente no mundo, muitas sem sintomas, o que reforça a necessidade de diagnósticos rápidos e integrados.

A situação torna-se ainda mais preocupante quando olhamos para o acesso aos serviços de saúde. Estima-se que 257 milhões de mulheres que desejam evitar ou adiar uma gravidez não têm acesso a métodos contraceptivos modernos e seguros. Esta lacuna gera muitas gravidezes não planeadas e contribui diretamente para a mortalidade materna.

A desigualdade não se limita à investigação. Mesmo quando existem soluções médicas eficazes, estas nem sempre chegam a todas as mulheres, seja por falta de acessibilidade económica, fragilidades nos sistemas de saúde ou rupturas nas cadeias de abastecimento.

O impacto destas falhas ultrapassa o domínio da saúde. As lacunas no acesso a cuidados e inovação limitam o rendimento, a produtividade e a participação económica das mulheres, criando um efeito dominó nas economias e nos sistemas de saúde. Reduzir estas desigualdades pode trazer ganhos significativos: fechar este hiato na saúde das mulheres poderia acrescentar até mil mihões de dólares ao produto interno bruto global por ano até 2040.

E, no entanto, os investimentos continuam extremamente baixos. Apenas 1% do financiamento global em investigação e desenvolvimento, excluindo o cancro, se dedica a soluções centradas nas mulheres. Na tecnologia em ciências da vida, apenas 4% dos investimentos têm como foco a saúde feminina. E no ecossistema de capital de risco, startups lideradas por mulheres recebem cerca de 2,3% do financiamento global.

As consequências deste desequilíbrio tornam-se visíveis em muitos aspetos das nossas vidas. No design automóvel, por exemplo, as mulheres têm 17% mais probabilidade de morrer em acidentes de viação, em parte porque durante décadas os testes de segurança utilizaram manequins baseados no corpo masculino. Durante a pandemia de COVID-19, estimou-se que apenas 14% das profissionais de saúde tivessem acesso a equipamentos de proteção individual ajustados ao seu corpo.

Tudo isto revela uma realidade simples: o mundo foi, em grande medida, concebido sem as mulheres no centro do processo de inovação.

E, no entanto, as mulheres são um dos motores mais poderosos de progresso económico e social. Controlam cerca de 43 mil milhões de dólares em despesas de consumo e tomam aproximadamente 90% das decisões relacionadas com cuidados de saúde nas famílias. Até 2030, prevê-se que mais 100 milhões de mulheres entrem na força de trabalho global.

Investir na saúde das mulheres não é apenas uma questão de equidade. É uma estratégia económica inteligente. As estimativas indicam que cada dólar investido na saúde das mulheres pode gerar até 40 dólares em retorno económico.

A boa notícia é que a ciência e a inovação oferecem hoje ferramentas poderosas para transformar esta realidade.

Novas tecnologias de diagnóstico rápido permitem, por exemplo, que profissionais de saúde combinem planeamento familiar, cuidados maternos e testes de VIH ou outras infeções sexualmente transmissíveis numa única consulta, tornando os serviços mais eficientes e centrados na pessoa.

As tecnologias digitais estão também a expandir o acesso à saúde em comunidades remotas ou com poucos recursos. Sistemas de rastreio digital podem melhorar a gestão de inventários de medicamentos, apoiar a formação de profissionais de saúde e facilitar o diagnóstico precoce de doenças como o cancro do colo do útero ou complicações na gravidez.

Ao mesmo tempo, novas abordagens de autocuidado estão a reforçar a autonomia das mulheres e das jovens. Métodos contracetivos autoadministrados, consultas de telemedicina e aplicações móveis que oferecem educação sexual e reprodutiva permitem que milhões de pessoas acedam a informação e serviços de forma confidencial e segura.

Mas para que a inovação cumpra todo o seu potencial, precisamos de mais do que avanços científicos. É preciso reduzir as desigualdades na investigação, no investimento e no acesso às tecnologias, criando sistemas de saúde robustos capazes de levar estas soluções a todas as comunidades — dos grandes hospitais aos serviços de saúde mais próximos das populações.

Isso implica políticas públicas que apoiem a inovação, regulamentação que facilite a adopção de novas tecnologias e investimento em produção regional que reduza custos e aumente a disponibilidade de soluções médicas. Isto significa reconhecer que a igualdade na saúde das mulheres não é apenas uma questão de direitos humanos — é, outrossim, uma condição essencial para sociedades mais prósperas, resilientes e inovadoras.

Uma jovem que entra hoje na idade adulta não deveria sentir que o mundo foi desenhado sem a ter em consideração. Não deveria ter de adaptar-se a sistemas, tecnologias ou estruturas que ignoram as suas necessidades.

A pergunta que devemos fazer é simples: se sabemos como resolver estas desigualdades, porque continuamos a aceitá-las?

Hoje em que o Dia Mundial da Saúde nos convida a “apoiar a ciência”, a resposta deve ser clara: é tempo de colocar a ciência verdadeiramente ao serviço de todas as pessoas — e isso começa por redesenhar o mundo para as mulheres.

Porque quando redesenhamos o mundo para as mulheres, na realidade estamos a redesenhá-lo para todas as pessoas.

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