Sábado – Pense por si

Mónica Ferro
Mónica Ferro Diretora do escritório de Londres do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA)
23 de março de 2026 às 15:49

O custo invisível das crises: o corpo das mulheres

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Edição de 17 a 23 de março

Quando as equipas do Fundo das Nações Unidas para a População chegaram com clínicas móveis e serviços de proteção, Amina disse a uma das nossas parteiras: “Pensei que o mundo se tinha esquecido de nós.”

Permitam-me que comece com uma estória que não consigo esquecer.

Há uns anos, num campo de deslocados num contexto de conflito prolongado, encontrei uma jovem mulher — chamemos-lhe Amina. Tinha fugido da sua aldeia depois de a violência ter explodido à porta de casa. O hospital onde esperava dar à luz tinha sido destruído. As estradas que antes traziam medicamentos e contraceptivos tinham sido interrompidas. Toda a sua vida havia sido reduzida a uma sucessão de riscos e necessidades básicas que simplesmente desapareceram.No meio da confusão e da dor, Amina enfrentou algo que milhões de mulheres em crises humanitárias conhecem demasiado bem: não apenas a perda da segurança, mas a perda da autonomia mais íntima — o poder de decidir sobre o seu próprio corpo.

Quando as equipas do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) chegaram com clínicas móveis e serviços de proteção, Amina disse a uma das nossas parteiras: “Pensei que o mundo se tinha esquecido de nós.”

As suas palavras ficaram comigo. Porque captam uma realidade profunda: quando os sistemas falham — quando começa a guerra, quando as instituições colapsam, quando a vontade política desaparece — são frequentemente as mulheres e as raparigas as primeiras a ser esquecidas.

E, no entanto, são quase sempre as primeiras a reconstruir.

Direitos que só existem no papel — mas desaparecem na vida real

Em 2026, no Dia Internacional da Mulher, o tema global — Direitos. Justiça. Ação. Para todas as mulheres e raparigas. — lembra-nos de um compromisso que ainda está longe de ser concretizado.

Apesar de décadas de progresso, a realização dos direitos das mulheres continua desigual, frágil e incompleta. Leis, que embora existam, não se traduzem em mudanças reais. Em muitos países, mulheres ainda não podem tomar decisões elementares sobre saúde e corpo sem a autorização de outra pessoa. Isto não é apenas uma falha legal — é uma falha de dignidade humana.

A desigualdade de género raramente existe isoladamente. Cruza-se com outras formas de exclusão — pobreza, raça, geografia, estatuto migratório, deficiência ou heranças coloniais. As mulheres mais afetadas pela injustiça são frequentemente aquelas que vivem na interseção de várias destas desigualdades. Quem vive no cruzamento de múltiplas formas de discriminação — por exemplo, mulheres deslocadas ou refugiadas — encontra barreiras que parecem quase intransponíveis.

A violência que continua invisível

Os números globais são aterradores. Milhões de mulheres ao redor do mundo sofrerão violência física ou sexual ao longo da vida. E isto não são apenas números: são realidades vividas em casa, nas ruas, nos campos e nos corredores dos  hospitais.

A cada dez minutos, uma mulher ou rapariga perde a vida nas mãos de um parceiro ou familiar. Este ritmo revela algo que já não é apenas violência isolada — é violência estrutural, normalizada. E apesar dos compromissos internacionais para reduzir estas formas de violência, a mudança tem sido dolorosamente lenta.

Quando a violência se cruza com conflitos armados... escala. Hospitais e maternidades são destruídos, cadeias de abastecimento de contraceção são interrompidas, e o acesso a serviços de saúde sexual e reprodutiva desaparece quando são mais necessários. É aqui que a chamada violência reprodutiva — a negação sistemática do direito de decidir sobre o próprio corpo — se torna especialmente cruel.

É neste contexto que o trabalho do UNFPA se torna essencial. Em zonas de guerra, campos de refugiados e áreas afetadas por desastres, as nossas equipas lutam todos os dias para garantir que a saúde e direitos sexuais, a maternidade e a autonomia corporal das mulheres não são secundarizadas. Trabalham para que os partos sejam seguros, que o acesso à contracepao seja garantido, que sobreviventes de violência recebam cuidados e apoio, e que existam espaços seguros para raparigas e mulheres retomem alguma normalidade.

Incluem também a distribuição de “kits de dignidade” — com produtos de higiene, roupa interior e bens básicos que parecem simples, mas devolvem um mínimo de autonomia em situações de deslocação e vulnerabilidade.

Foi uma dessas clínicas que ajudou Amina a dar à luz.

Mas a dura realidade é que, enquanto as necessidades aumentam, os recursos diminuem. A resposta humanitária global enfrenta um momento de crise financeira sem precedentes. Em contextos de crise, programas fundamentais focados na saúde das mulheres, a igualdade de género e a proteção contra a violência têm alvos dos cortes mais abruptos.

Este fenómeno não é uma coincidência. A política global está hoje atravessada por tensões geopolíticas, fragmentação e prioridades divergentes que fragilizam o sistema multilateral de solidariedade que historicamente sustentou as respostas humanitárias. Quando os apoios diminuem, as consequências são imediatas:

Menos parteiras.

Menos abrigos seguros.

Menos apoio a sobreviventes.

Menos acesso à saúde reprodutiva.

mais mulheres como Amina a perguntar-se se o mundo realmente se lembra delas.

Por que o multilateralismo ainda importa e o poder da localização

Num mundo de desafios transnacionais — guerras, deslocações, desigualdades, eventos climáticos extremos — não há soluções isoladas. O sistema internacional baseado em cooperação entre países e organizações multilaterais foi desenhado precisamente para enfrentar problemas que nenhum país consegueria resolver sozinho.

E os direitos humanos não são privilégios nacionais, nem luxos que se abandonam em tempos de crise. Eles são compromissos coletivos.

Quando a cooperação internacional enfraquece, os primeiros a sentir esse impacto — e os que mais sofrem — são quem já se encontra em situação de vulnerabilidade Os programas que mais dependem de solidariedade global — como os de saúde sexual e reprodutiva em emergências — são também os que mais rapidamente desaparecem quando o financiamento é cortado.

Mas a transformação também exige olhar para dentro. A resposta humanitária tem que evoluir para capacitar lideranças locais, especialmente organizações lideradas por mulheres nos cenários afetados. Essas lideranças compreendem profundamente as realidades das suas comunidades — e sabem como as desigualdades de género se entrelaçam com exclusões económicas, raciais e sociais.

Ainda assim, historicamente, recebem uma fração ínfima do financiamento global. Isso não é apenas uma falha técnica — é uma falha de justiça.

Transferir mais poder e recursos para quem está diretamente na linha da frente não é apenas mais eficaz — é moralmente correto.

Um mundo de escolhas, também para a Amina

Estamos, mais do que nunca, num momento decisivo . As conquistas alcançadas nas últimas décadas são reais, mas o progresso não é inevitável. Pode estagnar. Pode recuar. E a história mostra que os direitos humanos exigem uma defesa permanente.

Apesar dos desafios, há também motivos para esperança: movimentos liderados por mulheres, ativistas que transformam o discurso público, sobreviventes que se erguem e exigem justiça. Cada parturiente que recebe cuidados adequados, cada rapariga que permanece na escola, cada mulher que encontra apoio depois de violência — todos estes actos aproximam-nos da promessa universal dos direitos humanos.

Semanas depois de receber cuidados na clínica apoiada pelo UNFPA, Amina deu à luz uma menina saudável. Quando as equipas regressaram para a visitar, ela disse algo diferente desta vez: “Agora sei que alguém está ao nosso lado.”

E é isto o que está em causa. Não se trata apenas apenas um trabalho técnico ou um conjunto de serviços, mas sim de estar ao lado das mulheres e raparigas, muitas vezes esquecidas pelos sistemas que dizem proteger todas as vidas.

Estar ao lado delas significa afirmar, todos os dias, que os direitos não são privilégios reservados a alguns,  nem concessões temporárias. São compromissos inalienáveis.Enquanto houver uma Amina que pensa que foi esquecida, o nosso trabalho não estará concluído.

Este texto serviu de base à nossa comunicação de abertura da Conferência “Direitos Humanos das Mulheres: uma perspetiva interseccional e anticolonialista" na Nova Law School de dia 5 de Março de 2026P.

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