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Miguel Costa Matos
Miguel Costa Matos Economista e deputado do PS
27 de janeiro de 2026 às 11:53

Ainda comemos crianças ao pequeno-almoço

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Pode estar fora de moda, mas, como Mário Soares também dizia, um político assume-se. Eu sou socialista e este artigo não é sobre as eleições – é um remédio para um dos seus sintomas. É o elogio que o socialismo merece.

Esta eleição não é sobre socialismo. É sobre liberdade, estabilidade, esperança, experiência, sensatez, unidade, e tantas outras virtudes políticas que devemos festejar com um maciço mandato de confiança a António José Seguro.

Por muito que alguns queiram fazer esta eleição sobre socialismo, ela não o será. Seguro nem é o Che Guevara de Penamacor, nem é um homem sem convicções. Pelo contrário, ele é conhecido por momentos em que mostrou a sua fibra, desde Timor à lei do financiamento dos partidos, e por outros onde mostrou a sua moderação.

Isto não é sequer novidade numa campanha onde Seguro quando muito foi criticado por não se querer colocar em gavetas. Por ser um construtor de pontes nato, desde o início que percebeu a importância de poder representar aqueles que hoje se designam “não-socialistas”.

Mas lá porque não cabe a Seguro o papel de defender o socialismo, os socialistas não podem simplesmente comer e calar quando querem tornar ser-se socialista numa espécie de lepra. Não podemos permitir, muito menos por falta de comparência, a consolidação do PS como malfeitor do nosso período democrático ou da ideia do socialismo como bicho papão, equiparado ao comunismo. A este ritmo, ainda comemos crianças ao pequeno-almoço.

Pode estar fora de moda, mas, como Mário Soares também dizia, um político assume-se. Eu sou socialista e este artigo não é sobre as eleições – é um remédio para um dos seus sintomas. É o elogio que o socialismo merece.

A primeira pergunta a colocar é de que “socialismo” falam. Para o gongórico Nuno Melo, até o Chega é socialista. Para Ventura, socialista é todo o período desde o 25 de abril. Faz lembrar aqueles comunistas enrijecidos para quem até o PS era de direita. Deve ser muito chato ver o mundo de uma cor só, mas se o socialismo é esta democracia onde podemos falar livremente, propor diferente, então que belo “sambinha de uma nota só” nos saiu.

Se, no segundo seguinte socialismo já é Venezuela, Coreia do Norte, Cuba, e todo o leque de estados falhados – se já mata, se já destrói – podemos começar pelo facto de terem sido os socialistas os primeiros a ser atacados por esses regimes, a começar pelos mencheviques na Rússia soviética. Podemos falar de semelhantes feitos numa longa lista de estados autoritários de direita ou paraísos neoliberais que cedo se tornaram um inferno de violência e de miséria.

Mas talvez o mais simples seja reafirmar que há quase 150 anos que se distinguem os reformistas e os revolucionários, não só na forma como querem chegar ao poder e exercê-lo, mas também na forma como encaram a iniciativa privada e nos objetivos tão bem resumidos na dicotomia de Olof Palme – não acabar com os ricos, mas acabar com os pobres.

E se passarmos à frente e nos focarmos nos socialistas portugueses? O que terão feito esses vilões da banda desenhada? O salário mínimo, a construção do SNS, o alargamento da escola pública, os computadores para os miúdos, as creches e os manuais gratuitos, a aposta nas energias renováveis? A lei da paridade, a descentralização para os municípios, o fim das subvenções vitalícias? 10 anos de crescimento económico e dos salários, em que voltámos a ultrapassar países do Leste e em que obtivemos os primeiros superavits da história da democracia? Ah, não, ainda queres falar sobre a descolonização? Ou da patranha das 3 bancarrotas, das quais duas foi Mário Soares quem teve que salvar o país da situação onde outros o colocaram.

O PS não fez tudo e não fez tudo bem, mas nem o país mais rico com a democracia mais avançada consegue resolver os seus problemas todos. A história do progresso económico, social e político do nosso país é escrito, em larga medida, por impulsos dos malvados socialistas. Nem por um segundo me vão convencer a ter vergonha no que o PS fez e no que lhe proporcionou tantas vitórias eleitorais nos últimos 30 anos.

Quando isto que realmente importa não convém, fala-se de outras coisas, não menos importantes. Como tenho ouvido a potes em debates, para os eleitos do CHEGA os socialistas são todos corruptos que metem boys e pedófilos no poder. O único socialista que foi julgado por pedofilia foi ilibado e indemnizado. Veremos o que acontece a Nuno Pardal Ribeiro. Infelizmente, pessoas más e más práticas há em todos os partidos e, aliás, todos os locais de poder. O CHEGA acaba de colocar no gabinete do Presidente da Câmara de Albufeira a sua própria irmã, no gabinete da Assembleia Legislativa Regional da Madeira a ex-mulher do deputado Francisco Gomes. Em Lisboa, nem têm a Câmara e já distribuem empregos. Será que agora também são “tachos” e “boys” ou apenas acham que é a sua vez de estar na cozinha?

Isso não iliba o PS de sancionar os infratores dentro do seu partido. Ao contrário do atual Governo, onde os casos se acumulam sem que ninguém seja responsabilizado, eu lembro-me bem de governantes do PS, incluindo o próprio António Costa, que se demitiram porque não se admitia que as funções executivas fossem manchadas por qualquer tipo de suspeição. 2 anos depois, a operação Influencer ainda não avançou mas, por exemplo, Miguel Alves já foi absolvido. Talvez seja ocasião para recordar que também foi o PS a aprovar os 2 pacotes de legislação anti-corrupção, em 2001 e 2021 e a dotar a PJ e o MP dos recursos técnicos e humanos para reforçar o combate a esta criminalidade.

Podem tentar fazer desta eleição um julgamento ao socialismo. Não o será. Porque o socialismo não é um insulto. É a história viva de um país que escolheu cuidar, incluir e crescer. Não abdicamos dos nossos valores, do nosso legado nem do futuro que queremos construir. O vento político pode soprar à direita, mas as pessoas continuam a acreditar na igualdade de oportunidades, na solidariedade para com os mais desfavorecidos, na regulação do mercado e na dignidade do trabalho. Essas continuam a ser as nossas razões, o nosso devir e a mais bonita epopeia de um povo que não aceita desistir.

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