Lisboa, as Juntas e o eterno laboratório da promiscuidade política
O mais relevante, porém, não é apenas o caso concreto. O mais relevante é a sensação de repetição. Porque Portugal já viu este filme, e viu-o precisamente em Lisboa.
As buscas realizadas esta quinta-feira pela PJ
à Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, envolvendo também a sede nacional do
Partido Socialista, voltaram a colocar Lisboa no centro de um debate sobre a
promiscuidade entre poder político local, adjudicações públicas e redes de
influência partidária.
Segundo as informações conhecidas até ao
momento, a investigação denominada “Operação Imergente”, envolve suspeitas de
prevaricação, participação económica em negócio, peculato, abuso de poderes,
falsificação de documentos e fraude fiscal qualificada. O MP investiga
adjudicações públicas cujo valor global rondará os dois milhões de euros, bem
como suspeitas de faturação fictícia ligada ao financiamento partidário.
Entre os alvos da investigação surge a Junta
de Freguesia de Santa Maria Maior e o antigo presidente Miguel Coelho, figura
influente do socialismo lisboeta e durante anos um dos rostos mais visíveis da
máquina autárquica do PS na capital.
O mais relevante, porém, não é apenas o caso
concreto. O mais relevante é a sensação de repetição. Porque Portugal já viu
este filme, e viu-o precisamente em Lisboa.
O paralelismo com o processo Tutti Frutti é
inevitável. Esse inquérito, tornado público há anos, expôs alegadas redes de
favorecimento cruzado entre dirigentes do PS e do PSD em juntas de freguesia e
estruturas municipais da capital. Falava-se então de trocas de favores,
contratação de militantes, quotas partidárias, assessorias suspeitas e
adjudicações orientadas politicamente.
O que torna estes casos particularmente
corrosivos para a democracia não é apenas a eventual prática de crimes. É a
banalização de uma cultura política local onde demasiadas vezes o aparelho
partidário se confunde com a administração pública.
As juntas de freguesia, sobretudo nas grandes
cidades, tornaram-se estruturas com capacidade financeira significativa, enorme
proximidade territorial e reduzido escrutínio mediático. São, por isso, espaços
ideais para a construção de redes de fidelização política. Pequenos contratos,
ajustes diretos, associações locais, eventos culturais, avenças, contratação de
serviços e apoio a coletividades criam uma teia de dependências que, quando não
existe fiscalização rigorosa, rapidamente desliza da gestão política para a
lógica de “máquina”.
A Freguesia de Santa Maria Maior é um
território particularmente simbólico pois é o coração histórico de Lisboa com
os seus bairros carismáticos como Alfama, Mouraria, Castelo, Baixa e Chiado. Um
território com forte pressão turística, milhares de licenças, interesses
económicos relevantes e enorme exposição mediática. A gestão de espaço
público numa freguesia destas representa poder real. E onde existe poder
administrativo concentrado durante muitos anos, cresce inevitavelmente o risco
de captura por redes políticas ou económicas.
Há, aliás, um padrão recorrente da diluição
das fronteiras entre confiança política e favorecimento ilícito. O problema
começa quando a confiança política substitui a concorrência transparente,
quando os fornecedores passam a ser quase permanentes e quando determinados
operadores económicos parecem ter acesso privilegiado ao poder local.
Outro dado preocupante é o desgaste
institucional provocado pela sucessão de megaoperações mediáticas sem desfecho
célere. O processo Tutti Frutti arrasta-se há anos. Há arguidos, suspeitas
graves e um impacto político gigantesco, mas a justiça continua lenta e incapaz
de produzir decisões definitivas num prazo razoável. Isso gera o
fenómeno perverso de metade do país passar a acreditar que “todos roubam” e a
outra metade passar a acreditar que “nunca acontece nada”. Em ambos os casos,
quem perde é a democracia.
Também é importante evitar simplificações
perigosas. Nem todas as adjudicações diretas são corrupção. Nem todos os
autarcas investigados são culpados. Nem todas as estruturas partidárias
funcionam como aparelhos clientelares. Aliás, muitas juntas de freguesia
desempenham trabalho essencial de proximidade social, apoio a idosos, limpeza
urbana e dinamização cultural. O problema é precisamente esse: quando surgem
suspeitas desta dimensão, o dano reputacional alastra a todo o poder local.
O PS já veio afirmar que o partido “não é
visado” pela investigação e que as diligências dizem respeito a atividades
imputadas a um trabalhador.
Politicamente, porém, isso dificilmente
basta. A simples presença da PJ na sede nacional de um partido tem sempre um
efeito devastador na perceção pública, sobretudo quando o país ainda tem fresca
na memória a queda de António Costa na sequência da Operação Influencer.
Mas também seria intelectualmente desonesto
transformar esta discussão numa exclusividade do PS. O próprio caso Tutti
Frutti mostrava alegadas relações promíscuas envolvendo quadros do PSD e do PS.
O problema é mais profundo do que um partido. É um modelo político local
demasiado dependente de aparelhos, fidelidades internas e ocupação prolongada
de territórios administrativos.
Actualmenre corrupção moderna raramente
aparece sob a forma caricatural do “envelope de dinheiro”. Surge antes sob
mecanismos sofisticados de influência, contratação, favorecimento e
reciprocidade política. É uma corrupção difusa, burocrática e muitas vezes
socialmente normalizada.
E talvez seja precisamente isso que torna
estes casos tão perigosos. Não porque revelem exceções monstruosas ao sistema,
mas porque sugerem a existência de hábitos instalados. Quando uma democracia
começa a habituar-se às buscas, às detenções e às suspeitas permanentes em
estruturas do poder local, o maior risco deixa de ser apenas criminal.
Passa a constituir um risco moral porque a
erosão da confiança pública não acontece de um dia para o outro. Acontece
lentamente, busca após busca, operação após operação, até que os cidadãos
deixam de acreditar que a política serve o interesse público e passam a vê-la
apenas como um sistema fechado de distribuição de influência.
Lisboa, as Juntas e o eterno laboratório da promiscuidade política
O mais relevante, porém, não é apenas o caso concreto. O mais relevante é a sensação de repetição. Porque Portugal já viu este filme, e viu-o precisamente em Lisboa.
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