As festas que outrora celebravam a fertilidade da natureza e as boas colheitas, são hoje produto da sociedade de consumo fugaz e de descarte.
O mês de junho é celebrado com imensa efusividade através de festas, arraiais e sardinhadas um pouco por todo o país. Quer seja Santo António, São Pedro ou São João, populações de norte a sul saem à rua para celebrar a chegada das noites quentes e dos dias longos, esquecendo até o caráter pagão que estas festas tinham nos seus primórdios.
Durante estes dias, os mais conscientes saem à rua de copo na mão prontos para enfrentarem qualquer multidão e poderem beber à vontade sem ter que pagar por mais um copo que se iria acumular em casa. Em teoria, este seria o modus operandi de todos, já que que foi proibida a utilização de copos descartáveis de utilização única. Na prática, não é bem assim que acontece.
Por um lado, os portugueses ainda não se acostumaram à ideia de sair de casa com um copo reutilizável, por outro há sempre estabelecimentos que têm copos reutilizáveis à disposição, ou até mesmo descartáveis. Os primeiros, são muitas vezes comercializados sem qualquer oportunidade de devolução, os segundos parecem estar em escoamento infinito desde há três anos para cá.
Algumas marcas anunciam a coleção de copos reutilizáveis, reduzindo esses artefactos que se acumulam nas prateleiras de casa a cromos de coleção. Ainda mais grave, é quando os estabelecimentos nos impedem de utilizar o nosso próprio copo reutilizado, sendo obrigados a comprar um que aí seja comercializado. E assim, toda a lógica de evitar o desperdício de recursos e de fomentar a economia circular é completamente descartada.
Na verdade, a lei que proibiu a utilização de plástico de uso único tem já três anos mas só em 2024 terminava o período de adaptação para o setor da restauração.
Em Lisboa, anunciou-se o fim da utilização destes copos em 2020, no entanto continuamos a assistir a um mar de copos deitados ao chão nas manhãs que sucedem os grandes arraiais. O apelo foi reiterado em maio de 2024 pela Câmara Municipal, dando um novo período de adaptação de 60 dias. No entanto, essa medida, para além de tardia, revelou-se pouco ambiciosa ao ignorar deliberadamente um dos períodos do ano em que mais copos de plástico são utilizados.
Mas não é só de copos descartáveis que os santos populares se caraterizam, até porque assim estaria a incorrer no centralismo lisboeta que tanto vigora na mentalidade da capital. No resto do país, há balões de ar quente e martelos de plástico a serem produzidos em quantidades industriais durante esta altura do ano. Os balões são lançados ao ar sem destino, até perderem a força e caírem inevitavelmente em terra desconhecida. Os martelos, que por por defeito já têm um ciclo de vida curto, são utilizados durante uma noite e depois ficam o ano inteiro a acumularem pó num canto qualquer das nossas casas.
Não admira que sejamos um dos países da União Europeia mais atrasados no desenvolvimento da economia circular. Este conceito, ainda estranho para muitos portugueses, vai-se arrastando no tempo com falta de regulação adequada e pouca sensibilização das empresas e consumidores. E os materiais, que contribuem para alimentar a tradição e os costumes populares, sendo de uso único, dificultam a possibilidade de serem reintroduzidos na economia novamente.
Assim, as festas que outrora celebravam a fertilidade da natureza e as boas colheitas são hoje produto da sociedade de consumo fugaz e de descarte. Usam e abusam dos recursos que a terra nos dá para que possamos divertir-nos durante uma noite no ano. Fica, mais uma
vez, a esperança de que o próximo ano seja diferente, que a lei seja implementada, e que não tenhamos que repetir esta crítica mais uma e outra vez.
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