Sábado – Pense por si

Eurico Reis
Eurico Reis Juiz Desembargador Jubilado
11 de outubro de 2026 às 12:21

Começar de novo - A tempestade perfeita

Quando ganham, a primeira coisa que os ditadores fazem é mudar as “regras do jogo”, por forma a perpetuarem o seu jugo sobre as populações que julgavam que estavam apenas a dar vazão ao seu descontentamento com a “Situação”.

Já não sei se durante ou apenas após ter terminado a mais recente campanha eleitoral para a escolha dos deputados da Assembleia da Républica, circulou pelas redes sociais uma imagem na qual estava escrito o seguinte: “Zangada com a cigarra, a formiga votou no insecticida”.

A formiga era o Povo e a cigarra era a classe política.

Sei isso não porque tenha contas nessas redes, que são primordialmente centros de desinformação e de manipulação grosseira das consciências e das vontades (porque voluntariamente não tenho), mas sim porque pessoas amigas me enviaram uma cópia dessa imagem.

Infelizmente, a “formiga” que votou no insecticida (isto é, no Chega - ou melhor que votou no il capo André Ventura, sem o qual essa construção política não existe) não quis, e continua a não querer, perceber que aquele partido faz tanto parte do “Sistema” e da chamada “classe política”, como todos os outros partidos.

Ou, o que é pior, muito pior mesmo, não consegue perceber essa realidade, por maior que seja essa evidência.

Não obstante, como é óbvio, saúdo efusivamente o criador, cuja identidade desconheço, desta magnífica declaração política que é portadora de um admirável conteúdo ideológico democrático.

Está agora a circular uma nova mensagem ainda mais esclarecedora e verdadeira: “A barata, por ódio à formiga, votou no insecticida. Morreram todos, inclusive o grilo, que votou em branco e a mosca que não foi votar”.

Estritamente do ponto de vista sociológico, creio que a cigarra representa melhor a imagem estereotipada (que, contudo, não é totalmente conforme à efectiva realidade dos factos) que a generalidade da população tem dos políticos - da dita classe política, expressão que, em minha opinião, também ela, constitui uma generalização apressada e até abusiva.

E a formiga representa melhor a imagem do “Povo trabalhador”, que cria riqueza malbaratada pelos políticos.

Admito, porém, que não é fácil transmitir, usando os animais como alegoria, a ideia - a meu ver, correctíssima - do carácter letal do erro que constituiu e constitui o voto no Chega, e, portanto, saúdo, de um modo igualmente efusivo, o criador desta mensagem.

Morreram todos, barata, formiga, cigarra e todos os outros insectos.

O que significa que todos iremos ficar forte e gravemente prejudicados se, por um terrível infortúnio, o Chega alguma vez chegar ao poder.

Enfim, todos não, porque há quem ganhe - e já esteja a ganhar e muito - com a perda de rendimentos e de qualidade de vida que a maioria de nós está e tem vindo a sofrer nos últimos anos (de facto, há bem mais de uma década).

Em todo o caso, a Democracia, o Estado de Direito, e os Valores e direitos que lhes estão associados – os direitos humanos inscritos nomeadamente na Declaração Universal dos Direitos Humanos -, esses irão inevitavelmente desaparecer.

Quando ganham, a primeira coisa que os ditadores fazem é mudar as “regras do jogo”, por forma a perpetuarem o seu jugo sobre as populações que julgavam que estavam apenas a dar vazão ao seu descontentamento com a “Situação”.

Mas essa não é a única forma que o “voto no insecticida” pode assumir.

Por exemplo, em Portugal, no dia 28 de maio de 1926, o general Gomes da Costa veio em passeio de Braga a Lisboa. O descontentamento popular com os políticos que governavam o país era realmente imenso. E era plenamente justificado. E como foram muitos os golpes e contra-golpes militares que aconteceram entre 1910 e esse ano de 1926, muita gente pensou que este seria apenas mais um deles.

Contudo, rapidamente se tornou perceptível que não era esse o caso e logo em 3 de fevereiro de 1927 ocorreu uma rebelião militar centrada no Porto. A rebelião, que contou igualmente com o apoio de pessoas e organizações civis, entre as quais merece destaque a Confederação Geral dos Trabalhadores, foi ferozmente reprimida e acabou esmagada no dia 9 desse mês, com a rendição e prisão dos revoltosos.

Essa “Revolta de Fevereiro de 1927”, como ficou conhecido esse movimento, saldou-se em cerca de 80 mortos e 360 feridos no Porto e mais de 70 mortos e 400 feridos em Lisboa.

No ano seguinte, mais exactamente a 20 de julho de 1928, foi desencadeada em Lisboa uma nova tentativa de derrube da Ditadura Militar, a chamada “Revolta do Castelo”, que, novamente, contou com forte adesão civil e popular. Todavia, também ela foi violentamente esmagada pelas forças fiéis ao governo.

E o pesadelo só terminou a 25 de abril de 1974.

Teria sido melhor que alguém se tivesse preocupado em reformar as instituições daquela que hoje chamamos a 1ª República em vez de a deixar apodrecer até ao ponto em que a mesma se tornou presa fácil daqueles para quem a Democracia é um alvo a abater.

Claro que essa 1ª República não era, de todo, um primor. Bem pelo contrário.

Mas o actual sistema político português está a anos-luz, para melhor, obviamente, daquele que foi derrubado a 28 de maio de 1926.

E, apesar de ter de ser substancialmente melhorado, merece ser preservado.

E é indispensável que o seja se queremos que os direitos humanos não se tornem uma longínqua miragem.

Preservado, mas com mais Democracia e Estado de Direito, porque o Estado de Direito que temos é muito, mas mesmo muito, débil. E a Democracia também.

Tal como em 1926, os ventos que correm pelo Mundo são brutais e perigosos. E os que se preocupam com a preservação da Memória sabem bem qual foi o resultado desses “ventos” totalitários e autocráticos: a bestialidade nazi-fascista e a devastadora Segunda Guerra Mundial.

Os teóricos do capitalismo referem a existência de ciclos, e a inevitabilidade das crises nos finais desses ciclos. Um desses teóricos, o economista austríaco Joseph Schumpeter (1883-1950) até inventou um conceito que nos deveria deixar todos a tremer, qual seja, a destruição criativa.

Esse economista desenvolveu esse conceito, que se popularizou e ainda hoje é aceite como algo muito positivo, no seu livro Capitalismo, Socialismo e Democracia, publicado em 1942.

Cabe perguntar: quantas mais “destruições criativas” serão necessárias até que a população mundial compreenda e renegue a total irracionalidade deste modo de produção e as terríveis tragédias que lhe estão associadas?

E será bom que comecemos rapidamente a pensar muito bem acerca destes assuntos porque estamos a viver um desses “fins de ciclo” capitalistas e uma nova tragédia está a aproximar-se perigosamente de todos nós.

As várias guerras e conflitos regionais que actualmente afectam o nosso dia-a-dia (de todos e não apenas dos desgraçados habitantes das áreas envolvidas nas criminosas matanças que estão a ser perpetradas pelos Senhores da Guerra) são apenas o princípio de algo que tem a potencialidade de produzir consequências horrivelmente irreversíveis para toda a Humanidade.

E não estou a referir-me à crise económica global cuja chegada os representantes do FMI já anunciaram. Não, é algo bem pior do que isso.

É que actualmente existem e estão disseminadas por todo o lado, armas de destruição massiva a que os seus próprios criadores chamam armamento ou sistemas de armamento do Juízo Final (“Doomsday Device”). E não estão a brincar. Ou a exagerar.

Durante a Guerra Fria, que terminou com a implosão da União Soviética e a dissolução do Pacto de Varsóvia, todos aceitavam como válida – e era-o mesmo – a estratégia militar e de segurança nacional designada “destruição mútua assegurada ou garantida” (mutually assured destruction) cujo acrónimo, em inglês, era assaz sugestivo e esclarecedor (MAD – que significa louco ou doido).

O pior é que, há já algumas décadas, começaram a surgir uns loucos e loucas que acham que eles e elas podem sobreviver a uma guerra nuclear generalizada porque, nessa guerra que essas pessoas não se importam de desencadear, serão apenas utilizadas armas nucleares tácticas, que só matam uns milhões de pessoas, e não também as armas nucleares estratégicas – os tais Doomsday devices.

Essa ideia totalmente irracional e idiota - perigosamente irracional e idiota – poderá ter conotações religiosas com origem em alguns grupos evangélicos. Esses “justos” - righteous - constituiriam o novo Povo Eleito e Deus iria poupá-los à Sua Ira (the Wrath of God).

O pior é que agora não são só lunáticos religiosos a defender aquele conceito estratégico. E essa gente - que até advoga que uma morte por fuzilamento seja transmitida pelas televisões, como é o caso do “Ministro da Guerra” do governo trumpista dos EUA, Pete Hegseth, que tem o apoio do seu presidente – tem à sua total disposição esse armamento letal.

E, como se tudo isso não fosse já suficiente mau e perigoso, esses irresponsáveis são também motivados por uma insaciável sede de poder que sentem ameaçada por uma nova potência global que lhes estaria – e está mesmo – a disputar a liderança económica e política mundial.

De facto, a China pode estar prestes a afastar os EUA da posição de liderança planetária que alcançaram no final da Segunda Guerra Mundial, e, para evitar esse desfecho, há gente nesse país, claramente em declínio, que está disposta a tudo.

O apoio dado pela Administração Trump à guerra desencadeada pelo governo de Benjamin Netanyahu contra a ditadura teocrática que subjuga o povo iraniano é para mim um sinal evidente dessa postura suicidária dos actuais dirigentes estado-unidenses.

No combate contra a China vale tudo, até desencadear uma crise económica de dimensão planetária.

O que significa que, ainda que numa escala diferente, voltámos ao tempo da luta pelo controle dos territórios fornecedores de matérias-primas e dos mercados que antecederam a Primeira Guerra Mundial.

E sabemos bem quais foram os resultados dessa guerra

Todavia, repito, as consequências de uma Terceira Guerra Mundial serão devastadoras. Horrivelmente devastadoras.

Para usar o título de um conhecido filme, baseado em factos reais, será a tempestade perfeita.

E que andam, entretanto, os dirigentes da UE e dos seus países-membros a fazer?

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