Quando ganham, a primeira coisa que os ditadores fazem é mudar as “regras do jogo”, por forma a perpetuarem o seu jugo sobre as populações que julgavam que estavam apenas a dar vazão ao seu descontentamento com a “Situação”.
Já não sei se durante ou apenas após ter terminado a
mais recente campanha eleitoral para a escolha dos deputados da Assembleia da
Républica, circulou pelas redes sociais uma imagem na qual estava escrito o
seguinte: “Zangada com a cigarra, a formiga votou no insecticida”.
A formiga era o Povo e a cigarra era a classe
política.
Sei isso não porque tenha contas nessas redes,
que são primordialmente centros de desinformação e de manipulação grosseira das
consciências e das vontades (porque voluntariamente não tenho), mas sim porque
pessoas amigas me enviaram uma cópia dessa imagem.
Infelizmente, a “formiga” que votou no
insecticida (isto é, no Chega - ou melhor que votou no il capo André Ventura,
sem o qual essa construção política não existe) não quis, e continua a não
querer, perceber que aquele partido faz tanto parte do “Sistema” e da chamada
“classe política”, como todos os outros partidos.
Ou, o que é pior, muito pior mesmo, não consegue
perceber essa realidade, por maior que seja essa evidência.
Não obstante, como é óbvio, saúdo efusivamente o
criador, cuja identidade desconheço, desta magnífica declaração política que é
portadora de um admirável conteúdo ideológico democrático.
Está agora a circular uma nova mensagem ainda
mais esclarecedora e verdadeira: “A barata, por ódio à formiga, votou no
insecticida. Morreram todos, inclusive o grilo, que votou em branco e a mosca
que não foi votar”.
Estritamente do ponto de vista sociológico, creio
que a cigarra representa melhor a imagem estereotipada (que, contudo, não é
totalmente conforme à efectiva realidade dos factos) que a generalidade da
população tem dos políticos - da dita classe política, expressão que, em minha
opinião, também ela, constitui uma generalização apressada e até abusiva.
E a formiga representa melhor a imagem do “Povo
trabalhador”, que cria riqueza malbaratada pelos políticos.
Admito, porém, que não é fácil transmitir, usando
os animais como alegoria, a ideia - a meu ver, correctíssima - do carácter
letal do erro que constituiu e constitui o voto no Chega, e, portanto, saúdo,
de um modo igualmente efusivo, o criador desta mensagem.
Morreram todos, barata, formiga, cigarra e todos
os outros insectos.
O que significa que todos iremos ficar forte e gravemente
prejudicados se, por um terrível infortúnio, o Chega alguma vez chegar ao
poder.
Enfim, todos não, porque há quem ganhe - e já
esteja a ganhar e muito - com a perda de rendimentos e de qualidade de vida que
a maioria de nós está e tem vindo a sofrer nos últimos anos (de facto, há bem
mais de uma década).
Em todo o caso, a Democracia, o Estado de
Direito, e os Valores e direitos que lhes estão associados – os direitos
humanos inscritos nomeadamente na Declaração Universal dos Direitos Humanos -,
esses irão inevitavelmente desaparecer.
Quando ganham, a primeira coisa que os ditadores
fazem é mudar as “regras do jogo”, por forma a perpetuarem o seu jugo sobre as
populações que julgavam que estavam apenas a dar vazão ao seu descontentamento
com a “Situação”.
Mas essa não é a única forma que o “voto no
insecticida” pode assumir.
Por exemplo, em Portugal, no dia 28 de maio de
1926, o general Gomes da Costa veio em passeio de Braga a Lisboa. O
descontentamento popular com os políticos que governavam o país era realmente
imenso. E era plenamente justificado. E como foram muitos os golpes e
contra-golpes militares que aconteceram entre 1910 e esse ano de 1926, muita
gente pensou que este seria apenas mais um deles.
Contudo, rapidamente se tornou perceptível que
não era esse o caso e logo em 3 de fevereiro de 1927 ocorreu uma rebelião
militar centrada no Porto. A rebelião, que contou igualmente com o apoio de
pessoas e organizações civis, entre as quais merece destaque a Confederação
Geral dos Trabalhadores, foi ferozmente reprimida e acabou esmagada no dia 9
desse mês, com a rendição e prisão dos revoltosos.
Essa “Revolta de Fevereiro de 1927”, como ficou
conhecido esse movimento, saldou-se em cerca de 80 mortos e 360 feridos no
Porto e mais de 70 mortos e 400 feridos em Lisboa.
No ano seguinte, mais exactamente a 20 de julho
de 1928, foi desencadeada em Lisboa uma nova tentativa de derrube da Ditadura
Militar, a chamada “Revolta do Castelo”, que, novamente, contou com forte
adesão civil e popular. Todavia, também ela foi violentamente esmagada pelas
forças fiéis ao governo.
E o pesadelo só terminou a 25 de abril de 1974.
Teria sido melhor que alguém se tivesse
preocupado em reformar as instituições daquela que hoje chamamos a 1ª República
em vez de a deixar apodrecer até ao ponto em que a mesma se tornou presa fácil
daqueles para quem a Democracia é um alvo a abater.
Claro que essa 1ª República não era, de todo, um
primor. Bem pelo contrário.
Mas o actual sistema político português está a
anos-luz, para melhor, obviamente, daquele que foi derrubado a 28 de maio de
1926.
E, apesar de ter de ser substancialmente
melhorado, merece ser preservado.
E é indispensável que o seja se queremos que os
direitos humanos não se tornem uma longínqua miragem.
Preservado, mas com mais Democracia e Estado de Direito,
porque o Estado de Direito que temos é muito, mas mesmo muito, débil. E a
Democracia também.
Tal como em 1926, os ventos que correm pelo Mundo
são brutais e perigosos. E os que se preocupam com a preservação da Memória
sabem bem qual foi o resultado desses “ventos” totalitários e autocráticos: a
bestialidade nazi-fascista e a devastadora Segunda Guerra Mundial.
Os teóricos do capitalismo referem a existência
de ciclos, e a inevitabilidade das crises nos finais desses ciclos. Um desses
teóricos, o economista austríaco Joseph Schumpeter (1883-1950) até inventou um
conceito que nos deveria deixar todos a tremer, qual seja, a destruição
criativa.
Esse economista desenvolveu esse conceito, que se
popularizou e ainda hoje é aceite como algo muito positivo, no seu livro Capitalismo,
Socialismo e Democracia, publicado em 1942.
Cabe perguntar: quantas mais “destruições
criativas” serão necessárias até que a população mundial compreenda e renegue a
total irracionalidade deste modo de produção e as terríveis tragédias que lhe
estão associadas?
E será bom que comecemos rapidamente a pensar
muito bem acerca destes assuntos porque estamos a viver um desses “fins de
ciclo” capitalistas e uma nova tragédia está a aproximar-se perigosamente de
todos nós.
As várias guerras e conflitos regionais que
actualmente afectam o nosso dia-a-dia (de todos e não apenas dos desgraçados
habitantes das áreas envolvidas nas criminosas matanças que estão a ser
perpetradas pelos Senhores da Guerra) são apenas o princípio de algo que tem a
potencialidade de produzir consequências horrivelmente irreversíveis para toda
a Humanidade.
E não estou a referir-me à crise económica global
cuja chegada os representantes do FMI já anunciaram. Não, é algo bem pior do
que isso.
É que actualmente existem e estão disseminadas
por todo o lado, armas de destruição massiva a que os seus próprios criadores
chamam armamento ou sistemas de armamento do Juízo Final (“Doomsday Device”). E
não estão a brincar. Ou a exagerar.
Durante a Guerra Fria, que terminou com a
implosão da União Soviética e a dissolução do Pacto de Varsóvia, todos
aceitavam como válida – e era-o mesmo – a estratégia militar e de segurança
nacional designada “destruição mútua assegurada ou garantida” (mutually assured
destruction) cujo acrónimo, em inglês, era assaz sugestivo e esclarecedor (MAD
– que significa louco ou doido).
O pior é que, há já algumas décadas, começaram a
surgir uns loucos e loucas que acham que eles e elas podem sobreviver a uma
guerra nuclear generalizada porque, nessa guerra que essas pessoas não se
importam de desencadear, serão apenas utilizadas armas nucleares tácticas, que
só matam uns milhões de pessoas, e não também as armas nucleares estratégicas –
os tais Doomsday devices.
Essa ideia totalmente irracional e idiota - perigosamente
irracional e idiota – poderá ter conotações religiosas com origem em alguns
grupos evangélicos. Esses “justos” - righteous - constituiriam o novo Povo Eleito e Deus iria poupá-los à Sua Ira (the Wrath
of God).
O pior é que agora não são só lunáticos
religiosos a defender aquele conceito estratégico. E essa gente - que até
advoga que uma morte por fuzilamento seja transmitida pelas televisões, como é
o caso do “Ministro da Guerra” do governo trumpista dos EUA, Pete Hegseth, que
tem o apoio do seu presidente – tem à sua total disposição esse armamento
letal.
E, como se tudo isso não fosse já suficiente mau
e perigoso, esses irresponsáveis são também motivados por uma insaciável sede
de poder que sentem ameaçada por uma nova potência global que lhes estaria – e
está mesmo – a disputar a liderança económica e política mundial.
De facto, a China pode estar prestes a afastar os
EUA da posição de liderança planetária que alcançaram no final da Segunda
Guerra Mundial, e, para evitar esse desfecho, há gente nesse país, claramente
em declínio, que está disposta a tudo.
O apoio dado pela Administração Trump à guerra
desencadeada pelo governo de Benjamin Netanyahu contra a ditadura teocrática
que subjuga o povo iraniano é para mim um sinal evidente dessa postura
suicidária dos actuais dirigentes estado-unidenses.
No combate contra a China vale tudo, até
desencadear uma crise económica de dimensão planetária.
O que significa que, ainda que numa escala
diferente, voltámos ao tempo da luta pelo controle dos territórios fornecedores
de matérias-primas e dos mercados que antecederam a Primeira Guerra Mundial.
E sabemos bem quais foram os resultados dessa
guerra
Todavia, repito, as consequências de uma Terceira
Guerra Mundial serão devastadoras. Horrivelmente devastadoras.
Para usar o título de um conhecido filme, baseado
em factos reais, será a tempestade perfeita.
E que andam, entretanto, os dirigentes da UE e
dos seus países-membros a fazer?
Quando ganham, a primeira coisa que os ditadores fazem é mudar as “regras do jogo”, por forma a perpetuarem o seu jugo sobre as populações que julgavam que estavam apenas a dar vazão ao seu descontentamento com a “Situação”.
O Mundo não é - não é de todo - a preto e branco e a Humanidade não se divide entre “bons” e “maus”, sendo que os bons estão todos de um lado da barricada e os maus do outro.
Se os nazis da AfD voltarem a ter um resultado eleitoral igual ou semelhante ao que obtiveram no Estado Federal de Saxónia-Anhalt, um desfecho nada de bom resultará para as populações europeias.
O livro “1984” poderá apenas fazer-nos compreender os mecanismos usados pelos totalitários para conquistar o poder e continuar a dominá-lo sem serem derrubados.
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