Sábado – Pense por si

Álvaro Rocha
Álvaro Rocha Professor Catedrático da Universidade Lusófona
03 de setembro de 2026 às 09:07

Universidade de Fátima e Serra da Estrela

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As universidades não são governos regionais nem precisam de reclamar soberania académica sobre enormes parcelas do mapa.

Portugal descobriu uma nova política para o ensino superior: transformar institutos politécnicos em universidades clássicas ou politécnicas e, no momento de escolher os nomes, juntar localidades, regiões e adjetivos como quem compõe um itinerário turístico. O resultado são designações extensas, territorialmente confusas e institucionalmente pouco felizes.

Várias das instituições em causa têm mérito, história, dimensão e trabalho científico que justificam plenamente a sua evolução. O problema não está na criação das universidades. Está na criatividade sem sentido que o Governo decidiu aplicar aos respetivos nomes.

A mais recente será a Universidade de Bragança e do Interior Norte. Bragança merece uma universidade clássica, porque o Politécnico de Bragança construiu, ao longo de décadas, uma reputação que sustenta essa transformação. Bastaria, portanto, Universidade de Bragança. É um nome claro, forte e reconhecível, incluindo internacionalmente.

A expressão “Interior Norte” apenas introduz confusão. Que território pretende abranger? Todo o interior situado a norte? Nesse caso, entra diretamente no espaço de influência da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e até da Universidade do Minho. As universidades não são governos regionais nem precisam de reclamar soberania académica sobre enormes parcelas do mapa. A Universidade de Bragança não ganha importância por anexar verbalmente o Interior Norte. Pelo contrário, perde identidade.

Temos depois a Universidade de Leiria e Oeste. Mais uma vez, Leiria seria suficiente. A instituição já possui uma implantação regional que inclui Leiria, Caldas da Rainha e Peniche. Acrescentar “Oeste” não amplia magicamente a sua influência, apenas produz um nome redundante e com vocação para constar numa placa de autoestrada. Leiria já identifica uma instituição profundamente ligada àquela região. Não é necessário acrescentar uma coordenada geográfica para demonstrar aquilo que a realidade há muito demonstra.

Chegamos, finalmente, à Universidade Técnica do Porto. O termo “Técnica” poderia fazer sentido num sistema em que distinguisse claramente esta instituição das restantes. Mas a recente revisão do regime do ensino superior permitiu que os institutos politécnicos públicos passassem a adotar a designação de universidades politécnicas. Ou seja, a vocação técnica e aplicada deixou de ser uma característica singular do antigo Politécnico do Porto.

Além disso, o Porto já possui uma Universidade do Porto, histórica, abrangente e internacionalmente reconhecida. A nova instituição precisava de um nome que

afirmasse simultaneamente a sua autonomia e a sua ligação à cidade. “Universidade Nova do Porto” seria uma alternativa muito mais simples, elegante e inteligível. Não precisaria de explicar a sua origem em cada apresentação internacional nem de carregar um adjetivo que já não estabelece uma diferença relevante.

Os nomes das universidades não são pormenores administrativos. São marcas institucionais destinadas a atravessar gerações, a circular internacionalmente e a identificar comunidades científicas. Devem ser simples, inequívocos e duradouros. Universidade de Coimbra, Universidade do Porto, Universidade do Minho ou Universidade de Aveiro: ninguém precisa de um manual para perceber como se chamam.

A lógica agora adotada pelo Governo parece ser outra: quanto maior for o nome e mais vasto o território reclamado, mais importante parecerá a universidade. Seguindo este critério, poderíamos criar a Universidade de Fátima e Serra da Estrela. Teria dimensão religiosa, alcance montanhoso e uma área de influência suficientemente vaga para não deixar ninguém de fora. Talvez pudesse ainda receber o complemento “Técnica, Atlântica e do Interior Centro”, garantindo uma sigla impronunciável e uma identidade impossível de memorizar.

As novas universidades merecem melhor do que esta aberração nominativa. Merecem nomes à altura da sua história e das suas ambições, não designações saídas de uma sessão de criatividade governamental sem mapa, bússola ou sentido de proporção.

Mas, se a ideia é continuar a espalhar nomes extravagantes pelo país, então força. Universidade de Fátima e Serra da Estrela?

Vamos a isso, Montenegro!

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