As universidades não são governos regionais nem precisam de reclamar soberania académica sobre enormes parcelas do mapa.
Portugal descobriu uma nova política para o ensino superior: transformar institutos politécnicos em universidades clássicas ou politécnicas e, no momento de escolher os nomes, juntar localidades, regiões e adjetivos como quem compõe um itinerário turístico. O resultado são designações extensas, territorialmente confusas e institucionalmente pouco felizes.
Várias das instituições em causa têm mérito, história, dimensão e trabalho científico que justificam plenamente a sua evolução. O problema não está na criação das universidades. Está na criatividade sem sentido que o Governo decidiu aplicar aos respetivos nomes.
A mais recente será a Universidade de Bragança e do Interior Norte. Bragança merece uma universidade clássica, porque o Politécnico de Bragança construiu, ao longo de décadas, uma reputação que sustenta essa transformação. Bastaria, portanto, Universidade de Bragança. É um nome claro, forte e reconhecível, incluindo internacionalmente.
A expressão “Interior Norte” apenas introduz confusão. Que território pretende abranger? Todo o interior situado a norte? Nesse caso, entra diretamente no espaço de influência da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e até da Universidade do Minho. As universidades não são governos regionais nem precisam de reclamar soberania académica sobre enormes parcelas do mapa. A Universidade de Bragança não ganha importância por anexar verbalmente o Interior Norte. Pelo contrário, perde identidade.
Temos depois a Universidade de Leiria e Oeste. Mais uma vez, Leiria seria suficiente. A instituição já possui uma implantação regional que inclui Leiria, Caldas da Rainha e Peniche. Acrescentar “Oeste” não amplia magicamente a sua influência, apenas produz um nome redundante e com vocação para constar numa placa de autoestrada. Leiria já identifica uma instituição profundamente ligada àquela região. Não é necessário acrescentar uma coordenada geográfica para demonstrar aquilo que a realidade há muito demonstra.
Chegamos, finalmente, à Universidade Técnica do Porto. O termo “Técnica” poderia fazer sentido num sistema em que distinguisse claramente esta instituição das restantes. Mas a recente revisão do regime do ensino superior permitiu que os institutos politécnicos públicos passassem a adotar a designação de universidades politécnicas. Ou seja, a vocação técnica e aplicada deixou de ser uma característica singular do antigo Politécnico do Porto.
Além disso, o Porto já possui uma Universidade do Porto, histórica, abrangente e internacionalmente reconhecida. A nova instituição precisava de um nome que
afirmasse simultaneamente a sua autonomia e a sua ligação à cidade. “Universidade Nova do Porto” seria uma alternativa muito mais simples, elegante e inteligível. Não precisaria de explicar a sua origem em cada apresentação internacional nem de carregar um adjetivo que já não estabelece uma diferença relevante.
Os nomes das universidades não são pormenores administrativos. São marcas institucionais destinadas a atravessar gerações, a circular internacionalmente e a identificar comunidades científicas. Devem ser simples, inequívocos e duradouros. Universidade de Coimbra, Universidade do Porto, Universidade do Minho ou Universidade de Aveiro: ninguém precisa de um manual para perceber como se chamam.
A lógica agora adotada pelo Governo parece ser outra: quanto maior for o nome e mais vasto o território reclamado, mais importante parecerá a universidade. Seguindo este critério, poderíamos criar a Universidade de Fátima e Serra da Estrela. Teria dimensão religiosa, alcance montanhoso e uma área de influência suficientemente vaga para não deixar ninguém de fora. Talvez pudesse ainda receber o complemento “Técnica, Atlântica e do Interior Centro”, garantindo uma sigla impronunciável e uma identidade impossível de memorizar.
As novas universidades merecem melhor do que esta aberração nominativa. Merecem nomes à altura da sua história e das suas ambições, não designações saídas de uma sessão de criatividade governamental sem mapa, bússola ou sentido de proporção.
Mas, se a ideia é continuar a espalhar nomes extravagantes pelo país, então força. Universidade de Fátima e Serra da Estrela?
A seleção não aconteceu no domingo. Aconteceu no 10.º ano, na escolha da via profissionalizante, na família que não paga explicações, no quarto arrendado em Lisboa ou no Porto que pode custar mais do que um salário mínimo. Quando os resultados saem, o filtro já funcionou há muito.
Fernando Alexandre, prometeu que nenhum aluno seria prejudicado. A intenção é naturalmente correta. O problema começa quando as soluções encontradas para beneficiar esses alunos prejudicam todos os restantes.
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