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(Enviada semanalmente)
É difícil recuperar aprendizagens quando faltam docentes e tantos jovens deixam de encontrar sentido no que aprendem.
Cinco anos de aprendizagem. É esta, aproximadamente, a distância que separa Portugal dos sistemas educativos com melhores resultados a ciências no PISA 2025, que avalia as competências dos jovens de 15 anos. Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang, os quatro territórios chineses avaliados, ficaram mais de 100 pontos acima da média da OCDE. Portugal obteve 482 pontos, precisamente nessa média. Se tomarmos como referência cerca de 20 pontos por ano de escolaridade, percebemos a dimensão do atraso. A equivalência é aproximada, mas o alerta é claro.
Por detrás dos números estão capacidades que contam para a vida: compreender informação científica, avaliar uma afirmação e detetar falhas num argumento. Aqueles quatro territórios concentram 27% dos alunos de excelência abrangidos pelo PISA. Singapura, Macau, Taiwan e Japão também se destacam. O domínio asiático mostra até onde é possível chegar.
Portugal, pelo contrário, está a recuar. Nos resultados de 2025, divulgados esta semana, registou 460 pontos a matemática e 462 a leitura, menos 12 e 15 pontos, respetivamente, do que em 2022. Ambos os valores ficaram abaixo dos de 2006. Em poucos anos, perdemos ganhos que demoraram décadas a construir e que apresentávamos como uma das grandes conquistas da educação portuguesa.
Podemos procurar consolo na queda generalizada: a média da OCDE a matemática e a leitura é a mais baixa de sempre. Mas acompanhar o declínio dos outros não melhora a preparação dos nossos alunos. O que deveria preocupar-nos é aquilo que conseguem compreender e resolver quando saem da escola.
O investimento importa, mas não explica tudo. O Luxemburgo gasta 288 mil dólares por aluno até aos 15 anos e fica a ciências atrás da Irlanda, da França e de Itália, que investem menos de metade. Estes resultados obrigam-nos a olhar também para a forma como se ensina, para a exigência e para as condições de trabalho nas escolas.
Em Portugal, os sinais preocupam. A percentagem de alunos que considera a aprendizagem aborrecida triplicou em três anos, de 5% para 15%. Cerca de um quinto entende que o tempo passado na escola é tempo perdido. E apenas 13% frequentam escolas sem falta de professores, contra 29% na média da OCDE. É difícil recuperar aprendizagens quando faltam docentes e tantos jovens deixam de encontrar sentido no que aprendem.
É neste contexto que a inteligência artificial entra na escola. Já 48% dos jovens portugueses usam chatbots para estudar, sobretudo para pesquisar, resumir e escrever. Estas ferramentas podem ajudar. O problema surge quando fazem pelo aluno o trabalho que ele precisa de aprender a fazer. Resumir um texto exige compreendê-lo; escrever exige organizar ideias. Receber o resultado pronto pode eliminar precisamente esse exercício.
Os dados do PISA associam o uso de IA para resumir textos a piores resultados e a menor motivação para aprender. Não demonstram que a tecnologia seja a causa, mas justificam atenção. Acresce que 31% dos alunos portugueses dizem que os colegas se distraem com ecrãs nas aulas de ciências.
A resposta exige orientação. Sistemas como os da China, Estónia, Coreia do Sul e Singapura estão a introduzir IA para apoiar perguntas e raciocínios. Portugal tem também um sinal encorajador: 57% dos alunos dizem avaliar a qualidade da informação produzida por IA, acima dos 53% da OCDE. Devemos transformar esse hábito declarado numa competência que a escola ensine e avalie.
Para isso, precisamos de regras claras sobre telemóveis e sobre o uso da IA nas aulas e nos trabalhos. Precisamos, sobretudo, de professores com formação e tempo para acompanhar os alunos. A avaliação deve permitir perceber como chegaram a uma resposta e se conseguem defendê-la. E as ferramentas dirigidas aos mais novos devem protegê-los da manipulação emocional, incluindo a simulação de relações de amizade.
Antes de generalizar uma tecnologia nas escolas, devemos testar os seus efeitos na aprendizagem. A IA pode ajudar-nos a recuperar terreno ou aumentar a distância que já nos separa dos melhores. Dependerá do uso que lhe dermos. Não se ganha forma física a ver futebol, nem se aprende a pensar a ver a máquina pensar.
A seleção não aconteceu no domingo. Aconteceu no 10.º ano, na escolha da via profissionalizante, na família que não paga explicações, no quarto arrendado em Lisboa ou no Porto que pode custar mais do que um salário mínimo. Quando os resultados saem, o filtro já funcionou há muito.
Fernando Alexandre, prometeu que nenhum aluno seria prejudicado. A intenção é naturalmente correta. O problema começa quando as soluções encontradas para beneficiar esses alunos prejudicam todos os restantes.
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