Sábado – Pense por si

Álvaro Rocha
Álvaro Rocha Professor Universitário
18 de junho de 2026 às 10:50

O Ocidente não pode continuar a ignorar a ciência chinesa

A China deixou há muito de ser apenas a grande fábrica do mundo. É hoje uma potência científica e tecnológica de primeira linha.

Durante demasiado tempo, o Ocidente habituou-se a olhar para a ciência como se ela tivesse uma geografia quase natural: os grandes centros de produção do conhecimento estariam nos Estados Unidos, na Europa e em algumas universidades de referência espalhadas pelo mundo desenvolvido. Tudo o resto surgia como periferia, imitação ou atraso. Essa visão já não corresponde à realidade. E, no caso da China, tornou-se mesmo perigosa.

A China deixou há muito de ser apenas a grande fábrica do mundo. É hoje uma potência científica e tecnológica de primeira linha. Publica em enorme escala, lidera áreas estratégicas como engenharia, materiais, energia, telecomunicações, inteligência artificial e ciências físicas, e forma anualmente uma quantidade impressionante de investigadores. Ignorar esta transformação não é apenas arrogância intelectual. É cegueira estratégica.

A questão colocada recentemente pela The Economist é incómoda, mas necessária: demasiada ciência chinesa continua a ser ignorada pelo Ocidente. Não porque toda ela seja irrelevante ou de má qualidade, mas porque persiste uma combinação de desconfiança, preconceito reputacional, distância cultural, barreiras linguísticas, redes académicas fechadas e tensão geopolítica. O resultado é simples: muito conhecimento produzido na China circula menos do que deveria nos debates científicos internacionais.

Há razões legítimas para cautela. A ciência chinesa não está imune a problemas. Pelo contrário, tem sido associada a incentivos excessivos à publicação, pressão quantitativa, casos de fraude, revistas de qualidade duvidosa e alguma opacidade institucional. Estes problemas existem e não devem ser relativizados. A integridade científica é demasiado importante para ser sacrificada no altar da diplomacia académica.

Mas reconhecer estes riscos não autoriza o Ocidente a tratar a produção científica chinesa como se fosse, por defeito, suspeita ou secundária. Também no Ocidente há má ciência, fraude, pressão por publicações, manipulação de métricas e investigação irreprodutível. A diferença está em que raramente se usa isso para desvalorizar em bloco a ciência norte-americana, britânica, alemã, francesa, portuguesa, etc. Com a China, essa generalização acontece com demasiada facilidade.

O problema é que a ciência não avança por conforto ideológico. Avança por confronto com a evidência. Se investigadores ocidentais deixam de ler, citar ou acompanhar trabalho relevante produzido na China, perdem conhecimento, repetem estudos já realizados, subestimam concorrentes e constroem diagnósticos incompletos sobre o estado da arte. Em áreas como semicondutores, inteligência artificial, biotecnologia, baterias, computação quântica ou defesa, essa ignorância pode ter custos muito superiores aos académicos.

A ciência tornou-se multipolar. A ideia de que a inovação nasce no Ocidente e depois se difunde para o resto do mundo está ultrapassada. Hoje, descobertas relevantes podem surgir em Pequim, Shenzhen, Xangai, Hangzhou, Nanjing ou Harbin com a mesma probabilidade com que surgem em Boston, Stanford, Oxford, Berlim, Paris, etc. Quem continuar a olhar para a produção científica chinesa com lentes do século XX arrisca-se a não compreender o século XXI.

Naturalmente, a abertura à ciência chinesa não deve significar ingenuidade. Há áreas sensíveis, há riscos de transferência tecnológica, há questões de segurança nacional e há diferenças profundas entre sistemas políticos. As universidades e os centros de investigação ocidentais precisam de mecanismos robustos de avaliação, transparência e proteção de dados. Mas proteger não é o mesmo que ignorar. A prudência não deve transformar-se em isolamento intelectual.

Aliás, uma das maiores contradições do nosso tempo é esta: nunca houve tanta capacidade tecnológica para traduzir, indexar, analisar e comparar conhecimento científico global, mas continuamos presos a barreiras mentais antigas. A língua, a reputação institucional e a origem geográfica ainda influenciam demasiado o modo como a ciência é lida e valorizada. Um artigo vindo de uma universidade chinesa continua, muitas vezes, a enfrentar um desconto reputacional que um artigo equivalente de uma instituição ocidental não enfrentaria.

Isto empobrece a ciência. A ciência precisa de escrutínio, mas também de circulação. Precisa de competição, mas também de reconhecimento. Precisa de vigilância ética, mas não de preconceito. Se a China produz conhecimento relevante, esse conhecimento deve ser lido, testado, criticado, citado ou refutado. O que não deve ser é ignorado.

Para a Europa, esta discussão é particularmente importante. O continente gosta de se apresentar como espaço de excelência científica, regulação responsável e cooperação internacional. Mas corre o risco de ficar preso entre dois gigantes: os Estados Unidos, com o seu poder tecnológico e financeiro, e a China, com a sua escala científica e industrial. Se a Europa quiser continuar relevante, precisa de conhecer melhor a ciência chinesa, não para a copiar nem para se submeter a ela, mas para competir com inteligência.

Portugal também não deve ficar fora deste debate. As nossas universidades, centros de investigação e empresas precisam de acompanhar melhor o que se passa na Ásia científica. Não basta olhar para rankings ocidentais, revistas anglo-saxónicas e redes tradicionais de colaboração. A internacionalização científica do futuro terá de incluir uma leitura mais ampla do mundo. Quem investiga sem conhecer a produção chinesa arrisca-se a investigar com metade do mapa.

A questão, no fundo, não é gostar ou não gostar da China. A ciência não deve ser avaliada por simpatias políticas. Deve ser avaliada pela qualidade dos métodos, pela robustez dos dados, pela originalidade das contribuições e pela possibilidade de replicação. O que vem da China deve ser escrutinado com exigência. Mas deve ser escrutinado, não descartado.

Ignorar a ciência chinesa pode parecer uma forma de resistência geopolítica. Na verdade, é uma forma de autoenfraquecimento. O Ocidente não se torna mais forte por fingir que os outros não produzem conhecimento relevante. Torna-se mais forte quando sabe ler o mundo com lucidez, separar qualidade de propaganda, distinguir risco de preconceito e transformar informação em estratégia.

A ciência chinesa não precisa de ser idolatrada. Mas também já não pode ser tratada como ruído de fundo. O mundo mudou. A ciência mudou. E quem continuar a ignorar essa mudança ficará condenado a descobrir tarde aquilo que outros já compreenderam primeiro.

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