Portugal, o Verão Quente de 1975 visto pela CIA

Luís Naves 09 de setembro de 2017

Os políticos americanos dividiram-se sobre o que fazer em 1975: no ano anterior, tinham abandonado Spínola, no auge do Verão Quente esperavam uma guerra civil


A agência de espionagem americana levou algum tempo a compreender que o golpe militar de 25 de Abril de 1974 era na realidade controlado por oficiais de patente intermédia, cujas intenções os espiões americanos aparentemente desconheciam. Apesar de haver indícios de instabilidade política em Portugal nos meses anteriores ao golpe, a CIA foi apanhada de surpresa e continuou a julgar que se tratava de um movimento liderado por generais. Como sugerem os relatórios desclassificados da agência, os espiões americanos levaram semanas a compreender que o general António de Spínola estava longe de controlar a situação e que a sua eventual queda daria origem à radicalização inevitável do País. Os Estados Unidos tiveram oportunidade de ajudar o Presidente Spínola, mas nunca o fizeram. As razões da omissão são pouco claras, mas podem estar ligadas ao calendário do escândalo Watergate, à incompreensão do problema por parte do Presidente Richard Nixon e do seu secretário de Estado, Henry Kissinger, ou à profunda crise interna na própria agência de espionagem, que um pouco antes do golpe em Portugal tinha sido alvo de uma purga em larga escala.

Se a revolução portuguesa tivesse acontecido no ano anterior, a actuação de Washington teria sido provavelmente diferente e a radicalização do Verão Quente de 1975 talvez nunca tivesse acontecido, como não teria acontecido se a revolução ocorresse um pouco depois, a exemplo da relativamente tranquila transição espanhola. A mudança em Portugal surgiu no pior momento possível. Washington limitou-se a observar com estupefacção o agravamento da situação e os seus sucessivos episódios: o 28 de Setembro, o 11 de Março, a descolonização. Portugal caía no caos e a CIA, impotente para interferir ou com as mãos atadas, produzia relatórios com previsões sombrias e escassas recomendações de acção política.

Além dos telegramas com os factos iniciais emitidos nos dias 25 e 26 de Abril, a agência de espionagem americana produziu no dia 27 de Abril de 1974 um extenso relatório secreto, The Coup in Portugal, no qual os espiões explicavam as razões da acção militar e as perspectivas imediatas do novo regime: "A subida [do general António] de Spínola ao poder é uma notável demonstração do poder, em simultâneo, da caneta e da espada. O herói de guerra mais condecorado do País foi também autor de um livro que se atreveu a dizer que é impossível uma solução militar para o problema da insurreição em África e que é preciso encontrar uma solução política", podia ler-se no documento. O MFA era citado apenas uma vez, e os seus líderes eram "praticamente desconhecidos, quase de certeza oficiais de patente intermédia devotados a Spínola".

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