Joana Ricarte partilha com a SÁBADO que ainda é difícil prever como Péter Magyar vai liderar a Hungria mas refere que “vai ter de enfrentar muitos desafios domésticos para fazer a Hungria regressar a uma democracia liberal de valores europeus”.
Nas eleições legislativas de domingo a Hungria viu o parlamento mudar drasticamente a sua configuração. Passados 16 anos Orbán volta para a oposição e o Tisza conquista 138 deputados, mais de dois terços dos lugares.
Péter Magyar vai ser o novo primeiro-ministro da HungriaAP Photo/Denes Erdos
Péter Magyar vai assumir, depois de conseguir a vitória mais significativa da história da Hungria, o cargo de primeiro-ministro e conta com o apoio de 138 deputados, enquanto o Fidesz de Órban conseguiu 55 lugares e o Mi Hazánk Mozgalom (Movimento Nossa Pátria em português) 6 assentos. Vale a pena recordar que a maioria dos outros partidos da oposição decidiu não apresentar candidatos de forma a aumentar a hipótese de vitória do Tisza, o que significa que o parlamento tem agora representação de apenas três partidos conservadores de direita.
Depois de votar Magyar considerou que aquelas eleições eram uma escolha entre “o leste e o Ocidente”; “a propaganda ou o discurso público honesto; a corrupção ou a vida pública íntegra”, mas resta saber o que esperar dos próximos anos. A especialista em Relações Internacionais Joana Ricarte partilha com a SÁBADO que Péter Magyar “vai ter de enfrentar muitos desafios domésticos para fazer a Hungria regressar a uma democracia liberal de valores europeus”.
Ainda antes da eleição Péter Magyar afirmou que se fosse eleito restauraria as relações da Hungria com a União Europeia e o primeiro sinal desta reaproximação é o anúncio de que as suas primeiras viagens ao estrangeiro vão realizar-se a Varsóvia, Viena e Bruxelas: “A Hungria escolheu a Europa”, garantiu Péter Magyar. Ainda assim, a professora universitária reforça que “mesmo para se reaproximar da Europa é necessário fazer reformas internas e melhorar campos como a liberdade de imprensa e a liberdade judicial”, por isso que “os próximos tempos vão ser focados na dimensão doméstica”. O próprio Magyar defendeu na segunda-feira que “os húngaros votaram para uma mudança de governo, mas sobretudo para uma mudança de regime”.
A Hungria tem bastantes interesses em melhorar as relações com a União Europeia uma vez que, apesar de ser um dos países que mais fundos pode receber, as verbas têm sido bloqueadas, como resposta às políticas de Orbán. Ainda assim Joana Ricarte alerta que “a aproximação não pode ser só funcionalista, por interesses puros e duros” e deve ter também em conta “os valores do Estado de Direito”. Mas parece ser claro que “podemos esperar mais negociações e mais cedências” naquilo que é a política europeia.
Joana Ricarte acredita que, apesar de parecer claro que a “população húngara quer uma reaproximação do projeto europeu" e de a mesma ver "Magyar como um ator europeu", ainda temos de perceber qual vai ser o seu real posicionamento: “Estas questões da União Europeia, da Ucrânia e mesmo do afastamento da Rússia não são um dado 100% adquirido”, alerta a especialista, referindo ainda que a campanha eleitoral focou-se sobretudo no “desempenho económico do país e em problemas como a inflação”.
Apesar de ser internacionalmente visto como mais liberal do que Orbán, durante a campanha Péter Magyar evitou posicionar-se relativamente às políticas anti-LGBT+ e anti-imigração impostas pelo seu antecessor, o que leva a especialista a alertar para as suas posições também conservadoras, bem como questionar “como é que vai conciliar a posição conservadora nos valores com a posição reformista e a aproximação aos ideais europeus”. “Acredito que pode haver alguma abertura democrática, mas sem ser liberalização total, especialmente nos costumes”, partilha.
Pouco se sabe sobre o homem de 45 anos que vai agora liderar o país da Europa Central, além de que é sobrinho-neto do antigo presidente da Hungria, Ferenc Mádl, e neto do antigo juiz do Supremo Tribunal, Pál Eross. Pertenceu ao Fidezs durante duas décadas e que em 2024 acabou por se afastar do partido depois de vários escândalos de corrupção se terem tornado públicos. Joana Ricarte considera que Magyar “tem uma posição declaradamente anti-Orbán mas é um insider do sistema, foi casado com uma importante aliada de Orbán” por isso reforça que “já compactuou com o sistema e continua a ser um indivíduo tecnocrata” apesar de reconhecer que “há dois anos que se distanciou do regime e se posicionou contra o sistema estabelecido”.
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