António Guterres aponta para uma adesão à Carta fundadora da ONU de forma integral e fiel, "sem 'ses', sem 'mas' e sem 'poréns'".
O secretário-geral da ONU, António Guterres, criticou esta quinta-feira a "ganância sem limites" dos mais ricos e denunciou líderes que "atropelam o direito internacional", durante a apresentação à Assembleia-Geral das suas prioridades para 2026.
Guterres adesão à Carta fundadora da ONUChalinee Thirasupa/Pool Photo via AP
Naquela que foi a sua última apresentação de prioridades anuais antes de deixar a liderança da ONU, Guterres assegurou que fará "com que cada dia de 2026 conte" e garantiu estar totalmente empenhado em continuar a trabalhar, a lutar e a impulsionar "um mundo melhor".
O antigo primeiro-ministro português, que deixará a liderança da ONU no final de 2026, quis aproveitar o tradicional momento para fazer uma apresentação diferente, lançando um olhar não só para este ano, mas também para o futuro, embora avisando que o contexto global é de "caos".
"Vivemos num mundo repleto de conflitos, impunidade, desigualdade e imprevisibilidade. Um mundo marcado por divisões geopolíticas autodestrutivas, violações flagrantes do direito internacional e drásticos cortes na ajuda humanitária e ao desenvolvimento", frisou Guterres, sem nomear responsáveis.
"Uns procuram colocar a cooperação internacional em estado terminal. Posso garantir: não desistiremos", sublinhou.
Observando que a ONU atravessa um período de drástica reforma estrutural, Guterres defendeu que também o Conselho de Segurança deve passar por uma transformação, apontando responsabilidades aos cinco membros permanentes - China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia - que detém o poder de veto.
"É manifestamente do interesse daqueles que detêm o maior poder estarem na linha da frente da reforma. Aqueles que hoje tentam agarrar-se aos privilégios correm o risco de pagar o preço amanhã", alertou o secretário-geral.
Em relação às prioridades, António Guterres apontou, em primeiro lugar, para uma adesão à Carta fundadora da ONU de forma integral e fiel, "sem 'ses', sem 'mas' e sem 'poréns'".
"A Carta é um pacto que nos vincula a todos. Não é um menu à 'la carte', é um preço fixo", insistiu no discurso proferido no plenário da Assembleia-Geral.
"É uma honra servir como guardião da Carta. Mas cada um de vós também se comprometeu a ser um guardião da Carta. Quando os líderes atropelam o direito internacional – quando escolhem as regras a seguir – não só estão a minar a ordem global, estão a criar um precedente perigoso. A erosão do direito internacional (...) está a desenrolar-se diante dos olhos do mundo, nos nossos ecrãs, ao vivo em 4K [resolução de imagem]", afirmou.
O chefe das Nações Unidas (ONU) destacou que os perigos atuais não se limitam aos Estados ou partes em guerra, frisando que estão a ser amplificados pela ganância e desigualdade sem limites.
"O 1% mais rico detém 43% dos ativos financeiros globais. (...) Cada vez mais, vemos um mundo onde os ultra-ricos e as empresas que controlam ditam as regras como nunca antes – exercendo uma influência desproporcional sobre as economias, a informação, e até mesmo as regras que nos regem", criticou.
O antigo governante português considerou que a concentração de poder e riqueza em tão poucas mãos é moralmente indefensável.
A segunda prioridade avançada por Guterres foi a procura incansável pela "paz com justiça": paz entre as nações e a paz com a natureza.
Referindo os vários conflitos que assolam o mundo, desde Gaza, Ucrânia ou Sudão, o secretário-geral defendeu o fim do sofrimento e do caos climático.
Frisou ainda que silenciar as armas não é suficiente e que as causas profundas dos conflitos devem ser abordadas.
"Caso contrário, qualquer solução será precária", garantiu.
Em terceiro e último lugar, Guterres priorizou a construção de unidade numa era de divisão, defendendo que o peso do racismo, xenofobia nacionalista e intolerância religiosa são "venenos que corroem o tecido das comunidades, alimentando a divisão e a desconfiança".
"As Nações Unidas são uma promessa viva de que, apesar das nossas diferenças, resolveremos os problemas em conjunto. Vamos cumprir essa promessa. Não vamos desistir. A situação não podia ser mais crítica, e o tempo não podia ser mais curto", concluiu.
Apesar dos esforços de Guterres para tentar convencer o mundo de que a ONU é hoje mais vital do que nunca, a organização fundada após a Segunda Guerra Mundial tem na atualidade a sua influência desacreditada e o seu pleno funcionamento em risco devido aos cortes de financiamento de nações como os Estados Unidos, país que acolhe a sede da instituição, em Nova Iorque, e o seu maior doador.
No início do mês, o Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou a retirada dos Estados Unidos de 31 agências ligadas à ONU, medida que foi seguida por Israel, que também rompeu as relações com sete entidades da organização.
António Guterres assumiu a liderança da ONU em janeiro de 2017, tendo sido reconduzido para um segundo mandato, que termina no final de 2026.
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