O “Jardim dos Heróis” de Trump cresce em escala, custo e controvérsia
O plano de Donald Trump deverá reunir 250 estátuas de “heróis americanos”, espelhos de água, praças, cafés e um anfiteatro na capital. Mas o projecto, ainda sem aprovação formal, já levanta dúvidas.
O projeto começou como uma resposta cultural às disputas em torno de monumentos históricos nos Estados Unidos. Hoje, transformou-se numa das ambições mais visíveis de Donald Trump para remodelar a capital segundo uma gramática própria: clássica, patriótica, monumental.
O National Garden of American Heroes (ou Jardim Nacional dos Heróis Americanos), inicialmente proposto no primeiro mandato do Presidente, deverá reunir 250 estátuas em tamanho real de figuras consideradas marcantes da história norte-americana como George Washington, Martin Luther King Jr., Amelia Earhart, Kobe Bryant e Elvis Presley.
Contudo, segundo documentos obtidos pelo The New York Times (NYT), os planos mais recentes vão além de um jardim escultórico. As propostas incluem jardins formais, espelhos de água, praças, zonas de restauração, espaços recreativos e um grande anfiteatro junto ao rio Potomac, organizados em torno de uma Heroes Walk (Passeio dos Heróis), uma espécie de percurso dedicado a políticos, militares, cientistas, ativistas, artistas, atletas e outras figuras públicas.
A dimensão do projeto poderá obrigar a uma reconfiguração substancial de West Potomac Park, uma zona atualmente ocupada sobretudo por campos desportivos nas imediações do National Mall.
A Casa Branca enquadra a iniciativa no programa das comemorações do 250.º aniversário da independência norte-americana, celebrado a 4 de Julho de 2026. Numa ordem executiva assinada em Janeiro de 2025, Trump reativou a ideia do jardim e criou uma estrutura para coordenar as celebrações nacionais, a chamada Task Force 250. O documento oficial prevê a construção do National Garden of American Heroes como parte desse esforço comemorativo.
A Associated Press noticiou então que Trump procurava recuperar uma proposta lançada em 2020, no contexto das manifestações que se seguiram à morte de George Floyd e da remoção ou vandalização de estátuas associadas à Confederação e a outras figuras históricas controversas.
O calendário, porém, parece cada vez mais difícil de cumprir. A ambição inicial passava por apresentar o jardim a tempo do 4 de Julho de 2026. Agora, segundo o NYT, a Administração admite inaugurar apenas algumas dezenas de estátuas nessa data, deixando o restante projeto para o final do mandato.
O diário Washington Post já tinha noticiado, em 2025, que a própria Casa Branca apontava para a possibilidade de o jardim só ficar concluído em 2029, sublinhando dificuldades logísticas, financeiras e de seleção de artistas.
A questão financeira é central. O Congresso aprovou 40 milhões de dólares (cerca de 34,2 milhões de euros à taxa atual) para o projeto, valor que, segundo as estimativas da Administração citadas pelo New York Times, poderá ser insuficiente apenas para pagar as estátuas.
O National Endowment for the Humanities (NEH) – ou Fundo Nacional para as Humanidades – lançou um programa de financiamento para a criação das esculturas, oferecendo até 200 mil dólares (171 mil euros) por cada uma e até 600 mil dólares (513 mil euros) por candidato.
O próprio NEH descreve o programa como destinado a apoiar a criação de estátuas de figuras históricas que contribuíram para o património cultural, científico, económico e político dos Estados Unidos. Se cada uma das 250 esculturas custar 200 mil dólares, o total ascenderá a 50 milhões de dólares (42,7 milhões de euros), antes de qualquer despesa com terrenos, infra-estruturas, espelhos de água, anfiteatro, cafés ou manutenção.
Há, também, uma orientação estética explícita. Trump determinou que as figuras sejam representadas de forma realista, ao estilo clássico, excluindo abordagens modernistas ou abstratas. Os materiais previstos incluem mármore, granito, bronze, cobre ou latão, segundo a documentação do NEH e a ordem executiva original.
A escolha formal aproxima o projeto de uma visão tradicionalista da arte pública, em linha com outras iniciativas da Administração, para favorecer arquitetura cívica clássica em edifícios federais. A Casa Branca tem apresentado esta opção como uma forma de "restaurar grandeza e solenidade ao espaço público norte-americano".
É precisamente essa leitura da história que tem suscitado críticas. Paul M. Farber, diretor do Monument Lab, disse ao New York Times que as descrições de algumas figuras "parecem oferecer uma versão higienizada do passado americano". No caso de Martin Luther King Jr., por exemplo, a biografia elogia o seu espírito de iniciativa, mas omite de forma direta o racismo contra o qual lutou. Para Farber, representar figuras como King, [o abolicionista e orador afro-americano] Frederick Douglass ou [a jornalista e socióloga afro-americana] Ida B. Wells-Barnett sem nomear as injustiças que combateram "equivale a trocar representação por uma história despolitizada".
A lista de homenageados reforça essa tensão entre memória, celebridade e identidade nacional. Além de presidentes, militares, cientistas e ativistas, surgem atletas, atores, músicos e figuras da cultura popular. A categoria de “jornalistas”, segundo o NYT, inclui Edward R. Murrow, referência histórica da estação televisiva CBS, e Alex Trebek, apresentador do concurso televisivo Jeopardy!, nascido no Canadá e naturalizado norte-americano. A lista distribuída pela Administração terá 245 nomes, deixando aparentemente cinco vagas por preencher.
O local escolhido também poderá levantar obstáculos. A proximidade ao rio Potomac e a localização em terrenos federais sensíveis em Washington podem exigir avaliações ambientais e urbanísticas, além de eventuais exceções à Commemorative Works Act, a lei que restringe a construção de novos memoriais em determinadas zonas da capital. Até agora, segundo o New York Times, os planos ainda não foram submetidos aos painéis de revisão competentes.
O projeto surge ainda num contexto mais amplo de intervenção de Donald Trump sobre os símbolos culturais e urbanos da capital. A Reuters noticiou, em 2025, que desde que regressou à Presidência, Trump tem procurado deixar a sua marca em instituições culturais, incluindo o Kennedy Center, onde assumiu maior protagonismo e promoveu uma reorientação da programação e da liderança.
O Washington Post notou também que documentos de angariação de fundos ligados a aliados de Trump incluem planos para transformar a frente ribeirinha de Washington, juntando o Jardim dos Heróis a uma reconfiguração do campo de golfe de East Potomac.
Essa proximidade entre obra pública, doadores privados e ambição política poderá reacender dúvidas éticas. O NYT aponta que, se Trump recorrer a financiamento privado para completar o jardim – como fez noutros projetos associados à Casa Branca – poderá voltar a enfrentar acusações de favorecimento de influência junto da Administração. Por enquanto, a Casa Branca apresenta o jardim como um tributo nacional.