Dos protestos à guerra, do inverno à energia: os desafios do novo primeiro-ministro da Ucrânia
Engenheiro de formação, Serhii Koretskyi está habituado a gerir crises em empresas problemáticas. Mas estará preparado para liderar o governo de um país em guerra? Zelensky acredita que sim.
Serhii Koretskyi até está habituado a gerir crises, mas agora terá pela frente o maior desafio da sua carreira: liderar um país em guerra. O gestor, de 48 anos, foi nomeado na última quinta-feira primeiro-ministro da Ucrânia e, contrariamente à maioria dos funcionários do seu governo, não ascendeu através de partidos políticos.
Engenheiro de formação, Koretskyi fez toda uma carreira no setor empresarial, tendo gerido durante mais de duas décadas indústrias de combustíveis e alimentos antes de ter sido escolhido para liderar algumas das empresas estatais de energia mais problemáticas da Ucrânia. E tornou-as lucrativas. Não só aumentaram a produção, como foram alvo de um processo de modernização, tornaram-se uma das maiores fontes de receita do Estado.
Só que agora abraçou uma causa ainda mais complexa: vai liderar um governo de um país em guerra, atolado em problemas financeiros decorrentes do conflito com a Rússia, necessitando para tal de esgrimir perspicácia, destreza política e muita diplomacia. O facto de não ter ligações políticas nem estar ligado a oligarcas foram os pontos fortes para os quais Zelensky olhou na hora de escolher o sucessor de Yulia Svyrydenko, que estava no cargo há um ano.
Mas os desafios que Koretskyi terá pela frente serão extremamente complexos e o mandato já começou de forma conturbada. Enquanto os parlamentares votavam a sua confirmação, centenas de manifestantes reuniam-se no centro de Kiev furiosos com Zelensky, acusando-o de marginalizar injustamente o popular ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, na repentina reformulação do governo.
As prioridades imediatas de Koretskyi incluem proteger o debilitado sistema energético da Ucrânia, estabilizar a economia, garantir que a ajuda internacional seja gasta de forma eficaz e expandir a produção nacional de armamento, segundo o próprio explicou no parlamento. E há ainda a questão do inverno rigoroso, que Zelensky já definiu como uma prioridade.
Experiência não lhe falta. Em 2022, depois de o governo ter assumido o controlo da produtora de petróleo Ukrnafta e da refinaria Ukrtatnafta, do oligarca Ihor Kolomoiskyi, Koretskyi foi nomeado para liderar ambas as empresas simultaneamente. Em apenas dois anos a Ukrnafta registou lucros recorde, saldou as dívidas que tinha ao fisco e expandiu a produção. A empresa tornou-se uma das maiores contribuintes da Ucrânia e uma importante colaboradora do esforço de guerra, fornecendo combustível às forças armadas e financiando a indústria dos drones.
No ano passado, Koretskyi foi escolhido para liderar a Naftogaz, uma gigante estatal de energia, num momento conturbado. As reservas de gás tinham caído para níveis recorde depois de a gestão anterior não ter conseguido garantir importações suficientes e de a Rússia ter intensificado os ataques às instalações de produção.
O agora primeiro-ministro levou a cabo uma auditoria que desencadeou uma reestruturação abrangente, otimizando o quadro de funcionários. As medidas geraram críticas internas, mas a empresa não só reconstruiu as suas reservas de gás como ainda alcançou lucros recorde.
A União Europeia, entretanto, aplaudiu a nomeação. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen afirmou esperar uma "excelente cooperação" e "reformas ambiciosas" para a futura adesão à União Europeia (UE). "Parabéns, Serhiy Koretskyi, pela sua confirmação como primeiro-ministro. Esperamos continuar a nossa excelente cooperação com a Ucrânia e estamos confiantes de que colocará a integração europeia da Ucrânia no centro dos esforços de transformação do país", escreveu Ursula von der Leyen numa mensagem na rede social X.
A líder do executivo comunitário adiantou: "Pode contar com o nosso total apoio enquanto avança com a sua ambiciosa agenda de reformas, nomeadamente nas áreas do Estado de direito, da energia e de outros setores fundamentais da economia".