A operação secreta russa que começou num "centro cultural" e acabou num processo judicial em Angola
Dois russos vão a julgamento por terem alegadamente tentado interferir nas eleições de Angola e conduzido uma campanha de desinformação. Autoridades acreditam que Igor Ratchin e Lev Lakshtanov agiram em nome de uma rede ligada ao Grupo Wagner.
Dois russos vão ser julgados por terem alegadamente incitado protestos antigovernamentais em Angola, conduzido uma campanha de desinformação e tentado interferir nas eleições presidenciais de 2027. Juntamente com eles, também dois angolanos enfrentarão julgamento.
As autoridades suspeitam que os russos chegaram a Luanda em 2024, sob o pretexto de inaugurar um centro cultural russo que nunca se concretizou, e que contrataram o jornalista desportivo Amor Carlos Tomé e o ativista político Francisco Oliveira para os ajudar nas atividades no país. Segundo o despacho de acusação, os russos agiram alegadamente em nome da Africa Politology - uma rede obscura de agentes e oficiais de inteligência em África, que surgiu do Grupo Wagner e cujo fundador era Yevgeny Prigozhin, que morreu em 2023 num acidente de avião.
Operadores políticos ligados ao Grupo Wagner têm atuado em toda a África há mais de uma década, em particular na República Centro-Africana, no Mali e em Madagascar, mas a defesa russa garante que não existe nenhuma ligação entre os acusados e a Africa Politology ou o Grupo Wagner, e que nem sequer estavam a agir em nome do estado russo. Ao invés disso, avançou que estavam a tentar criar uma "Casa Russa" cultural em Luanda.
Enquanto isso, a equipa jurídica que representa os réus angolanos afirma que não há provas suficientes contra eles e que "a acusação se baseia numa mera conjetura
Igor Ratchin, um consultor político, e Lev Lakshtanov, um tradutor, foram detidos em agosto do ano passado e enfrentam agora 11 acusações, incluindo terrorismo, espionagem e tráfico de influência. Segundo a BBC, que teve acesso a uma cópia do despacho de acusação, o documento inclui ainda denúncias relacionadas com uma suposta operação que visava alterar o rumo político de Angola.
Angola é um dos principais produtores de petróleo e exportadores de diamantes de África. Os seus recursos naturais e a posição estratégica fazem com que seja um país de interesse para Moscovo. Embora os laços entre ambos remontem à Guerra Fria (1947-1991), o país tem-se afastado gradualmente da esfera de influência russa. A mineira russa de diamantes Alrosa e o banco VTB tiveram até de deixar Angola devido às sanções internacionais impostas na sequência da guerra na Ucrânia.
Siga-nos no WhatsApp.