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A noite quase sagrada de Rosalía em Lisboa

Não assistimos apenas a um concerto - entrámos num ritual. Na primeira de duas noites esgotadas em Lisboa, Rosalía juntou flamenco, pop e fado num espetáculo onde tudo - da imagem à música - apontou para uma experiência quase espiritual.

Safiya Ayoob / Máxima 09 de abril de 2026 às 00:52
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NOS Primavera Sound dia 3
Foto: Marisa Cardoso
NOS Primavera Sound dia 3
Foto: Marisa Cardoso
NOS Primavera Sound dia 3
Foto: Marisa Cardoso
NOS Primavera Sound dia 3
Foto: Marisa Cardoso

“Eternamente grata a ti, Lisboa.” Foram estas as últimas palavras que Rosalía deixou no palco antes de nos oferecer um dos momentos mais etéreos da noite - as interpretações de Novia Robot e Magnolia, ambas do álbum Lux. A sala, completamente esgotada naquele que foi o primeiro de dois concertos em Lisboa, vestia-se de branco, renda e véus, como se o público tivesse compreendido, instintivamente, que não estava apenas perante um concerto, mas sim prestes a assistir a um ritual.

“Espero uma experiência quase religiosa”, confessava Francisco, 20 anos, à entrada. Não poderia ter sido mais certeiro.

Enquanto a expectativa crescia, o ambiente era cuidadosamente preparado por uma seleção musical improvável, mas reveladora: desde passagens de Le Nozze di Figaro a Camarón de la Isla, passando por Pablo Casals. Um prelúdio clássico e de flamenco que antecipava aquilo que viria a ser uma travessia sonora por cerca de duas dezenas de temas - e, mais do que isso, por diferentes identidades musicais.

O concerto abriu com uma imagem que parecia suspensa no tempo: um cenário ainda por revelar, coberto por grandes panos brancos, como uma casa por habitar. Lentamente, os bailarinos desvendam o palco, revelando uma estrutura central - uma caixa que, ao abrir-se, expõe Rosalía. Vestida em tons de rosa, com um tutu volumoso, imóvel numa terceira posição perfeita, a artista evocava a delicadeza de uma bailarina de caixa de música. Assim permaneceu, quase escultórica, enquanto interpretava Sexo, Violencia y Llantas e Reliquia. “Obrigada, Lisboa”, disse, nas suas primeiras palavras à plateia - simples, mas carregadas de intenção.

Mais do que um concerto, foi uma experiência sensorial. Durante mais de duas horas, Rosalía construiu uma narrativa que cruzava música, performance e cinema. No centro da sala, uma orquestra dirigida por Yudania Gómez Heredia servia de eixo a toda a encenação, ligando palco e público num mesmo espaço simbólico.

A meio do espetáculo, a artista abriu espaço para a memória e vulnerabilidade: “Quando comecei a minha carreira, cantava em bares, casamentos, batizados, comunhões… basicamente em qualquer sítio que precisasse de uma cantora". Foi nesse percurso que descobriu diferentes géneros, línguas e formas de cantar e foi também assim que introduziu uma das suas maiores inspirações: o fado.

Pouco depois, a palco subiu uma convidada especial - Carminho. A entrada da fadista portuguesa foi recebida com entusiasmo imediato, num dos momentos mais aguardados e, simultaneamente, mais íntimos da noite. Juntas, interpretaram Memoria, num encontro improvável entre o universo de Rosalía e a tradição do fado. As vozes entrelaçaram-se com delicadeza, criando um diálogo emocional que suspendeu a sala num silêncio atento, quase reverente.

Esse cruzamento entre culturas - flamenco, pop contemporâneo e fado - materializou aquilo que a própria Rosalía tinha descrito momentos antes: uma procura constante por aprender com outras linguagens e outras formas de sentir a música.

Essa ligação emocional atravessou toda a noite. Houve momentos em que Rosalía se mostrou visivelmente comovida. “Estou muito feliz por estar de volta a Portugal”, disse, antes de acrescentar: “Obrigada, Lisboa, por continuarem a dar-me a oportunidade de partilhar a minha música neste país. Um lugar cheio de beleza, de cor, de fado, de cultura. Inspira-me muito”.

Na plateia, essa emoção era igualmente partilhada. Entre o público, cruzavam-se gerações e geografias. Cécile, 52 anos, de origem francesa, assistia ao concerto com a filha: “Sou fã desde 2021. Gosto muito dela pela voz. Amo flamenco e amo a forma como ela canta. É eclética, mistura vários géneros, tem uma personalidade única".

Visualmente, o espetáculo revelou uma continuidade e evolução do trabalho apresentado na digressão anterior. Rosalía volta a explorar a linguagem da câmara em palco, integrando-a como elemento narrativo essencial. Dois ecrãs gigantes projetavam imagens em tempo real, com uma estética cinematográfica cuidada, que transformava o concerto numa espécie de filme ao vivo. O público não assistia apenas - observava, enquadrava, reinterpretava.

Também o guarda-roupa acompanhava essa ideia de transformação contínua. Em vez de mudanças abruptas, Rosalía ia despindo camadas, revelando novas silhuetas a partir da mesma base - como se cada momento do espetáculo fosse uma variação do anterior, e não uma rutura.

O alinhamento cruzou o presente e o passado, com temas de Lux a dominarem a narrativa, mas sem esquecer momentos-chave da discografia anterior.

No final, ficou a sensação de ter assistido a algo difícil de categorizar. Não foi apenas música. Não foi apenas espetáculo. Foi, como antecipado à porta, uma experiência quase espiritual - construída com rigor, emoção e uma identidade artística que continua a desafiar fronteiras.

Nota: Ao contrário do que aconteceu nos concertos anteriores de Rosalía em Portugal, desta vez não foi permitido a fotojornalistas trabalharem e documentarem - seguindo critérios deontológicos que regem o exercício profissional do fotojornalismo –o concerto através de imagens. Dessa forma, a SÁBADO optou por ilustrar esta reportagem com fotografias feitas em 2019, no festival NOS Primavera Sound, no Porto, em que Rosalía se permitiu ser fotografada em palcos - ao invés de utilizarmos as únicas fotografias do concerto na MEO Arena, em Lisboa, feitas por um fotógrafo pessoal, escolhidas por terceiros e distribuídas pela promotora do espetáculo aos meios de comunicação social.

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