Rosalía Vila Tobella, conhecida no mundo da música por Rosalía, vai subir ao palco da MEO Arena, em Lisboa, a 8 e 9 de abril. Esta é a sexta e sétima vez que a cantora catalã atua em Portugal e desta vez os espetáculos vão servir para apresentar o disco mais recente, Lux, lançado em novembro de 2025. Mas quem é Rosalía e como se tornou numa das artistas espanholas mais ouvidas da atualidade?
Nascida a 25 de setembro de 1992, em Sant Esteve Sesrovires, na Catalunha, começou a cantar ainda durante a infância, apesar de não ter ninguém na família ligada à indústria da música. "Ninguém na minha família tem ligações com a indústria. Nem um único contacto na indústria musical ou no mundo do espetáculo", dizia, citada pelo The New Tork Times Magazine, em 2019. Filha de Pilar Tobella e José Manuel Vila, a cantora tem uma irmã mais velha, Pilar Vila, conhecida por “Pili”, que trabalha como estilista e diretora criativa, e com quem colabora regularmente.
A primeira vez que Rosalía subiu a palco foi aos 13 anos, e foi por volta dessa altura que se apaixonou pelos ritmos do flamenco (manifestação artística que junta influências ciganas, judaicas e andaluzas), que hoje são indissociáveis da sua obra. A cantora também é conhecida por fundir o flamenco com outros géneros musicais como a pop, a eletrónica e o reggaeton, e mais recentemente, em Lux, com a música erudita. Em entrevistas, confessou que o cantor espanhol Camarón de la Isla terá tido influência na paixão que desenvolveu pelo flamenco.
“Lembro-me de pensar que era uma das vozes mais sinceras que já tinha ouvido na minha vida”, dizia à Vogue, em fevereiro de 2026. "Isso despertou em mim o desejo de estudar flamenco”. Rosalía estudou na Escola Superior de Música da Catalunha (ESMUC), onde se focou no flamenco, sob a orientação de José Miguel "El Chiqui" Vizcaya.
"De uma semana para a outra trazia-me as músicas perfeitas", disse o professor, citado pelo El País, em 2019. Ainda antes disso, em 2008, aos 15 anos, Rosalía participou no programa de talentos Tú sí que vales, mas acabou por não passar à fase final e sofreu críticas dos júris. “Sinto que tenho algo especial; tenho a certeza de que vou ser artista”, disse na altura. Antes de se tornar conhecida, também chegou a cantar em casamentos e bares por módicas quantias. Por volta dos 17 anos, foi submetida a uma cirurgia às cordas vocais, por ter cantado durante muito tempo sem formação. "Não consegui falar durante um mês — foi muito estranho, como se fosse um jejum de fala — e depois seguiu-se um ano de reabilitação vocal", contou, citada pelo The Guardian.
Na mesma entrevista, Rosalía também falou sobre a sua relação com a fé. "Rezo todas as noites antes de adormecer", disse. Aos 19 anos, passou 32 dias a percorrer a pé 800 quilómetros do Caminho de Santiago e confessou ao jornal que lê regularmente a Bíblia.
No entanto, apesar da ligação com a religião, não se priva de transformar a fé em expressões artísticas. No novo disco, Rosalía aparece vestida com elementos religiosos, e na canção Novia Robot, por exemplo, diz que é "guapa para diós" (linda para Deus, em tradução para português).
O início da carreira profissional
Em 2017, lançou o primeiro disco, Los Ángeles, produzido pelo músico e compositor espanhol Raül Refree. "Em Los Ángeles você encontra letras e melodias tradicionais do flamenco", dizia Rosalía ao The New Tork Times Magazine. Mas já nessa altura manifestava vontade de se reinventar: “O que não é tradicional é a maneira como é interpretado, tanto no canto quanto na guitarra e, sobretudo, na produção”, acrescentava.
Antes disso, em 2016, também colaborou na canção Antes de Morirme, do artista C.Tangana (nome artístico de Antón Álvarez Alfaro), com quem começou a namorar nesse ano. O casal separou-se dois anos depois, mas o rapper e cantor espanhol chegou a participar no segundo disco de Rosalía, El mal querer (2018), lançado pela Sony Music e co-produzido pelo cantor espanhol El Guincho. Desse mesmo disco, faz parte a canção Malamente (Cap.1: Augurio), que se tornou num êxito e venceu dois Grammy Latinos.
O terceiro disco de Rosalía, MOTOMAMI, foi lançado em 2022 e venceu o prémio de Álbum do Ano nos Grammy Latinos. Em novembro de 2025, a SÁBADO ouviu o álbum mais recente, Lux, e descreveu-o como: "(...) orquestral, épico, aqui e ali industrial, cheio de inspirações estéticas, umas mais antigas e afamadas (o flamenco sempre presente, a ópera, a música clássica), outras mais modernas e de fama dúbia (...)." Nos outros discos, a artista já misturava o espanhol com o inglês, mas em Lux surpreendeu ao cantar num total de 13 línguas. Na canção Memória, em colaboração com a fadista Carminho, a catalã diz algumas palavras em português.
As polémicas
Pelo caminho e como qualquer figura pública, Rosalía também esteve envolvida em algumas polémicas. Em 2025, o estilista Miguel Adrover recusou publicamente um pedido para vestir a cantora devido ao silêncio em relação ao conflito israelo-palestiniano. Em julho de 2025, a artista acabou por se manifestar nas redes sociais: "O fato de não ter usado a minha plataforma de uma forma alinhada com o estilo ou expetativas alheias não significa de forma alguma que eu não condene o que está a acontecer na Palestina. É terrível ver dia após dia como pessoas inocentes estão a ser assassinadas e como aqueles que deveriam impedir isso não o fazem". No mesmo ano, a artista fez manchetes depois de referir que estava a praticar celibato voluntário, em entrevista ao podcast Radio Noia.
No início da sua carreira, também foi acusada por algumas associações de apropriação cultural por incorporar elementos da cultura cigana e do flamenco nas suas canções. Numa entrevista ao jornal El Mundo, em 2018, disse que o flamenco não era propriedade dos ciganos e também referiu que respeitava as origens do movimento artístico. A polémica mais recente aconteceu no mês passado, depois da artista afirmar, numa conversa com a escritora Mariana Enriquez, para o Spotify A/Presenta, que não tinha problemas em separar a obra da artista, referindo-se a Pablo Picasso.
Num vídeo publicado posteriormente nas redes sociais, pediu desculpa pelas declarações sobre o pintor espanhol, que após a sua morte foi acusado por pessoas próximas de maus-tratos e misoginia.
Nessa mesma entrevista, Rosalía referiu que a característica que mais aprecia num homem é que "seja gay" e o momento foi partilhado por milhares de utilizadores nas redes sociais.
Polémicas à parte, Rosalía é hoje uma das artistas espanholas mais ouvidas a nível mundial e fez história com o novo álbum, que somou mais de 42 milhões de reproduções em apenas 24 horas, após o lançamento no Spotify. Esta quarta e quinta-feira, vai apresentá-lo em Portugal.