David Azevedo Lopes, administrador da Leya, estava convicto com a sua ideia de levar leitores e escritores num mesmo comboio, só para trocarem impressões sobre literatura. Mas, apesar de sentir que as pessoas estão sedentas de estar junto dos seus autores favoritos e abertas a novas experiências, nunca imaginou que os 150 lugares das quatro carruagens históricas, a 200 euros cada, voassem num dia. E até já houve quem, não conseguindo bilhete, perguntasse se dava para ir lá ter de carro. Podem sim, respondeu-lhes o mentor da ideia, mas perderão o encanto das carruagens Schindler panorâmicas, que são autênticas peças de museu.
ESta procura só deu fôlego a David Azevedo Lopes para se pôr já a planear o próximo, quem sabe lá mais para o outono, entre outras novidades prometidas para breve. "Estamos sempre a pensar em novas formas de convocar os portugueses para a leitura e tudo conta, como audiolivros ou e-books", explica o administrador da maior editora nacional.
A sua ligação aos comboios, um dos meios de transporte mais românticos, vêm-lhe dos tempos em que era dirigente associativo, nos anos 1980, e ajudou a lançar o comboio Luso, o Europeu e o Ibérico, que proporcionavam experiências diferentes aos jovens nacionais - sem telemóveis, festivais e com um tímido inter-rail significou imenso para aquela geração.
Numa primeira abordagem, a ideia era ir nos carris até ao Norte para a viagem dar tempo a contemplações. Baixando o entusiasmo, e contando com o apoio do turismo do Alentejo e Ribatejo, preferiram diminuir a duração da viagem, até para afinarem os conceitos e ainda chegarem a tempo do último dia da feira do livro de Évora. Será lá, no palco, que Luísa Sobral - uma das escritoras viajantes - dará um concerto baseado no seu novo álbum. Outro do bónus será a revelação, em primeira mão, do novo romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, que também estará a bordo das carruagens. Ana Paula Tavares, por sua vez, terá a seu cargo uma sessão de declamação poética. E. claro, não poderia faltar uma banda de fanfarra para receber estes viajantes especiais.
Mas há mais nomes do catálogo da Leya, num total de 16 escritores, sendo que se procurou heterogeneidade, sobretudo no campo da ficção: Ângelo Delgado, Isabela Figueiredo ou Isabel Alçada são mais alguns dos presentes neste comboio literário inaugural.
Além destes momentos especiais, os passeios culturais por Évora (Sé e Templo Romano) e Vila Viçosa (Paço Ducal), as três refeições e a dormida também estão incluídas no valor do bilhete. O regresso a Lisboa dá-se no domingo, dia 10, a seguir ao almoço em Vila Viçosa. Segundo nos garantiu o administrador da Leya, "esta iniciativa não tem fins lucrativos" e só se conseguiram estes preços graças à estreita colaboração das câmaras e outras entidades regionais com este projeto.
A curiosidade em torno desta viagem adensa-se. É caso até para indagar se, no dia 9 de maio, pelas 10h20, em Santa Apolónia, quando o comboio partir, se avistarão letras em vez de fumo quando o comboio partir?