"Soy Cuba", o filme-propaganda que seduziu Scorsese e Coppola
Repudiado e esquecido no mundo comunista e redescoberto pelos realizadores nos anos 90 pela sua proeza técnica, "Soy Cuba" tornou-se, entretanto, obra de culto cinematográfico. 62 anos depois, chega aos cinemas portugueses a 13 de agosto.
Reputado pela sua proeza técnica, Soy Cuba, de Mikhail Kalatozov, chega aos cinemas portuguesesDR
"Foi um filme que recomeçou do zero, e redefiniu o cinema", diz Martin Scorsese numa entrevista em 2003, que viria a integrar o material bónus do relançamento em DVD de Soy Cuba ("Eu Sou Cuba"), filme de 1964 que, nas suas seis décadas de vida, traçou o improvável percurso de propaganda soviética renegada a celebrado filme de culto. "Se o tivesse visto mais cedo, teria feito filmes de forma totalmente diferente", remata o realizador que, nessa altura, já tinha assinado os seus títulos mais celebrados, de Taxi Driver a Touro Enraivecido e Tudo Bons Rapazes.
Foi apenas no início da década de 90, já caído o muro de Berlim, com o ressurgimento de uma cópia da produtora soviética Mosfilm, que o filme chegou ao Ocidente, sendo descoberto por Scorsese e Francis Ford Coppola e entusiasticamente promovido por ambos, deslumbrados pela sua proeza técnica e estética. Uma restauração em 4K do filme foi disponibilizada pela Mosfilm para visualização gratuita no YouTube (embora com dobragem em russo por cima do áudio do filme). A versão original, em espanhol e inglês (com legendas em português), é a que chega agora ao Cinema Ideal, em Lisboa, na sua estreia comercial em Portugal, 62 anos depois.
A história de "Soy Cuba" remonta à Revolução de 1959, que derrubou o regime ditatorial de Fulgencio Baptista, instaurando o regime comunista em Cuba. Impulsionada pela expansão do internacionalismo proletário no mundo, a União Soviética decidiu financiar um filme-propaganda que exaltasse as conquistas da revolução cubana, que seria filmado na ilha por uma equipa soviética (o realizador Mikhail Kalatozov e o diretor de fotografia Sergei Urusevsky) com considerável liberdade financeira e criativa, e exibido depois nos dois países.
Kalatozov, que já era um realizador de sucesso internacional – o seu filme Quando Passam as Cegonhas ganhara a prestigiada Palma de Ouro de Cannes em 1958 – inspirou-se noutro projeto revolucionário, Que Viva México!, de Sergei Eisenstein, um épico que retrataria várias épocas da história do país, do México pré-colombiano à era contemporânea, mas que, por dificuldades financeiras e diplomáticas, nunca chegou a ser terminado. Sem os mesmos constrangimentos, o realizador encabeçou um projeto megalómano para a época, contando com milhares de extras, quilómetros de fita e aparato para concretizar planos nunca antes vistos à data.
O cenário favorável, no entanto, mudaria em pouco tempo. As filmagens começaram poucos meses antes da Crise de Mísseis Cubana, que aumentou consideravelmente a tensão entre Cuba e a União Soviética. Quando o filme saiu, em 1964, as relações entre os países já haviam deteriorado e houve motivos de reclamação de ambas as partes: Cuba denunciava o retrato superficial da vida na ilha, ao passo que as autoridades soviéticas consideram o filme insuficientemente comunista, quase compadecido com a vida burguesa. Um fracasso comercial e crítico no mundo comunista, Soy Cuba foi esquecido do lado de lá do muro, caindo no esquecimento por quase trinta anos.
Hoje, é mais difícil retirar-se essa leitura do que a de Scorsese e Coppola: a de que este é um filme de autor de considerável audácia técnica e primor estético, uma conquista do cinema cujo mérito artístico não é em nada diminuído pelo seu teor propagandístico. Antologia composta por quatro histórias – entrecortadas com narração de uma voz feminina que nos diz, repetidamente, "Eu sou Cuba", com reflexões sobre as origens e destino do país –, os 140 minutos de Soy Cuba dividem-se entre o retrato mordaz do capitalismo, o sofrimento do povo cubano antes do golpe e a incitação ao fervor revolucionário.
Não deverá passar despercebido ao espetador que nenhuma destas histórias é coisa do passado no mundo de hoje: a mulher pobre empurrada para uma vida secreta como prostituta, o pequeno agricultor cuja terra é engolida pelo grande negócio, o regime totalitário que reprime a dissidência com violência, o camponês apolítico empurrado para a luta armada. O que fica narrativamente, no entanto, é a ideia de que este é um retrato idealista de um sonho fracassado – um manifesto de esperança num país melhor que empalidece perante a história que desde essa época decorreu.
Ainda assim, este é, acima de tudo, um filme para ser contemplado e sentido, mais do que lido e racionalizado. Depois da sequência dos créditos iniciais, com imagens aéreas das vastas florestas e plantações cubanas, percebemos depressa o estilo de filmagem, com planos corridos e sem cortes, ângulos dramáticos e imagens abertas e distorcidas. No início, um só plano leva-nos do topo de um edifício a uma festa à beira da piscina, na sua base, e depois para dentro da água; no meio da plantação, a câmara imita os movimentos do facão que corta a cana de açúcar, balançando vertiginosamente para um lado e para o outro; mais adiante, o nosso olhar acompanha uma procissão pelas ruas de Havana do chão para os altos, entrando e saindo de uma fábrica de charutos sem cortes para voltar a perseguir o funeral.
É uma experiência melhor vista do que contada: Soy Cuba estreia em Portugal na quinta, 13 de agosto, no Cinema Ideal, em Lisboa.