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O dia em que Luís Represas quis "pacificar" o futebol português

O momento ficou captado em vídeo e guardado na minha memória: o músico, acompanhado por João Gil, brincou com a rivalidade entre clubes.

Ângela Marques 22 de julho de 2026 às 17:02
João Gil Luís Represas António Pedro Santos

(A verdade é como a morte: uma sacana. Entre jornalistas, dizemos muitas vezes, como quem pisca o olho à profissão, "não deixes que a verdade estrague uma boa história". Por isso e apesar de tudo, a história que se segue é baseada em factos remotamente verídicos, mais intuídos do que demonstrados, e reunidos sem o auxílio da inteligência artificial - até porque, se me perguntam, no dia em que um País perde uma das suas vozes do que ele precisa é de inteligência emocional para saber o que fazer do silêncio que fica.)

Àquela hora decorria um jogo do Benfica. Gosto de imaginar que seria o 4 para o Benfica, zero para o Belenenses de dezembro de 2006 - não porque não respeite o emblema do Restelo e do coração de Luís Represas mas porque a minha caixa cardíaca é vermelha e branca. Sou péssima com idades mas olho para o João e para o Luís e vejo-os como os hei de imaginar sempre: jovens, bonitos, cheios de ternura por dentro e charme por fora. 

O que sei, com absoluta certeza, é que não estava lá, no auditório - mas nunca mais esqueci o momento que ficou captado em vídeo e foi exibido pela RTP2. Quando começam a cantar o tema Zorro, que hoje talvez seja mais conhecido na voz de António Zambujo (a internet, sempre generosa, oferece-lhe a autoria do tema), Represas canta os versos de João Monge e João Gil "Eu quero marcar um Z dentro do teu decote/ Ser o teu Zorro de espada e capote/ P'ra te salvar à beirinha do fim/ Depois, num volte face vestir os calções/ Acreditar de novo nos papões/ E adormecer contigo ao pé de mim" e até aqui tudo bem.

Só que a canção segue e Luís Represas segue com ela, cantando "Eu quero ser para ti o camisola dez/ Ter o Benfica todo nos meus pés", e a audiência irrompe num misto de aplausos e assobios, enquanto João Gil, assumido benfiquista, sorri. Os dois param de tocar. João Gil pergunta então a Represas "Queres que te diga o resultado", ao que o cantor atira "Não quero saber o resultado. Não quero saber o resultado, vamos pacificar isto antes que dê mau resultado."

E é assim que os acordes regressam aos lugares deles, as pontas dos dedos dos músicos (dois dos maiores, se virmos bem as coisas), e Represas remata para golo: "Eu quero ser para ti o camisola dez/ Ter Portugal todo nos meus pés." Como se lhe respondesse, o público faz-se bancada e aplaude. Ele canta ainda: "Se assim faltar a festa na tua bancada/ Eu faço a minha última jogada/ E marco um golo com a minha mão." Se isto não foi uma goleada.

Veja aqui o momento: 

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