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Luís Represas (1956-2026): "No Natal, dei com 500 escudos no sapatinho e comprei uma guitarra"

Em 2006, o músico sentou-se com a SÁBADO para recordar memórias, a infância, os Trovante e um País em que “as pessoas viviam a dois tempos”. Recuperamos a entrevista.

Já perdeu a conta ao número de concertos que deu, mas continua a sentir um frio no estômago antes de subir ao palco. Assim vai ser nos dias 29 e 30 de Março, no Coliseu do Porto, e a 1 de Abril, no Grande Auditório do CCB, em Lisboa, nos três concertos que comemoram os seus 30 anos de carreira.

Luís Represas
Luís Represas

Longe dos espectáculos e das luzes, na sua casa perto de Sintra, Luís Represas só ouve pássaros e os acordes que vai tocando na guitarra, enquanto fuma uma cigarrilha atrás da outra. Do boémio, apenas resta o cabelo comprido e os jeans. No seu estúdio, um anexo junto à piscina, há fotos da mulher, Margarida Pinto Correia, e cartazes da banda que o tornou famoso, os Trovante. Na parede, estão panfletos de movimentos revolucionários e recordações de Havana. Foi aqui que recebeu a SÁBADO.

Está prestes a completar 30 anos de carreira. De repente, o que é que lhe vem à cabeça?

O princípio de tudo...

Vamos para 1976 e para o início dos Trovante.

Exacto. Ao encontro de uns amigos que tocavam guitarra e cantavam canções da época.

Afinal, o grupo chama-se O Trovante mas toda a gente diz Os Trovante. Isso irrita-o?

As pessoas dizem os Trovante como dizem os Rolling Stones e os Beatles. O nome de um grupo pressupõe um colectivo.

Como é que o grupo de amigos se juntou?

Havia dois grupos: os que andavam no Liceu Pedro Nunes (eu, o Manuel Faria, o meu irmão João Nuno) e os que estudavam no D. Pedro V (João Gil e Artur Costa). Situávamo-nos todos na área da UEC (União de Estudantes Comunistas) e descobrimos interesses musicais comuns. E há uma personagem central, o Francisco Viana, que escrevia poemas. Eram tão bons que nos provocaram vontade de os musicar.

Foram logo convidados para a Festa do Avante!.

A tensão era tal, que nem me lembro do que aconteceu. Entretanto, houve uma editora que nos desafiou para gravar o Chão Nosso.

É verdade que queria ser médico?

Era um sonho, uma vocação. Ainda hoje sinto que podia ter ido por aí.

Não foi e já lá vão 30 anos desde o primeiro concerto. Continua a tremer quando pisa o palco?

Há alguma ansiedade e isso é bom. No meu caso, não está relacionada com o pânico do palco, mas com a ansiedade de subir para cima dele, fazer música e estabelecer uma relação com o público.

Quando é que desaparece o frio na espinha?

Assim que se sobe ao palco.

É um dos nomes mais fortes da música portuguesa. A fama é uma pressão ou um conforto?

As duas coisas. Por um lado, é uma pressão positiva, obriga-me a não gorar as minhas próprias expectativas – e se fizer aquilo em que acredito, as pessoas sentem. Por outro, é confortável saber que posso fazer o que sempre quis.

O João Gil diz que o Luís foi o irmão ideal para crescer. Partilhavam tudo?

Exacto. Dedicámos 16 anos ao grupo. Enquanto outros faziam vida académica, andavam na discoteca e namoravam, nós compúnhamos, ensaiávamos, dávamos concertos. Não vivíamos na mesma casa, mas estávamos sempre juntos...

Jantavam à lorde, antes dos concertos?

Nem mais! E eu continuo a fazê-lo. Aquela hora e meia em que estamos a comer e a falar de tudo, dá-nos outra disponibilidade para ir tocar.

Entravam em palco muito arranjados. Era regra?

Tomávamos sempre um banho. As estradas eram péssimas e a carrinha em que viajávamos não tinha ar condicionado... Faziam-se viagens terríveis, debaixo de sol, ensaios no meio da poeirada. Por isso, antes de jantar tomávamos banho e mudávamos de roupa.

Onde?

Em qualquer lado: quartéis de bombeiros, quartéis da tropa, casas de amigos, onde desse para ligar a mangueira.

Como era o País antes da febre do alcatrão?

Terrível! Daqui a Bragança eram no mínimo 11 horas de viagem! O País está totalmente diferente, mas podia estar mais ainda... se não fosse só o alcatrão a mudar.

Como assim?

Em Portugal as pessoas vivem a dois tempos: um de angústia, cinzentismo e medo; e outro de "isto é capaz de lá ir". Viver assim é doloroso.

O cabelo comprido é o último acto de rebeldia?

Nunca usei o cabelo comprido por ser rebelde, mas por gostar.

Era um menino da Lapa?

Era um menino e vivia na Lapa, não era menino da Lapa. Nasci e vivi lá até aos trinta e poucos anos.

Brincava na rua?

Não muito, havia poucos espaços para isso. Mas era um privilégio viver num bairro onde se tinha tudo à mão: andei no Lar da Criança, a 20 metros de casa; depois no Liceu Pedro Nunes, que era a 50... A Lapa era uma pequena aldeia dentro da cidade.

Entretanto passou a ser chique viver lá e tornou-se um bocado sufocante.

Quantos eram lá em casa?

Três irmãos, o meu pai, a minha mãe e as minhas duas avós. Uma família grande e feliz.

Três rapazes juntos devia ser um terror.

Três rapazes e os vizinhos. Vivíamos num prédio antigo, circulávamos de andar para andar. Era divertido.

O seu pai trabalhava na rádio. É daí que vem a ligação da família à música?

Julgo que se há alguma propensão genética vem do meu avô materno – morreu cedíssimo –, que tocava e pintava. Depois, quem mais desenvolveu a nossa aptidão para a música foi a professora de canto coral da instrução primária.

Teve a primeira guitarra aos 13 anos.

Sim. No Natal, dei com 500 escudos no sapatinho e comprei uma guitarra.

Passou a tocar o dia inteiro?

Disse ao meu pai que queria ir para o Conservatório e ele perguntou-me se era para aprender música clássica. Como respondi que queria tocar com amigos, ele mandou-me aprender com eles, nos intervalos da escola.

Era reguila? Qual foi a sua maior partida?

Acho que até era bonzinho. Mas uma vez, no liceu, desmontámos o anfiteatro de físico-química. Tirámos os parafusos todos, guardámo-los num saquinho e ficámos a ver... Quando entrou a outra turma, aquilo caiu tudo!

Com que idade teve a primeira namorada?

Uns 6, andava na primária... Depois, como o liceu era só para rapazes, a convivência com o sexo oposto tornou-se mínima.

Então como é que descobriu as mulheres?

Nas férias. De resto era difícil. Eu montava a cavalo na Mocidade Portuguesa, mas era meninos de manhã e meninas à tarde...

Só lhe sobrava a Costa de Caparica...

Toda a vida lá passei férias, era fantástico. Fechávamos a casa de Lisboa quatro meses e íamos para a praia.

Foi uma sorte viver o 25 de Abril aos 17 anos?

Claro! Antes da revolução vivia completamente a leste da política. Embora o meu amigo Manuel Faria, que conheço desde os 3 anos, já tivesse consciência e viesse de uma família com ideias muito claras, eu estava noutra.

Como é que viveu o dia da revolução?

Fui dos primeiros a saber porque o meu pai era director da Emissora Nacional. Em casa, a minha mãe correu a acordar-nos. "Levantem-se, Lisboa foi invadida por tropas!" Perguntei-lhe de que país eram, nunca pensei que fossem as nossas. Depois vieram as preocupações: dado o cargo do meu pai, não sabíamos o que ia acontecer.

Como é que o menino do regime se encantou pela revolução?

O Manuel Faria permitiu-me abrir os olhos e perceber o que tinha acontecido e porquê. Depois foi o fascínio de descobrir a nova realidade... Parece irónico, mas devo isso à formação humana que os meus pais me deram.

Sendo de direita, como é que os seus pais viram esse deslumbramento pela esquerda?

O meu pai sempre disse que fizesse eu o que fizesse, devia fazê-lo bem feito. E aconselhou-me a lutar de forma consciente e honesta por aquilo em que acreditava.

O 25 de Abril foi o que esperava?

Numas coisas sim, noutras não. Houve muitos interesses, perdeu-se tempo a fazer coisas que não eram tão importantes.

Foi militante da UEC e da LUAR.

Sim, mas fui-me desiludindo. Não me arrependo de nada, mas fui optando pela participação enquanto cidadão, que é muito mais útil.

Quando os Trovante acabaram, foi para Cuba. Fidel é um herói ou um ditador empedernido?

Apaixonei-me pelos cubanos. A maioria das pessoas tem a conversa redutora, Fidel ou não Fidel, mas Cuba é muito mais do que isso. Não se pode escolher preto ou branco, há uma grande margem de cinzento.

Não respondeu à pergunta.

É essa a resposta.

Costuma ouvir as suas músicas?

Regresso a elas de vez em quando, mas é algo penoso. Dá sempre vontade de mudar.

Que relação tem com drogas?

Nunca tive nenhuma. Felizmente, sempre me passaram ao lado.

Experimentou e basta?

Na minha geração toda a gente experimentou cigarros para rir. Mas nunca tive apetência para isso... Lembro-me de no liceu aparecerem uns mata-borrões com ácido e de eu ter imenso medo.

Os músicos têm as mulheres aos pés?

E as músicas têm os homens aos pés.

Tem muitas fãs?

É normal que despertemos o imaginário das pessoas como algumas artistas o fizeram comigo. Eu tinha um póster da Sylvie Vartan de minissaia na secretária. E em 1997, quando me cruzei com a Françoise Hardy, em Paris, até estremeci.

Vem de uma família grande e tem uma família grande. Gosta de casas cheias?

Tenho quatro filhos, o mais velho com 13 anos e o mais novo com três e meio. Já cumpri a minha missão de repovoamento.

É daqueles que leva os filhos à escola?

Sou dos que fazem tudo o que podem dentro da sua disponibilidade. Sou um pai disponível. O meu estúdio é em casa, estou a gravar e eles entram por aqui. Sim, vou buscá-los e levá-los ao colégio...

Eles gostam de ir aos seus concertos?

Gostam e vão, com bom senso. Um concerto não é um parque de diversões e eu também não ia para o escritório do meu pai.

O casamento com Margarida Pinto Correia deu-lhe outra estabilidade?

Não são os casamentos que nos dão estabilidade, nós é que descobrimos a estabilidade nas relações. Sou plenamente feliz neste casamento.

Mora longe de Lisboa.

Estar fora de Lisboa afasta-me de muitos estímulos diários. Dá a sensação de um certo isolamento, mas é benéfico. E tenho cuidado para não virar eremita.

Teve a sua fase de homens de negócios, com bares e restaurantes. Sentia-se empresário?

Aventuras... Umas correram bem, outras não. Mas nunca estive ligado à gestão.

O seu bar na Expo 98, o Bugix, fez história.

Mas o projecto importante foi o Chafarix [agora na mão de Mico da Câmara Pereira]. Faz 20 anos, mas gostava de o reactivar. E não pretendo meter-me em mais nada.

O Luís e o Manuel Faria foram chamados a depor no processo Casa Pia.

Temos mesmo de falar nisso? Nem merece comentários.

Já encheu a Aula Magna, os Coliseus e o Campo Pequeno. O que lhe falta fazer?

Falta sempre tudo. E quando achar que não me falta nada, fecho a porta.