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Canções, protestos e política: a edição mais controversa da Eurovisão arranca hoje

A 70.ª edição do festival Eurovisão vai para o ar debaixo de grande contestação. A permanência de Israel em competição fez com que alguns países desistissem da prova, Espanha incluída.

Renata Lima Lobo 12 de maio de 2026 às 07:00
"Unidos pela música" foi o mote do espetáculo de drones austríaco que inaugurou a temporada da Eurovisão Hans Leitner/Eurovision

A partir de hoje, 12 de maio, a cidade austríaca de Viena acolhe a 70.ª edição da Eurovisão, a mais popular competição europeia que todos os anos reúne músicos de vários países para eleger uma nova estrela pop. As semifinais estão marcadas para 12 e 14 de maio e a grande final acontece sábado, dia 16. Mas além das canções, as atenções estão a virar-se para a controversa participação de Israel. 

Desde 2024, a permanência de Israel na Eurovisão divide opiniões, após se terem intensificado as antigas tensões do país com a Palestina, em resposta ao ataque surpresa por grupos liderados pelo Hamas, a 7 de outubro de 2023. A verdade é que, desde então, a Organização das Nações Unidas (ONU) considerou que Israel está a cometer um genocídio no território ocupado da Palestina e o Tribunal Penal Internacional emitiu um mandado de captura para Benjamin Netanyahu, acusando-o de crimes de guerra. 

Uma vez que a Rússia foi excluída da Eurovisão após a invasão da Ucrânia, em 2022, (e a Bielorrússia, em 2021, após a reeleição do presidente Aleksandr Lukashenko) muitos defendem que os mesmos critérios se apliquem a Israel. Mas a organização não está de acordo e quer deixar a política à porta. 

As posições contra a participação de Israel

São 35 os países que concorrem nesta edição, mas podiam ser mais. Em protesto contra a participação de Israel, cinco países decidiram boicotar a sua participação: Irlanda, Eslovénia, Países Baixos, Islândia e Espanha (que faz parte dos “big five”, os cinco países que passam diretamente para a final, por serem os grandes financiadores do concurso). Este ano, a RTP tomou a decisão de participar, embora 13 dos 16 concorrentes do Festival da Canção - que por cá seleciona o representante português na Eurovisão, os modelos variam em cada país - tenham assumido que boicotariam a sua participação na competição europeia. Venceram os Bandidos do Cante, com “Rosa”, uma das três atuações que disse não ao boicote e que tem atuação marcada para a primeira semifinal. 

Ensaio dos Bandidos do Cante no palco da Eurovisão Alma-Bengtsson/Eurovision

Na passada quinta-feira, os trabalhadores da RTP enviaram uma carta aberta dirigida ao presidente do Conselho de Administração da RTP, Nicolau Santos, ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, e à ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, apelando ao boicote à participação de Israel no Festival. "Permitir a participação de Israel num evento que se apresenta como celebração da paz, diversidade e união entre povos representa uma afronta às vítimas, uma tentativa de branquear crimes e uma instrumentalização cultural que o Serviço Público português não deve, não pode e não irá legitimar", sublinharam. 

Também os NAPA, vencedores do último Festival da Canção, disseram à SÁBADO que não participariam este ano: "A situação intensificou-se no último ano e as perspetivas são bastante diferentes. Não faz sentido Israel participar se a Rússia não pode", defendeu um dos elementos, Guilherme Gomes. 

Em abril, mais de mil profissionais da música de todo o mundo apelaram ao boicote do festival da Eurovisão, numa carta aberta assinada por nomes como Brian Eno, Hot Chip, IDLES, Massive Attack, Mogwai, Peter Gabriel, Primal Scream ou Sigur Rós e que contou com muitos subscritores portugueses, entre os quais Carlos Mendes, Ana Deus, Cláudia Pascoal, Cristina Branco, Fado Bicha, Filipe Sambado, Francisca Cortesão, Iolanda, Jorge Palma, Linda Martini, Selma Uamusse, Stereossauro, Legendary Tigerman e muitos outros. Uns meses antes, em dezembro, o artista suíço Nemo, que ganhou a 68.ª edição do festival da Eurovisão em 2024, antecipou-se a muitas vozes anunciando que iria devolver o troféu à sede da EBU, em protesto contra a participação de Israel. 

Foi igualmente em dezembro que a EBU, após uma votação em assembleia-geral sobre a participação de Israel, anunciou que "todos os membros da UER que desejem participar no Festival Eurovisão da Canção 2026 e concordem em cumprir as novas regras são elegíveis para participar". Novas regras que passam por limitar o número de votos por SMS, telefone ou online (desce de 20 para 10); adotar sistema misto de voto nas semifinais (júri e público, em vez de apenas televoto); ou a interdição de artistas e televisões de participar em campanhas de promoção desproporcionadas, em particular quando realizadas pelo governo e agências governamentais, que possam influenciar os resultados. 

Regras que se juntam a outras adotadas na última edição que, sob o argumento de proteger a neutralidade do evento, levaram à proibição dos artistas de usarem outras bandeiras que não a do próprio país. 

Quem vai representar Israel nesta edição?

Em 2025, a entrada de Israel ficou em segundo lugar com o tema "New Day Will Rise" (Um Novo Dia Surgirá), interpretado por Yuval Raphael, num ano que gerou alguma controvérsia sobre o sistema de votação, dividido entre júri e televoto. Este ano, é Noam Bettan que sobe ao palco. Nascido em Israel e filho de franceses, vai cantar "Michelle", um tema romântico, divido por três idiomas - hebreu, inglês e francês. 

Nas previsões do site Euroworld, e até à publicação deste artigo, Israel segue em sexto lugar nas chances de vitória, numa tabela liderada pela Finlândia, Grécia e Dinamarca. Portugal aparece na 33.ª posição.

Noam Bettan é o intérprete da canção israelita Shai Franco/Eurovision

Quem organiza a Eurovisão?

O festival é organizado pela União Europeia de Radiodifusão (EBU), uma aliança global de meios de comunicação de serviço público, composta por 113 organizações distribuídas por 56 países, aos quais se juntam 28 associados de outros continentes.  No seu livro “Eurovisão”, Nuno Galopim dá as coordenadas: “podem pertencer a esta organização os territórios que estiverem compreendidos numa zona delimitada a ocidente pelo oceano Atlântico, a leste pelo meridiano dos 40 graus e, a sul, pelo paralelo dos 30 graus”. Portanto, há países que só não participam pela for falta de interesse, como Argélia, Tunísia, Líbia, Egito, Líbano, Jordânia ou Marrocos (que entrou apenas em 1980). 

A primeira edição data de 1956, uma ideia nascida no pós-2.ª Guerra Mundial com o objetivo de “reunir as emissoras de serviço público de toda a Europa, fortalecer os laços entre as nações e promover a troca de conhecimento e experiência”, recorda o site da Eurovisão. Apesar do convite ter sido enviado a todas as emissoras, nessa primeira edição participaram apenas sete países: Países Baixos, Suíça, Bélgica, Alemanha Ocidental (antes da queda do muro de Berlim), França, Luxemburgo e Itália. 

A entrada de países como Portugal, Israel e... Austrália

Com o passar dos anos, a Eurovisão foi aumentando o número de participantes, em particular da Europa de Leste nos anos 90, após a desfragmentação da União Soviética. Portugal estreou-se em 1964 com “Oração”, tema interpretado com José Calvário que recebeu um total de zero pontos. Talvez um prenúncio do histórico português em competição: A participação portuguesa teve apenas alguns momentos mais fortes e até à vitória de Salvador Sobral, com “Amar Pelos Dois” em 2017, a melhor classificação tinha sido a de Lúcia Moniz, com “O Meu Coração Não Tem Cor”, em 1996, que ficou na sexta posição. Numa das raras vezes que Portugal chegou ao top 10 da classificação final. Mas voltando atrás. 

Israel entra em competição em 1973, uma vez que a televisão pública israelita da altura, a IBA, fazia parte da EBU (hoje é a Israeli Public Broadcasting Corporation). O país já se sagrou vencedor quatro vezes. Se excluirmos os países transcontinentais que têm lugar na Eurovisão - como a Arménia ou o Azerbaijão - é o único país não-europeu do grupo, a par da Austrália, o caso mais atípico. O país, que fica do outro lado do planeta, tem uma grande base de fãs eurovisivos desde os anos 80 e é transmitido pela SBS, a televisão pública, pela madrugada fora. Em 2015, no 60.º aniversário da Eurovisão, a EBU convidou a Austrália a competir como país convidado, mas o que estava previsto ser uma participação única, tornou-se permanente. No entanto, é sempre por convite.

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