Sábado – Pense por si

Entre a música e o protesto: Festival da Canção avança sob o peso do boicote à Eurovisão

Foi hoje apresentado o Festival da Canção que terá um ano atípico pela recusa de 13 autores em participar na Eurovisão. A RTP mantém participação e diz que irá “gerir a situação em função do que acontecer no festival”.

Capa da Sábado Edição 21 a 27 de janeiro
Leia a revista
Em versão ePaper
Ler agora
Edição de 21 a 27 de janeiro
Renata Lima Lobo 22 de janeiro de 2026 às 16:30
Apresentação do Festival da Canção 2026
Apresentação do Festival da Canção 2026 Pedro Pina/RTP

Esta quinta-feira, o espaço LAV - Lisboa ao Vivo acolheu a apresentação do Festival da Canção e dos 16 temas que irão concorrer pela vitória. Será a 60.ª edição do festival, num ano com algumas novidades, mas 13 dos autores já tinham anunciado que irão boicotar a participação na Eurovisão, em protesto contra a participação de Israel e na sequência da guerra e genocídio na Palestina. A SÁBADO tentou perceber junto de José Fragoso, diretor da RTP, quais os planos do canal no caso de uma vitória que não possa levar ao festival europeu. Mas não parece haver um. 

A apresentação decorreu sem que se falasse do elefante na sala. Foram anunciadas as datas (semifinais a 21 e 28 de fevereiro e final a 7 de março); o espaço (estúdios da Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos, uma novidade); os apresentadores (Vasco Palmeirim, Filomena Cautela, Catarina Maia e Alexandre Guimarães), os intérpretes e as canções. O Festival da Canção irá prosseguir como sempre e terá 16 temas a lutar pela vitória. Sobre a Eurovisão, José Fragoso é perentório: “A decisão já está tomada, vocês conhecem-na e não vou fazer mais nenhum comentário sobre ela. Está feita”, responde à SÁBADO, sublinhando que para já o plano é mesmo fazer o Festival da Canção. “O que queremos é que seja uma festa da música. Um encontro de pessoas que vêm de áreas diferentes da música e que se encontram aqui num grande acontecimento, um momento de encontro da música portuguesa”, defende.  

Mesmo com a questão do boicote de grande parte dos participantes em cima da mesa, o diretor da RTP continua a esperar que este ano “Portugal consiga passar à final do Festival da Eurovisão”. Mas a recusa em participar da esmagadora maioria dos concorrentes não poderá comprometer essa conquista? “Vamos fazer uma coisa de cada vez”, responde, acrescentando que “não sabemos o que vai acontecer a seguir”. “Estamos a viver num mundo em que acontecem coisas todos os dias tão diferentes que não vale a pena fazer apostas a muito longo prazo”.

“A minha música também pode fazer a diferença”

10 de dezembro, um conjunto de autores do Festival da Canção, entre os quais Cristina Branco, publicou um comunicado conjunto onde anunciavam: "Caso a nossa canção seja vencedora, não estaremos no Festival da Eurovisão da Canção de 2026". No longo comunicado, explicavam o motivo: "Apesar da proibição à participação  da Rússia na edição de 2022 na Eurovisão, por motivos politicos (invasão a Ucrânia), foi com espanto que constatámos que não foi dado o mesmo destino a Israel, que está, segundo a ONU, a cometer atos de genocídio contra os palestinianos em Gaza". 

No mesmo dia, e em sentido contrário, os Bandidos do Cante anunciaram que “se um dia o público e o júri entenderem que uma canção nossa deve vencer, representaremos Portugal com responsabilidade, respeito e dignidade”. A 22 de dezembro, o grupo Agridoce tomava também a  decisão de não participação: "Caso a nossa canção seja vencedora do Festival da Canção e as circunstâncias se mantenham inalteradas, não participaremos no Festival Eurovisão a Canção”.

André Amaro
André Amaro Pedro Pina/RTP

E sobravam duas posições. O autor e intérprete Sandrino não quis comentar a situação à SÁBADO, mas André Amaro explicou-nos a sua decisão de não boicotar a Eurovisão. “Eu respeito imenso a opinião de todos e já falámos todos sobre o assunto” começa por dizer, compreendendo quem decidiu não ir. No entanto, Amaro quer que a sua música “seja um motivo de união”. “A minha música também pode fazer a diferença nesse aspeto, de lutar por algo e é acima de tudo isso que eu quero transmitir.” 

Entretanto, em direto

Apesar do tema do boicote à Eruovisão ter passado ao lado da apresentação no LAV, o mesmo não aconteceu nas mensagens do direto ao vivo do Instagram. Foram muitas as mensagens de apoio à Palestina e a Israel publicadas por pessoas que acompanharam o direto.

Entre mensagens de apoio aos artistas ou ao festival, encontravam-se também bandeiras da Palestina ou de Israel. Ou mensagens como: “Boicote à Eurovisão!”; "Só estou interessado nas três [canções] que pretendem ir à Eurovisão”; ou “Israel tem que ganhar este ano por toda a injustiça que sofreu”, num rol de indignação que ia transformando em debate online. “Israel sofreu o quê? Síndrome de vítima, só pode.”

Havia ainda quem preferisse que o assunto não estivesse em cima da mesa - “Chega de política, foquem-se nas músicas!”; “Isto não deixa de ser um festival de música português” - e outros notavam que ninguém falava do assunto na sala de apresentação: “Acho que a RTP está a tentar evitar falar da Eurovisão de propósito”; “A RTP tem de clarificar quem vai concorrer ou não”. 

Artigos Relacionados
A Newsletter Na Revista no seu e-mail
Conheça em primeira mão os destaques da revista que irá sair em banca. (Enviada semanalmente)