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Zita Martins: “Recusei convites da NASA. Queria montar um laboratório em Portugal”

Formou-se em Química no Instituto Superior Técnico e voou para universidades do Reino Unido e dos Países Baixos, até chegar à agência espacial norte-americana. A bagagem valeu-lhe o cargo de vice-presidente do Técnico para os assuntos internacionais. Veja o vídeo.

Falar do Sistema Solar e da vida extraterrestre ganha outro encanto no 11º andar da Torre Sul do Instituto Superior Técnico (IST), com vista panorâmica para Lisboa. À medida que o sol se põe, na terça-feira (dia 20), a astrobióloga Zita Martins, de 47 anos, explica o fascínio pela área que a levou à NASA e a trouxe de volta à casa de partida: o Técnico (IST), onde se formou em Química. Esperam-na mais missões espaciais, porque o céu não é o limite.

A astrobióloga Zita Martins no laboratório onde analisa as amostras, recolhidas em ambientes análogos aos dos planetas
A astrobióloga Zita Martins no laboratório onde analisa as amostras, recolhidas em ambientes análogos aos dos planetas Miguel Baltazar/SÁBADO

Como foi partilhar o palco com o astrofísico-estrela, Neil deGrasse Tyson, na MEO Arena, em Lisboa?

Foi a primeira vez que o StarTalk Live! aconteceu na Europa. Os dois mil bilhetes esgotaram rapidamente e foi uma experiência extraordinária estar com um comunicador de ciência como o Neil. Falámos do Sistema Solar como uma viagem.

Qual foi a reação do público ?

Tenho experiência de fazer comunicação de ciência em várias vertentes, gosto de tentar desconstrui-la para as pessoas perceberem o que fazemos, porque é que um cientista passa anos a fazer investigação. O feedback que recebi depois, através de mensagens de email ou do LinkedIn, foi muito positivo. Perceberam o que foi explicado e é isso que se pretende.

Uma das suas áreas é a deteção de indícios de vida extraterrestre. Como faz?

No evento, falei dos análogos planetários, locais na Terra que apresentam características semelhantes [às de outros planetas]. Tentamos replicar essas condições. Por exemplo, há luas geladas [satélites cobertos de gelo] em Júpiter e Saturno que têm um oceano por baixo da camada de gelo. Na Terra, procuramos locais assim. Em colaboração com o professor João Canário, fazemos trabalho nas regiões polares, no Ártico e na Antártica: recolhemos amostras e conseguimos testar equipamento. Tivemos financiamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia para estudar as fontes hidrotermais dos Açores, análogas às condições nas luas geladas. Também temos recolhido amostras em grutas do Algarve – um projeto da professora Sofia Reboleira, da Faculdade de Ciências, que me contactou –, onde os níveis de dióxido de carbono são muito elevados, tal como em Marte.

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Qual é a importância dessas análises para futuras missões espaciais?

Servem para as informar. As viagens espaciais demoram décadas [de preparação], desde as propostas até serem desenvolvidas e acontecerem. Entretanto, temos de as preparar em locais do nosso planeta, incluindo em Portugal, que têm algumas condições semelhantes aos planetas do Sistema Solar.

Está envolvida numa missão?

Pelo menos até ao fim do ano, estarei envolvida na missão espacial L4 [da Agência Espacial Europeia], que levará a Europa a pousar, pela primeira vez, na Lua de Encélado [corpo celeste com um oceano debaixo do gelo em Saturno]. O lançamento da Terra será em 2040 e a chegada [à órbita de Saturno] depois de 2054, para tentar perceber se existe vida nesse local ou não.

Durante esta semana, decorre no Instituto Superior Técnico um evento que reúne 50 universidades. Em que consiste?

É uma assembleia geral da rede internacional CESAER, que reúne as 50 maiores universidades europeias ligadas à engenharia. São discutidas questões ligadas à inovação, à tecnologia, à importância do espaço.

“Trabalho na área há 25 anos e sempre se disse que os humanos iam para Marte dentro de 30 anos”

Vários multimilionários têm falado de partir para Marte para escapar às alterações climática no nosso planeta. É uma fuga viável?

Costumo dizer que não há planeta B. Isso é uma utopia. Trabalho na área há 25 anos e desde sempre se disse que os humanos iam para Marte dentro de 30 anos. Quase se tornou piada no meio: fala-se sempre de 30 anos. Os desafios tecnológicos são enormes. Além das questões de engenharia, colocam-se também questões éticas, porque é necessário garantir que os humanos vão e voltam [em segurança]. Precisamos de oxigénio, água e alimentos, entre outras coisas, e estes locais não estão preparados para nos receber.

Hollywood tem contribuído para a utopia?

Uma coisa é a ficção científica, mas não estamos perto disso. Há acordos internacionais [do COSPAR, Comité de Pesquisa Espacial] para garantir que nós, comunidade científica, não vamos contaminar os outros planetas e que, quando trouxermos amostras, não vamos contaminar a Terra.

Afinal, há vida em Marte?

Não sabemos. Temos alguns dados que indicam que talvez tenha existido vida microbiana, porque Marte teve muita água, e micro-organismos. Não estamos sequer a falar de vida inteligente. No passado, teve outras condições que não tem agora. Neste momento, tem uma atmosfera muito rarefeita.

Estamos então sozinhos no universo?

É uma das grandes questões por responder. Estamos à procura de locais no Sistema Solar e fora dele onde existam condições para a vida se ter desenvolvido.

Porque é que há tantos cientistas que falam de forma incompreensível para leigos?

Porque não há formação. Vivi quase 20 anos fora de Portugal e, em Inglaterra, há a tradição de fazer comunicação de ciência. Em duas ocasiões fiz formação. Fui financiada pela Royal Society University Research Fellowship, com uma bolsa de 1 milhão de libras [1,2 milhões de euros], de 2009 até 2017, e tive formação com jornalistas da BBC. A Royal Society é a instituição científica mais antiga em contínua existência [no Reino Unido]. Grandes nomes da ciência passaram por lá, como Isaac Newton [físico que formulou a lei que explica a gravidade, em 1687].

No terraço da torre Sul do Técnico, aberto para a sessão fotográfica da SÁBADO
No terraço da torre Sul do Técnico, aberto para a sessão fotográfica da SÁBADO Miguel Baltazar/SÁBADO
Elogia o Técnico por promover a igualdade de género, através do Prémio Maria de Lourdes Pintasilgo, ter uma creche no campus e bastantes funcionárias mulheres
Elogia o Técnico por promover a igualdade de género, através do Prémio Maria de Lourdes Pintasilgo, ter uma creche no campus e bastantes funcionárias mulheres Miguel Baltazar/SÁBADO
Participou no espectáculo do astrofísico Neil deGrasse Tyson, no MEO Arena. E foi consultora do anterior Presidente (Marcelo Rebelo de Sousa)
Participou no espectáculo do astrofísico Neil deGrasse Tyson, no MEO Arena. E foi consultora do anterior Presidente (Marcelo Rebelo de Sousa) Miguel Baltazar/SÁBADO

Que técnicas de comunicação aprendeu?

Os formadores diziam-nos muitas vezes: “Expliquem como se estivessem a falar para alguém de 5 anos.” Certa vez, um jornalista da BBC começou por dizer que não acreditava no que dizíamos e foi subindo o tom de voz. Estávamos a ser gravados para que pudessem avaliar a nossa reação ao ataque. Lembro-me de que fui a única a conseguir que o jornalista acabasse a sorrir.

Se tivesse de explicar a uma criança o que faz, como diria?

Um astrobiólogo é um cientista que estuda como surgiu a vida na Terra e se existe vida noutras partes do Sistema Solar. Sou química e trabalho com geólogos, engenheiros aeroespaciais, astrónomos, etc. É bonito ver pessoas de várias áreas a trabalharem em conjunto para tentar responder a estas grandes questões.

“Fui para a NASA como cientista convidada. Mais tarde, propuseram-me que ficasse lá”

Depois de tirar Química no Técnico, fez o doutoramento na Universidade de Leiden, entre 2003 e 2007, nos Países Baixos, e passou pela NASA. Como foi o processo?

O tema do doutoramento era sobre a importância das moléculas orgânicas que existem em cometas, em asteroides, em meteoritos, para a origem da vida na Terra. Durante o doutoramento, vivi nos Estados Unidos, em dois sítios: na Califórnia, em Santa Bárbara, e em Washington DC, porque fui para a NASA como cientista convidada. Enquanto lá estive, durante alguns meses de 2005 e 2006, era para voltar como pós-doc, mas recusei. Mais tarde, propuseram-me que ficasse lá durante alguns anos. Depois de obter cidadania americana, dar-me-iam um emprego fixo. Mesmo assim disse que não.

Porquê?

Recusei esses convites da NASA porque queria montar um laboratório em Portugal e criar o primeiro grupo de astrobiologia no País. Sabia que tinha de dar aulas e fazer um percurso. Se fosse para a NASA dedicar-me à investigação, afastar-me-ia desse caminho. Até ao nível pessoal, identifico-me mais com a Europa.

Mas quando estava a terminar o curso de Química, enviou uma candidatura espontânea para a NASA. Como foi?

Antigamente, a licenciatura eram cinco anos e o último era de estágio. No quarto ano, pensei: “Química pura não é bem o que eu quero.” Preferia juntar o espaço à química e então enviei um email para o laboratório de astroquímica da NASA. “Quero trabalhar nesta área, mas ficar na Europa”, escrevi. Eles responderam amavelmente, recomendando a professora austríaca Pascale Ehrenfreund, que estava na Universidade de Leiden, nos Países Baixos. Segui o conselho, escrevi-lhe e ela disse-me que o timing era perfeito, porque estava a criar o seu grupo de astrobiologia. Fui muito bem acolhida, ela tornou-se a minha mentora.

Qual foi a sua primeira impressão quando chegou à NASA?

Antes de entrar, estava muito nervosa; depois tive a sensação de concretizar um sonho. Aquilo é gigantesco e há vários centros: estive na NASA Goddard, em Washington DC. Ainda mantenho contactos e amigos norte-americanos.

Apercebeu-se das dificuldades dos astronautas?

Há grandes desafios, um treino muito intenso em termos físicos e a saúde mental tem de estar a 100%. Muitos deles, além da formação académica têm formação militar e dominam várias línguas. A estação espacial internacional é um grande laboratório que está a 400 km de altitude, a orbitar o nosso planeta. Os astronautas estão expostos à radiação, acima da atmosfera, que pode ter implicações para a saúde, como por exemplo, no cancro de pele. Depois, há as questões relacionadas com a quase ausência de gravidade: começa a provocar atrofia muscular e os fluidos do corpo sobem para a parte craniana, provocando uma grande pressão.

Quantos anos trabalhou no estrangeiro?

No total, 16 anos. Adaptei-me perfeitamente, quando vivi nos Países Baixos, em Londres e nos Estados Unidos.

Lá fora, sentiu-se discriminada como mulher?

Não tanto nos Países Baixos, mas sim quando fui para Inglaterra, em que as mulheres não eram promovidas. Ao ponto de existir o programa Athena SWAN que dá prémios [para a progressão das carreiras de mulheres nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia, Matemática e Medicina]. Fiz parte do comité da Athena e notava-se que, depois de uma formação superior, muitas não queriam trabalhar em investigação ou tirar o doutoramento.

"Portugal é dos países com mais mulheres doutoradas, ainda que isso não se traduza em cargos de liderança. Aqui, no departamento de Engenharia Química, há bastantes mulheres professoras"

Porquê?

Sabiam que se escolhessem determinadas profissões não iam conseguir casar nem ter filhos. Portugal é dos países com mais mulheres doutoradas, ainda que isso não se traduza em cargos de liderança. Aqui, no departamento de Engenharia Química, há bastantes mulheres professoras, nos vários níveis: auxiliares, associadas e catedráticas.

Qual é a sua posição?

Sou professora associada com agregação. A seguir é só catedrática. Começa-se como professor auxiliar, depois associado com agregação, que é como se fosse um segundo doutoramento, em que somos avaliados por um comité nacional e internacional.

Em 2018, foi uma das 10 portuguesas homenageadas pela Mattel. A sua versão em boneca tinha calças de ganga, óculos de proteção e bata. Gostou de se ver?

Sinto-me honrada por fazer parte desta iniciativa. Acho muito interessante a possibilidade de inspirar outras meninas para a Ciência. Quanto à Barbie que tenho em casa, acho que está muito bem conseguida. E é muito engraçado ver uma versão de nós próprias em miniatura. Acho que foi uma ideia muito bonita e carinhosa da Mattel Portugal.

É workaholic?

Não acho que seja, estou equilibrada no sentido em que sei que tenho de descansar. E faço desporto, vou ao ginásio e levanto pesos, duas a três vezes por semana. Em pequena, fiz balé clássico e depois ioga. Quando estive no Reino Unido, pratiquei artes marciais – sou cinturão negro em Aikido. Enquanto vivi nos Países Baixos andava de bicicleta todos os dias; eles dividem o dia em três partes: oito horas para dormir, oito horas para trabalhar e oito horas para diversão. Obviamente, ninguém tem oito horas de diversão.

Consegue cumprir isso diariamente?

Também não tenho oito horas de diversão, mas o número de horas de trabalho nem sempre se traduz em produtividade. Podemos trabalhar cinco horas e sermos muito mais produtivos, porque estamos focados. Quem vive fora de Portugal aprende isso e poupa tempo que pode ser utilizado para outras atividades.