Que técnicas de comunicação aprendeu?
Os formadores diziam-nos muitas vezes: “Expliquem como se estivessem a falar para alguém de 5 anos.” Certa vez, um jornalista da BBC começou por dizer que não acreditava no que dizíamos e foi subindo o tom de voz. Estávamos a ser gravados para que pudessem avaliar a nossa reação ao ataque. Lembro-me de que fui a única a conseguir que o jornalista acabasse a sorrir.
Se tivesse de explicar a uma criança o que faz, como diria?
Um astrobiólogo é um cientista que estuda como surgiu a vida na Terra e se existe vida noutras partes do Sistema Solar. Sou química e trabalho com geólogos, engenheiros aeroespaciais, astrónomos, etc. É bonito ver pessoas de várias áreas a trabalharem em conjunto para tentar responder a estas grandes questões.
“Fui para a NASA como cientista convidada. Mais tarde, propuseram-me que ficasse lá”
Depois de tirar Química no Técnico, fez o doutoramento na Universidade de Leiden, entre 2003 e 2007, nos Países Baixos, e passou pela NASA. Como foi o processo?
O tema do doutoramento era sobre a importância das moléculas orgânicas que existem em cometas, em asteroides, em meteoritos, para a origem da vida na Terra. Durante o doutoramento, vivi nos Estados Unidos, em dois sítios: na Califórnia, em Santa Bárbara, e em Washington DC, porque fui para a NASA como cientista convidada. Enquanto lá estive, durante alguns meses de 2005 e 2006, era para voltar como pós-doc, mas recusei. Mais tarde, propuseram-me que ficasse lá durante alguns anos. Depois de obter cidadania americana, dar-me-iam um emprego fixo. Mesmo assim disse que não.
Porquê?
Recusei esses convites da NASA porque queria montar um laboratório em Portugal e criar o primeiro grupo de astrobiologia no País. Sabia que tinha de dar aulas e fazer um percurso. Se fosse para a NASA dedicar-me à investigação, afastar-me-ia desse caminho. Até ao nível pessoal, identifico-me mais com a Europa.
Mas quando estava a terminar o curso de Química, enviou uma candidatura espontânea para a NASA. Como foi?
Antigamente, a licenciatura eram cinco anos e o último era de estágio. No quarto ano, pensei: “Química pura não é bem o que eu quero.” Preferia juntar o espaço à química e então enviei um email para o laboratório de astroquímica da NASA. “Quero trabalhar nesta área, mas ficar na Europa”, escrevi. Eles responderam amavelmente, recomendando a professora austríaca Pascale Ehrenfreund, que estava na Universidade de Leiden, nos Países Baixos. Segui o conselho, escrevi-lhe e ela disse-me que o timing era perfeito, porque estava a criar o seu grupo de astrobiologia. Fui muito bem acolhida, ela tornou-se a minha mentora.
Qual foi a sua primeira impressão quando chegou à NASA?
Antes de entrar, estava muito nervosa; depois tive a sensação de concretizar um sonho. Aquilo é gigantesco e há vários centros: estive na NASA Goddard, em Washington DC. Ainda mantenho contactos e amigos norte-americanos.
Apercebeu-se das dificuldades dos astronautas?
Há grandes desafios, um treino muito intenso em termos físicos e a saúde mental tem de estar a 100%. Muitos deles, além da formação académica têm formação militar e dominam várias línguas. A estação espacial internacional é um grande laboratório que está a 400 km de altitude, a orbitar o nosso planeta. Os astronautas estão expostos à radiação, acima da atmosfera, que pode ter implicações para a saúde, como por exemplo, no cancro de pele. Depois, há as questões relacionadas com a quase ausência de gravidade: começa a provocar atrofia muscular e os fluidos do corpo sobem para a parte craniana, provocando uma grande pressão.
Quantos anos trabalhou no estrangeiro?
No total, 16 anos. Adaptei-me perfeitamente, quando vivi nos Países Baixos, em Londres e nos Estados Unidos.
Lá fora, sentiu-se discriminada como mulher?
Não tanto nos Países Baixos, mas sim quando fui para Inglaterra, em que as mulheres não eram promovidas. Ao ponto de existir o programa Athena SWAN que dá prémios [para a progressão das carreiras de mulheres nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia, Matemática e Medicina]. Fiz parte do comité da Athena e notava-se que, depois de uma formação superior, muitas não queriam trabalhar em investigação ou tirar o doutoramento.
"Portugal é dos países com mais mulheres doutoradas, ainda que isso não se traduza em cargos de liderança. Aqui, no departamento de Engenharia Química, há bastantes mulheres professoras"
Porquê?
Sabiam que se escolhessem determinadas profissões não iam conseguir casar nem ter filhos. Portugal é dos países com mais mulheres doutoradas, ainda que isso não se traduza em cargos de liderança. Aqui, no departamento de Engenharia Química, há bastantes mulheres professoras, nos vários níveis: auxiliares, associadas e catedráticas.
Qual é a sua posição?
Sou professora associada com agregação. A seguir é só catedrática. Começa-se como professor auxiliar, depois associado com agregação, que é como se fosse um segundo doutoramento, em que somos avaliados por um comité nacional e internacional.
Em 2018, foi uma das 10 portuguesas homenageadas pela Mattel. A sua versão em boneca tinha calças de ganga, óculos de proteção e bata. Gostou de se ver?
Sinto-me honrada por fazer parte desta iniciativa. Acho muito interessante a possibilidade de inspirar outras meninas para a Ciência. Quanto à Barbie que tenho em casa, acho que está muito bem conseguida. E é muito engraçado ver uma versão de nós próprias em miniatura. Acho que foi uma ideia muito bonita e carinhosa da Mattel Portugal.
É workaholic?
Não acho que seja, estou equilibrada no sentido em que sei que tenho de descansar. E faço desporto, vou ao ginásio e levanto pesos, duas a três vezes por semana. Em pequena, fiz balé clássico e depois ioga. Quando estive no Reino Unido, pratiquei artes marciais – sou cinturão negro em Aikido. Enquanto vivi nos Países Baixos andava de bicicleta todos os dias; eles dividem o dia em três partes: oito horas para dormir, oito horas para trabalhar e oito horas para diversão. Obviamente, ninguém tem oito horas de diversão.
Consegue cumprir isso diariamente?
Também não tenho oito horas de diversão, mas o número de horas de trabalho nem sempre se traduz em produtividade. Podemos trabalhar cinco horas e sermos muito mais produtivos, porque estamos focados. Quem vive fora de Portugal aprende isso e poupa tempo que pode ser utilizado para outras atividades.