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Quem é quem no clã Espírito Santo: todos os 422 membros

A SÁBADO fez um levantamento inédito de todos os familiares de José Maria do Espírito Santo Silva. Dos descendentes, 59 trabalham ou trabalharam no grupo e são vários os que admitem ter perdido dinheiro.

As histórias dos 422 membros da família Espírito Santo que resultam desta grande investigação da SÁBADO davam para preencher todas as secções da revista: há muitos episódios de bastidores; há entrevistas surpreendentes como a de Michael de Mello, que defende o primo Ricardo Salgado, mas compara este escândalo com o de Alves Reis; há notícias como a da reunião de emergência de um dos ramos; há bisnetos inovadores a trabalhar nos Estados Unidos; há dezenas de figuras da alta sociedade; há casamentos adiados; há actrizes, poetas, fadistas e designers que trabalharam com Andy Warhol; há frases marcantes dos protagonistas; há ligações à política e guerras de poder; há efeitos desta crise a nível internacional; há investidores da família a perder dinheiro e outros com negócios totalmente à margem do escândalo; há campeões de várias modalidades desportivas; há alunos brilhantes; e há crimes — não só aqueles que estão agora a ser investigados pelas autoridades, relacionados com o banco e as empresas do grupo, mas casos mais violentos, como um confronto com um taco de basebol entre um filho e uma mãe por causa de uma herança.

Revista Sábado revela os 422 membros da família Espírito Santo Sábado

Esta não é uma família como as outras. Desde os anos 1940, e com um pequeno interregno a seguir à revolução, os Espírito Santo foram talvez a mais influente família portuguesa, com um nome que abria portas em todo o mundo. Agora, com o escândalo que levou à retirada dos seus apelidos do nome do banco, e apesar da perda evidente de poder, a “família Espírito Santo” assume um protagonismo crescente.

“É uma tristeza que o nome da família seja arrastado assim. Somos 300 ou mais e estes problemas são criados por poucos”, diz à SÁBADO Martim Saldanha, neto do primeiro presidente do banco, José Espírito Santo, e primo de Ricardo Salgado e José Maria Ricciardi.

São de facto muitos membros, o que tornou ainda mais demorada esta investigação. Em cada um dos cinco ramos de descendentes do fundador foram identificados não só os elementos mais influentes mas também os nomes de quem tinha histórias de vida invulgares: nestas 38 páginas, vai encontrar a chef de pastelaria de um restaurante americano, a melhor jogadora portuguesa de bridge e a antropóloga que escreveu um texto sobre o seu encontro em Havana com um espírito. Mas este não era da família — o tema da sua tese era mesmo a religião popular cubana.

Os maiores accionistas do Grupo Espírito Santo

Detêm 19,37% da ES Control, a holding de topo da família. Maria do Carmo Moniz Galvão Espírito Santo já foi a mulher mais rica do país. Os filhos gerem os negócios e mantêm-na informada.

Não houve um pedido explícito de reserva em relação ao assunto, nem uma indicação de que se tratava de um tabu. Mas os amigos mais chegados dos Moniz Galvão Espírito Santo, o ramo com maior peso accionista no Grupo Espírito Santo (GES), sabem bem que devem evitar fazer comentários ou perguntas sobre a crise que a família está a viver. “É como quando morre um familiar de alguém: se essa pessoa não falar disso, também não se introduz o tema”, diz à SÁBADO um amigo de longa data.

Os Moniz Galvão são, reconhecidamente, um dos ramos mais reservados de toda a família. A matriarca, Maria do Carmo, Ninita para os íntimos, sempre foi uma mulher discreta que faz tudo para passar despercebida e tem horror a que falem dela. “Continua a movimentar-se em meios muito restritos, sobretudo em casas de familiares, onde se encontra com poucas pessoas de cada vez”, conta à SÁBADO outra amiga que já privou com ela depois do início da crise do GES. Fala-se de filhos, netos, de assuntos triviais. Sobre o banco, nem uma palavra.

Ninita seguiu a tradição de ceder o controlo dos negócios da família aos homens da casa. Maria do Carmo era a única herdeira do primeiro casamento de José Maria Espírito Santo Silva — um património vasto a que se juntaria, em 1954, o do marido, Manuel Ricardo Espírito Santo Silva, seu primo em segundo grau. Enquanto ele foi vivo, era ele que liderava os investimentos. A pedido de Ninita, geria ainda a Mocar e a Santomar, as duas empresas do ramo automóvel e motorizado que a mulher herdara do pai e que haviam de se fundir na holding Santogal, em 1991.

Apesar de Maria do Carmo lhe ter entregue a condução das empresas, Manuel Ricardo fazia questão de a ouvir. Reconhecia-lhe uma apurada capacidade para avaliar as características de possíveis investidores.

Com a morte de Manuel Ricardo, também em 1991, Maria do Carmo pediu aos filhos que tomassem conta dos negócios. Por serem mulheres, Mafalda e Madalena, conhecida por Manita, ficaram de fora. Manuel Fernando ocupou-se da Espírito Santo Resources, a holding não financeira do grupo, cujos interesses passariam, em 2009, para a Rioforte, sediada no Luxemburgo. Fernando assumiu a presidência da Santogal. Apaixonado por carros, costumava participar em corridas GT com o sobrinho Ricardo Bravo, que trabalha na holding do sector automóvel como director-geral e que se casou pela terceira vez em Julho deste ano, já em plena crise.

Os dois irmãos, Manuel Fernando e Fernando, chegaram a representar o ramo Moniz Galvão no Conselho de Administração da Espírito Santo Control, a holding de topo da família de que são os maiores accionistas, com uma participação de 19,37%. Mas, de acordo com o Jornal de Negócios, a 2 de Julho deste ano Fernando terá renunciado ao cargo na administração da sociedade, que está a ser investigada pela Procuradoria do Luxemburgo.

As novas gerações

Há mais de 20 anos que Manuel Fernando e Fernando têm mantido a mãe a par da evolução dos negócios em encontros familiares informais ou simplesmente por telefone. Ela, que vive entre as casas do Estoril, da Quinta do Peru e de Lausanne, junto ao lago Genebra, na Suíça, gosta de ser informada dos resultados e de saber que estratégias estão a ser implementadas. A mãe e os quatro filhos formam um núcleo coeso pouco dado a acontecimentos sociais. “Não são gente que se veja por aí”, diz um amigo.

Depois do 25 de Abril de 1974, a família viveu fora do país durante vários anos. “Estudaram no estrangeiro, têm amigos de outras nacionalidades e até os filhos vivem fora”, explica o mesmo amigo.

Manuel Fernando casou-se em Inglaterra em 1985 com Rosina Ekman, uma sueca que se converteu ao catolicismo por influência da família do marido. Têm três filhos: Eduardo, Isabel e Ricardo. Todos vivem nos Estados Unidos. O mais velho trabalha na Rockefeller Inc., em Nova Iorque.

E se as filhas de Ninita se mantiveram longe dos negócios, várias netas optaram por uma vida profissional mais exigente. Marta Castelo-Branco, a filha mais velha de Mafalda, é comercial na Cobertura Imobiliária. Filipa, a irmã do meio, é corretora na Espírito Santo Financial Services, em Miami. Vera Vozone, a mais nova, é cavaleira profissional: já em Maio deste ano ficou em primeiro lugar num concurso no Centro Hípico de Coimbra. Catarina Ricciardi, a mais nova dos quatro filhos de Manita, detém a C’ALMA, uma empresa de lifestyle que presta serviços de babysitting e organiza eventos na zona da Comporta.

De todos os filhos de Maria do Carmo, o único que só se casou uma vez foi Manuel Fernando. Mafalda divorciou-se duas vezes, Manita casou-se três vezes e ficou viúva de Vasco Mendes de Almeida, que morreu num desastre de avião em Angola. Fernando, que já tinha dois filhos, casou-se pela segunda vez em 2003. No ano passado foi pai pela terceira vez.

A SÁBADO contactou vários elementos da família para este trabalho. Nenhum aceitou colaborar.

“Não acredito que o nome seja recuperado”

Michael Espírito Santo de Mello já foi almoçar com Ricardo Salgado depois da crise, mas compara o escândalo da família ao de Alves Reis: “Uma lástima...”

Há seis meses comprou 200 mil acções do BES. Há três meses investiu no aumento de capital. Há um mês perdeu todo esse investimento de cerca de 200 mil euros. Mesmo assim, foi almoçar com o seu primo e amigo que mandava no banco, para lhe manifestar solidariedade. E não está zangado com ele, garante à SÁBADO:

“Ricardo Salgado é mais prejudicado do que eu. Eu comprei as acções este ano, fui oportunista, às vezes as coisas correm mal. Não o culpabilizo.”

Este investimento fracassado parece avultado, mas era só uma pequena parte da carteira de investimentos de Miguel Espírito Santo Silva de Mello, 59 anos. É presidente da Queijo Saloio, gerente de uma herdade em Benavente e de uma empresa de investimentos imobiliários, vice-presidente de uma holding da família da mulher no Texas, accionista das Caves Transmontanas, onde se produz o espumante Vértice, e ainda preside à Fundação Escola Americana de Lisboa.

Ele prefere ser tratado por Michael. Tem dupla nacionalidade por a mãe ser americana e até passa mais tempo nos Estados Unidos, onde tem duas casas: uma em Orlando, mesmo à beira do lago onde faz esqui aquático quatro dias por semana; outra nos exclusivos Hamptons. Além disso, os seus três filhos também têm casas em Nova Iorque, onde estão a iniciar as suas carreiras profissionais — a mais velha, Maria, já foi chef de pastelaria em vários restaurantes.

O empresário adora carros antigos e ainda este fim-de-semana participou numa concentração. Contou à SÁBADO que tem um Ferrari 250 GTL de 1964, um Ford Mustang de 1966, um Porsche Carrera branco de 1973, outro Porsche mais recente, dois Audi e um Cadillac.

A sua avó Maria Ribeiro, primeira filha do segundo casamento do fundador do banco, era tão beata que comprou uma casa no Monte das Oliveiras, em Jerusalém, onde ia todos os anos. De um conservadorismo extremo, nunca mais falou ao irmão José depois de este se ter separado; não perdoou ao irmão mais novo, Manuel, que este tenha sociabilizado com a segunda mulher de José; e também demorou a aceitar a segunda mulher do seu próprio filho Carlos de Mello.

O pai de Michael de Mello acumulou um cargo na administração do BESCL durante o Estado Novo com uma série de outros investimentos: na fábrica de rolamentos Rol, em sociedade com Manuel Queiroz Pereira; numa fábrica de agulhas industriais; numa herdade de 940 hectares em Benavente; e na Companhia das Lezírias, de que era o maior accionista individual antes do 25 de Abril.

“O meu pai era inteligente, analítico, tinha um sentido de humor interessante, mas tinha um pouco de falta de bom senso social, talvez por ter estudado em casa até aos 10 ou 11 anos”, justifica o filho.

Michael de Mello estava nos EUA nos anos 1980 quando os primos lhe pediram ajuda para um confronto com o Estado português. Se agora o nome da família foi retirado do nome da instituição, há 30 anos era ao contrário: a gestão pública do Banco Espírito Santo quis contestar o direito da família a usar o nome numa instituição financeira em Miami.

“Manuel Ricardo Espírito Santo [líder do grupo na altura] e Ricardo Salgado falaram comigo para ver como podíamos ganhar essa causa. Conseguimos, através de amigos em Nova Iorque e em Miami, espoletar uma campanha de imprensa, que obteve o apoio da grande comunidade cubana, também eles espoliados. Retratámos a questão assim: ‘Estão aqui estes portugueses e lá vem o Governo português que lhes quer tirar o nome...’ Isto caiu mal na comunidade cubana em Miami. O caso foi a julgamento e mantiveram o nome de família no banco: ficou Espírito Santo Bank of Florida.”

Fez uma pequena fortuna em 1988 ao vender a um grupo japonês uma empresa de software para as transacções bolsistas internacionais. Investiu o que ganhou num fundo gerido pelas empresas de George Soros, voltou a Portugal, ainda esteve quatro anos no ESSI, o banco de investimento da família (antecessor do BESI), mas em 1992 demitiu-se para gerir um fundo de investimento em empresas portuguesas, onde teve como grande parceiro precisamente o milionário George Soros, que ainda hoje é seu sócio e detém 44% da Queijo Saloio.

Michael de Mello foi convidado para o último casamento de Soros, no ano passado, e também é presença regular nas festas de aniversário do 27.º homem mais rico do mundo, segundo a Forbes. Michael e George Soros frequentam o mesmo clube nos Hamptons, e o milionário foi durante muitos anos parceiro de ténis da sua mulher, Deborah Fiúza de Mello, uma antiga campeã da modalidade.

Durante a crise no BES, Michael chegou a propor uma intervenção na instituição:

“Poderiam ter sido feitas algumas operações financeiras entre o Grupo Soros e o BES que seriam proveitosas para ambas as partes.”

Mas tudo se precipitou em sentido contrário.

Depois do escândalo, chamou todos os empregados da Queijo Saloio, em Torres Vedras, e contactou os fornecedores da empresa, para lhes explicar que, apesar de ele ser membro da família Espírito Santo, aquela empresa não tinha nada que ver com o grupo.

Para ele, o problema foi o facto de a sucessão na liderança não ter sido resolvida à porta fechada: “Não se deve ir lavar a roupa suja lá para fora.”

Mas continua a defender o primo: “Não há ninguém que não tenha cometido maus actos de gestão. Acontece. Tenho a certeza de que Ricardo Salgado também os terá cometido. Mas daí à caracterização como burlão ou criminoso, tenho imensa dificuldade em aceitar...”

Independentemente das responsabilidades, manifesta a sua tristeza com este desfecho: “Uma lástima, uma lástima... É uma pena ver as coisas desmoronarem-se da forma como se desmoronaram.”

A melhor jogadora de bridge

Uma prima direita de Michael, Sofia Costa Pessoa, também ela bisneta do fundador do banco, tem sido abordada pelas amigas que sabem que pertence à família:

“Vêm-me segredar: ‘Então, perdeste muito com o BES?’”

Ela não perdeu, pelo menos financeiramente. Já o marido, Rui Santos, não pode dar a mesma resposta.

“Perdi na bolsa o equivalente a um T2”, admite à SÁBADO o empresário. Estão em causa mais de 100 mil euros. Só no aumento de capital de há dois meses investiu 20 mil euros, e não se conforma:

“Achava que era dos investimentos mais seguros. Com o último aumento de capital, sinto-me enganado pelo Banco de Portugal.”

Sofia não usa o nome Espírito Santo, mas tinha orgulho na família. Esteve num colégio em Londres entre 1974 e 1984. Quando voltou, foi professora de ciências em dois colégios, trabalhou como tradutora simultânea para a Tupperware, fez legendagens para distribuidoras de vídeo e depois investiu numa imobiliária com um amigo.

“Foi em 1987, uma época de ouro. Era só ir à procura dos prédios com inquilinos para vender. Ganhámos muito dinheiro”, admite.

O primeiro marido ensinou-a a jogar bridge, e ela decidiu comprar um livro sobre o jogo, começou a ir a torneios e tornou-se a melhor jogadora nacional. Primeiro entre as mulheres. Depois, em 1992, a melhor jogadora do ranking geral — disseram-lhe que foi a primeira mulher em todo o mundo a ser número 1 num país.

“Sempre adorei cartas, é o meu passatempo de eleição. Mas não tinha parceiros. Agora, vai-se ao clube e há parceiros. Jogo todos os dias”, conta.

Depois de engravidar do primeiro filho, chegou a levá-lo ao estrangeiro, com apenas dois meses, com a ajuda da babysitter, para poder participar num torneio.

É lá fora que acha que vai ser particularmente difícil recuperar o nome dos Espírito Santo:

“A família vivia muito do prestígio internacional. Há muita gente muito válida na família, mas o banco era a parte mais conhecida. E o que está a acontecer é uma nódoa no nome.”

O seu primo Michael de Mello também é pessimista: “Lamentavelmente, acho que o nome Espírito Santo agora é como um nome que havia há uns anos que era o Alves Reis — que rebentou com a moeda portuguesa nos anos 1930 e conseguiu enganar os ingleses a imprimir notas portuguesas. Isto vai ficar muito amargo muito tempo.”

O sucessor rejeitado e uma luta pela herança

José Maria esperou 18 anos para ser presidente do BES, mas a família optou por um primo; Mariana foi agredida pelo filho por causa da herança e ficou em coma. O ramo é ainda marcado por uma história de amor e uma fuga de comboio para Paris.

O Banco Espírito Santo tinha uma regra de sucessão bem definida: o secretário-geral era, para todos os efeitos, o número 2 do banco e o sucessor natural. Foi assim em 1932, quando o presidente, José Espírito Santo, um homem casado, provocou um escândalo em Lisboa por ter fugido para Paris com a irmã da cunhada, por quem se apaixonou — foi substituído pelo seu irmão Ricardo. Repetiu-se em 1955, quando este avô de Ricardo Salgado morreu subitamente — foi substituído por Manuel Espírito Santo. Mas quando este líder morreu, em 1973, não foi assim.

O secretário-geral era José Maria Borges Coutinho, o filho mais velho de José Espírito Santo. Casou-se nos anos 1940 com uma irmã de Jorge e José Manuel de Mello e, apesar de terem tido quatro filhos, o casamento foi desfeito pouco depois e é olhado por muitos descendentes como uma relação de conveniência para juntar o poder das famílias Mello e Espírito Santo.

José Maria era um forreta de feitio difícil: contava as peças de fruta que tinha na árvore junto a casa e, se notava a falta de alguma, mesmo que tivesse sido uma das crianças da família a apanhá-la, ficava irritadíssimo; não suportava que alguém tocasse no seu carro, quando o deixava estacionado no Terreiro do Paço; e terá apanhado uma fúria no banco quando deparou com uma factura de uma lata de sardinhas. As sardinhas eram para o gato do arquivo, mas ele entendia que o banco não tinha de ter essa despesa e que o animal se devia alimentar exclusivamente dos ratos, para evitar que eles destruíssem o papel armazenado.

A fama era esta e, quando Manuel Espírito Santo morreu, os outros elementos da família não quiseram arriscar: o banco não podia ficar nas mãos de alguém tão pouco consensual.

“Não devem ter visto nele a pessoa capaz de manter uma união familiar em torno de um objectivo comum”, explica um familiar.

A escolha acabou por recair em Manuel Ricardo Espírito Santo, filho mais velho do anterior presidente, que, além de ter um feitio mais cordial, juntava o poder accionista do seu pai ao do sogro, Moniz Galvão (que descendia do primeiro casamento do fundador).

A rejeição deixou José Maria Borges Coutinho abalado. Ainda se manteve no banco, ainda foi preso em 1975 com os primos, ainda dividiu a cela com eles em Caxias, mas depois afastou-se e já não voltou a juntar-se aos negócios familiares fora do país, nem no regresso em 1990 — isto apesar de a primeira empresa recuperada ter sido a Tranquilidade, a seguradora que era antes presidida pelo seu pai.

“Viveu magoado toda a vida, nunca falou disso e desinteressou-se completamente dos negócios da família”, conta uma fonte que o conheceu bem.

Depois de sair da cadeia, em 1975, José Maria refugiou-se em Londres e viveu cerca de oito anos no Hotel Savoy.

Em 1968, quando José Ribeiro, o patriarca deste ramo da família (pai de José Maria), morreu, indicou como testamenteiros efectivos o irmão mais novo, Manuel (presidente do banco entre 1955 e 1973), o sobrinho António Ricciardi, e o amigo Manuel Queiroz Pereira, pai de Pedro Queiroz Pereira, actual patrão da Semapa e um dos responsáveis pelo desencadeamento do escândalo do Grupo Espírito Santo.

O testamento deixava a todos os empregados do banco e da seguradora Tranquilidade uma verba que oscilava entre os 2 e os 40 contos (600 a 12 mil euros, a preços actuais), consoante os anos de casa.

Ao filho José Maria Borges Coutinho deixou uma quinta em Lisboa, uma propriedade no Estoril com um terreno de 2400 m² e um pedido especial: que autorizasse o chauffeur a residir, até à morte, no anexo desta residência do Estoril.

À filha mais velha, Maria José Borges Coutinho Espírito Santo, deixou outra casa no Estoril com um terreno de 1878 m², uma propriedade em Lisboa com 16 mil m² e ainda 4 mil contos em dinheiro para aí construir uma casa para habitação própria.

Maria José dividiu a sua fortuna em 12 fatias e fez questão de que cada um dos seus quatro netos recebesse uma dessas fatias (1/12 avos da herança) quando completasse os 18 anos, contou à SÁBADO um dos seus genros, o psicanalista Henrique Carvalho Maia.

Um dos netos, Miguel Carvalho Maia, não terá recebido nada aos 18 anos, nem nos 20 anos que se seguiram, o que motivaria discussões com a mãe, Mariana Espírito Santo.

Depois de os pais se separarem, e embora vivesse ao lado do pai, Miguel ficou 25 anos sem lhe falar, mas, em 2012, telefonou-lhe desesperado, a queixar-se da mãe, que insistia em não cumprir o desejo da avó. No dia seguinte, telefonou novamente ao pai, mas para lhe dizer que tinha agredido a mãe e que se ia entregar à polícia, recorda Henrique Carvalho Maia.

Quando os agentes chegaram, às 4h30 da manhã, encontraram Mariana Espírito Santo inconsciente e o filho com um taco de basebol ensanguentado, e a dizer, segundo o Correio da Manhã do dia seguinte:

“Discuti com a minha mãe e dei-lhe com o taco de basebol na cabeça. Não a matei porque não quis. Um homem do meu tamanho matava-a facilmente, se quisesse.”

A mãe esteve em coma, mas recuperou. Miguel, licenciado em Direito, foi condenado a seis anos de prisão efectiva, reduzida depois a quatro, e encontra-se agora em prisão domiciliária, confirmou à SÁBADO o seu pai, divorciado desde 1985 de Mariana Espírito Santo (com quem a SÁBADO não conseguiu falar).

Quatro homens ligados ao banco

Duarte, o filho mais novo do casamento entre José Espírito Santo e Maria José Borges Coutinho, foi o primeiro português a participar nuns Jogos Olímpicos de Inverno, em Oslo, em 1952. Casou-se com Maria João José de Mello, que viria a ser mais tarde a companheira de António Champalimaud nos últimos anos da vida do industrial. Actualmente com 90 anos, é membro do conselho de administração do Banco Espírito Santo Investimento, num mandato que termina em 2016, embora seja raro aparecer na instituição.

De resto, há apenas mais quatro homens com ligações ao banco ou ao grupo: Salvador Roque de Pinho, genro de José Maria Borges Coutinho, foi vice-presidente do Banque Privée, na Suíça, mas já está reformado; um filho homónimo chegou a ter cargos de direcção no BES e no BESI, mas saiu para outra instituição financeira pouco antes de nascer formalmente o Novo Banco; o italiano Manrico Iachia, marido da designer Vera Espírito Santo Iachia (neta mais velha da segunda mulher de José Espírito Santo), é presidente da Europ Assistance, seguradora detida parcialmente pela Tranquilidade, do grupo Espírito Santo; e Martim Saldanha, outro neto de José Espírito Santo, trabalhou no banco em Paris e depois na sede, em Lisboa, até seguir uma carreira empresarial autónoma em 2001.

Até há dois meses, era também administrador da Espírito Santo International, mas garantiu à SÁBADO que terá ido apenas a duas reuniões nos últimos anos. “Era uma posição honorária, nada mais que isso, creio que me convidaram para representar o meu avô. Havia um grande número de administradores em todas estas holdings do grupo”, afirma.

Garante à SÁBADO que nunca foi remunerado por este cargo: “Nunca vi um chavo, zero.” E conta que foi convidado a sair em Maio, pelo comandante Ricciardi e por Manuel Fernando Espírito Santo.

Sobre o escândalo, é directo: “Acho uma tristeza, uma grande surpresa, mas a esperança é a última coisa a morrer e espero que o nome não fique nos níveis baixos a que chegou, por associação aos problemas que ocorreram.”

Garante que apenas se apercebeu pelos jornais, pois desde que saiu do grupo que não teve contactos regulares com os primos que administravam o banco e o grupo. “Quando lia as notícias, só me apetecia dizer: ‘Tenham juízo.’ Mas a este nível é difícil intervir. São pessoas com maturidade necessária para perceber as coisas. Ou deviam ser. E eu não sou pai deles.”

Apreciou o pedido de desculpas público feito por Caetano Beirão da Veiga: “Achei correctíssimo, muito sensato e honesto, representa o estado de espírito de muitos de nós.” Mesmo assim, acha que o nome Espírito Santo é irrecuperável: “Nos mercados internacionais, a confiança é fundamental. Mas só o tempo o dirá.”

A sua conta continua a estar apenas no banco que pertenceu à família e não foi congelada, por ser parente dos administradores num grau mais afastado. A mãe de Martim, Vera Espírito Santo, entregou recentemente à leiloeira Christie’s 28 lotes de jóias para serem leiloados, com uma base de licitação que avaliaria essa colecção em meio milhão de euros.

“Às vezes vende umas coisas para ter meios, uma vez que já não trabalha. Mas também pode ter sido para preparar a sucessão”, justifica o filho.

Martim não tem informações sobre a paixão que levou os dois avós, José e Vera, a romperem os respectivos casamentos e a fugirem numa noite de Dezembro para Paris. Só viria a nascer 31 anos mais tarde. O avô morreu quando ele tinha quatro anos, mas a avó ainda o acompanhou até aos 31 e foi uma figura marcante:

“A minha avó Vera era uma grande senhora, muito apreciada por todos os amigos e familiares. Tantos anos depois, ainda rezava todos os dias à noite pelo marido, o que é mais uma prova de que viveram um grande amor.”

Os primos que mandavam no banco

Há um amigo íntimo de Salazar, um patriarca influente com mais de 90 anos e dois presidentes rivais — José Maria continua a liderar, Ricardo mudou-se para um escritório privado. A crise na família até já adiou um casamento.

Matilde Serôdio Ricciardi — sobrinha de José Maria, presidente do BES Investimento — foi obrigada a mudar de planos. Agendara o casamento pela Igreja (já é casada pelo civil há algum tempo) e a festa para o fim de Setembro de 2014. O mais certo era que a boda se realizasse com vista para a Boca do Inferno, em Cascais, em casa do avô da noiva, o comandante António Ricciardi, pai do banqueiro. Foi assim, por exemplo, com a prima Sara Ricciardi. Problema: a crise no grupo e na família. A cerimónia e a festa foram adiadas.

Mas poucos falam disso. Muito menos abertamente. “Combinámos não prestar declarações”, disse à SÁBADO um membro da família. E acrescentou: “É triste que o nome [dos Espírito Santo] esteja na lama e que não se clarifique que a maioria não tem nada que ver com este caso.” Não foi o único a dizê-lo. Outro Espírito Santo defendeu que “a própria família é vítima desta situação”. Mais: “A família tem consciência de que o país precisa de um pedido de desculpa dos responsáveis.”

No fim do pior mês da história do banco, em Julho, a relações-públicas Maria Ricciardi — também neta do comandante — falou sobre o tema. Foi a primeira:

“É bom que as pessoas não se esqueçam de que nós não somos um banco, somos uma família. Por detrás dos problemas existem pessoas com sentimentos, emoções, preocupações, tristezas e alegrias”, disse à revista Caras (não aceitou falar à SÁBADO para este artigo).

Os herdeiros de Ricardo Salgado

Houve um momento em que os pais deixaram de permitir que eles gozassem três meses de férias no Verão. Catarina, Ricardo e José Espírito Santo Bastos Salgado tiveram de escolher uma ocupação. Chamar-se Espírito Santo não chegaria para terem uma carreira — precisavam de trabalhar. Não foram os únicos a ser educados assim.

Um primo dos Salgado disse à SÁBADO que se lembra de, desde pequeno, ouvir o avô dizer que não ia para o banco quem queria, mas quem merecia. “Ele dizia sempre que quem era da família tinha de trabalhar a dobrar.”

Quando precisou de tomar uma decisão, o filho mais velho de Ricardo Salgado (o segundo dos três e o primeiro dos rapazes) escolheu gastar parte das férias escolares nos balcões do banco da família no Estoril. Ali, Ricardo chegou a ouvir de um gerente que não seria favorecido por ser filho do presidente do banco.

Há outros aspectos comuns à carreira dos três herdeiros de Salgado — estudaram ciências económicas (como o pai e o avô), começaram a carreira em instituições financeiras internacionais e, no início deste ano, todos trabalhavam na área financeira do Grupo Espírito Santo (GES).

No BES, para distinguirem Ricardo do pai, alguns colegas chamam-lhe “Ricardinho” — apenas entre si, não o tratam por esse nome.

Ricardo Bastos Salgado, 42 anos, trabalha no banco desde 1998. Estudou nos Estados Unidos e, quando acabou a licenciatura, passou a estar por sua conta — o pai avisou-o de que teria de se sustentar sozinho. Decidiu candidatar-se a um emprego na consultora Merrill Lynch, em Londres. Entrou em 1997. Um ano depois anunciou à família a intenção de entrar no banco.

Começou como técnico administrativo no departamento de grandes empresas e só 10 anos depois ficou responsável pela relação com as grandes empresas e multinacionais e pelo apoio à internacionalização de empresas portuguesas.

Relacionava-se com Ricardo Salgado como qualquer outro colaborador — nas reuniões de trabalho não tratava o presidente do BES por “pai”, nem por “doutor”, usava a palavra “senhor”. Excepção: quando sabia que algum colaborador tinha um problema pessoal em que era necessária a intervenção de Salgado, ligava ao pai a pedir ajuda.

Os colaboradores descrevem-no como um homem cordial, que nunca se esquivou às actividades de team building promovidas pela empresa. Uma vez, em Óbidos, participou num peddy paper que terminou num almoço medieval. Na mesa havia frango assado e arroz, mas o único talher disponível era uma colher de pau. Nada de guardanapos. Comeu como os restantes.

Ricardo casou-se com uma prima, filha do primeiro casamento de Miguel Sousa Tavares, Mariana Espírito Santo Bustorff Silva — Rita Sousa Tavares. Têm três filhos.

O banqueiro amigo de Salazar

O avô de Ricardo Salgado era, nos anos 1930, um banqueiro moderno: “Alto, esguio, cheio de classe e com ar de quem pertence a outro tempo — meio-Médicis, meio-Brummel.” A descrição é da jornalista francesa Christine Garnier, no texto “Em casa de um homem do Renascimento”, como descreve o livro Fortunas & Negócios, de Filipe S. Fernandes.

Ricardo Ribeiro do Espírito Santo Silva era muito mais do que um banqueiro — aos 13 anos fez as primeiras letras de fado e aos 16 descobriu a sua vocação de coleccionador (uma das primeiras peças que comprou foi um tapete de Arraiolos). Viria a ser um dos maiores do país — doou mais de 1.300 peças à Fundação Ricardo Espírito Santo.

Também praticou esgrima e golfe e era um exímio jogador de bridge — chegou a ficar em segundo lugar num torneio em Paris, com os dez melhores jogadores do mundo. Essa paixão era tão grande que, nos últimos meses de vida, “passava os sábados ou domingos a jogar bridge na sua casa na Boca do Inferno”, lê-se no mesmo livro.

O banqueiro falava sete línguas e viajava com frequência pela Europa, sempre de carro, comboio e navio — tinha medo de aviões. Em 1918, no mesmo ano em que começou a trabalhar no banco, e quando ainda estava a estudar Ciências Económicas e Financeiras, casou-se com Mary Morais Sarmento Cohen.

Ricardo Ribeiro assumiu a presidência do BES a 30 de Janeiro de 1933. Nunca descurou a vida social — sabia que era imprescindível manter uma forte rede de contactos. Por isso, abriu as portas de casa: recebia a nobreza francesa, a realeza espanhola e a alta finança europeia.

Depressa se tornou também íntimo de Oliveira Salazar (era o seu principal conselheiro económico): aos domingos, reuniam-se em casa do Presidente do Conselho. A troca de correspondência era constante (até incluiria notícias de um casamento — já lá vamos) e as ligações da família às altas esferas do Estado Novo aprofundavam-se ao mesmo tempo que o grupo crescia.

O banqueiro morreria na noite de 1 para 2 de Fevereiro de 1955 com um ataque cardíaco, depois de uma cirurgia.

Dez anos antes, em 1945, escreveu uma nota especial a Salazar: “Aproveito esta oportunidade para informar Vossa Excelência de que, se Deus quiser, na próxima segunda-feira 24, casará a minha segunda filha, Vera [Maria Rita Teresa do Menino Jesus de Morais Sarmento Cohen do Espírito Santo], com o tenente da Marinha António [Luís] Roquette Ricciardi (um excelente rapaz). Minha mulher e eu não ousámos convidar Vossa Excelência para lhe poupar o incómodo de uma resposta.”

António conhecera Verinha no Clube da Parada. Namoraram menos de dois anos e casaram-se numa cerimónia familiar em casa de Ricardo Espírito Santo. Teriam oito filhos — entre eles o actual presidente do BES Investimento, José Maria Ricciardi.

António sempre foi poupado e o casal chegou a zangar-se por causa disso: Verinha era expansiva, extrovertida e muito generosa — compunha, às escondidas, as mesadas dos filhos. E gastou grande parte da fortuna antes de morrer, em 1998, de cancro nos pulmões (era uma grande fumadora).

Estamos em choque

Ricardo Abecassis, presidente do BESI Brasil, admite à SÁBADO que a família ainda não se refez das más notícias. Após a detenção de Salgado, convocaram uma reunião de emergência.

Aquela quinta-feira de 24 de Julho foi inesquecível para o ramo mais numeroso dos Espírito Santo — Manuel Ribeiro chegou a ter 14 filhos (três morreram na infância) e 44 netos.

Inesquecível, contudo, pelos piores motivos: o primo que consideravam um “fora-de-série” da alta finança era detido em casa, em Cascais, por suspeitas de burla, abuso de confiança, falsificação e branqueamento de capitais.

Enquanto Ricardo Salgado era interrogado durante sete horas e saía em liberdade após uma caução de três milhões de euros, os primos, que o respeitaram até à queda do BES, convocavam uma reunião de urgência por email.

Impressionados com a sucessão de episódios, 35 elementos do ramo encontraram-se no domingo seguinte (dia 27) na Quinta do Peru, propriedade da família de 650 hectares próxima de Azeitão, na casa de fim-de-semana de José Manuel.

“Estávamos bastante impressionados com o que estava a acontecer”, revela um familiar à SÁBADO, acrescentando que dali não saíram propriamente conclusões, mais um sentimento de vergonha.

“A família errou porque delegou tudo no Ricardo, embora há cerca de dez anos falássemos de uma renovação geracional na gestão do grupo. Mas como tudo correu bem, não se alterou nada.”

Ainda que prefira gerir a crise à porta fechada, este ramo da família admite o desapontamento com o primo — a quem os detractores apelidavam num tom sarcástico de “DDT” (“Dono Disto Tudo”).

“Sentimos que fomos usados”, diz o mesmo elemento.

Ricardo Abecassis, 55 anos, que em Fevereiro passado esteve disponível para suceder ao primo Ricardo Salgado, caso os accionistas o apoiassem, soube desta reunião, mas não pôde comparecer.

Contas no vermelho foram uma surpresa

Com sotaque paulista (por viver em São Paulo desde 1980, onde actualmente desempenha as funções de presidente do BESI no Brasil), Ricardo Abecassis revela à SÁBADO o estado da família: “Estamos em choque, a aguardar os resultados da recuperação judicial no Luxemburgo e da auditoria forense do Banco de Portugal ao BES. O nosso maior activo era o nome.”

Embora seja frequente ver imagens de Ricardo Salgado e de outros membros da família em iates, o primo banqueiro garante que evitaram ostentações.

“Nunca tivemos aviões, nem iates, nem fizemos vida de ricos. Sempre vivemos do trabalho.”

Ninguém desta parte da família sabe ao certo como é que as contas do BES atingiram o vermelho, porque quando analisavam os relatórios do banco tudo parecia estar correcto. Também nunca detectaram sinais de inquietação no primo. Ricardo Salgado, fossem quais fossem as circunstâncias, mantinha-se sereno.

Actualmente, há cerca de meia dúzia de membros desta família a trabalhar na banca e cinco no Grupo Espírito Santo nas áreas de imobiliário e turismo.

O primo inseparável de Ricardo Salgado

O líder deste ramo e aclamado número dois do BES — embora Ricardo Salgado tivesse fama de centralizar o poder — não podia estar mais desapontado.

José Manuel Pinheiro do Espírito Santo Silva, 69 anos, sempre acreditou na saúde financeira do grupo (chegou a representar o ramo na holding Espírito Santo Control, com uma participação de 18,53% em Fevereiro) e deu inteiro voto de confiança a Ricardo Salgado, mesmo em detrimento do irmão António, quando discutiram a sucessão de Manuel Ricardo, falecido em 1991.

Havia mais um ponto de honra até à crise: o apelido. Tinha tanta força para o administrador que, a 13 de Julho (11 dias antes da detenção do primo), declarou em acta a permanência do nome.

“… Embora termine as suas funções na presente data, permanecerá no banco em virtude do nome Espírito Santo, que este continua a ostentar”, revelou a SÁBADO na edição de 21 de Agosto.

Era a última reunião do BES, antes de nascer o Novo Banco, a 3 de Agosto, com uma injecção de capital de 4900 milhões de euros.

“Ninguém sabia que o BES ia desaparecer. Estamos tristes, mas unidos. A nossa preocupação é manter a face perante os credores”, admite um familiar.

Zé Manel, como é tratado na família, era inseparável de Ricardo. Funcionavam como uma espécie de Dupond e Dupont, descreve um amigo, embora com personalidades distintas.

O que faltava ao austero banqueiro tinha Zé Manel de sobra.

Novo líder em mangas de camisa

O momento de voltar surgiu em meados da década de 1980, quando Mário Soares, na época primeiro-ministro, apelou ao regresso dos exilados. Os Espírito Santo prepararam-se para a reprivatização. Foi então que Ricardo Salgado entrou em cena, em 1991, com o apoio incondicional do primo Zé Manel.

Juntos, ocupavam o último piso da sede, no 15.º andar da Avenida da Liberdade, em Lisboa — um amplo gabinete com 11 secretárias e uma mesa de reuniões ao centro. Agora, o antigo número dois tem as contas congeladas, assim como os descendentes directos (quatro filhos e dois netos).

A SÁBADO tentou contactar José Manuel Espírito Santo através do telemóvel pessoal, mas não obteve resposta.

Nas vésperas do afastamento de Ricardo Salgado da liderança, Caetano Beirão da Veiga, de 54 anos, subiu para o centro de operações para gerir as holdings insolventes do Grupo Espírito Santo: a Espírito Santo International, no Luxemburgo; a Espírito Santo Irmãos; e a Espírito Santo Financial (como a SÁBADO revelou a 21 de Agosto).

Diferenciou-se logo de Ricardo Salgado ao deixar-se fotografar em mangas de camisa para o semanário Expresso, a 23 de Agosto. Na entrevista redimiu-se por algo, esclarece, de que não teve culpa:

“Não estive ligado à anterior gestão do grupo, mas acho que devemos pedir desculpa pelas insuficiências que nos trouxeram até esta situação. Eu sei que pedir desculpa não resolve, mas não devemos deixar de o fazer.”

O seu nome foi proposto pelo tio José Manuel e pelo primo Manuel Fernandes Moniz Galvão. Mas os restantes familiares do ramo apoiam a escolha.

“É duro nas negociações e empreendedor. Assumiu este cargo com espírito de missão”, elogia um familiar à SÁBADO.

Ricardo Abecassis acrescenta que “é muito capaz e dá um fresh look aos negócios da família”.

Ricardo Abecassis mantém-se do outro lado do Atlântico. Em Fevereiro, ainda ensaiou um regresso definitivo a Portugal, depois de ter comprado um apartamento maior em Cascais e de o ex-presidente do BES ter apresentado os resultados de 2013. Ricardo Salgado confiava que “o capital” estava “robusto”.

Nesse momento, o neto de Manuel Ricardo Espírito Santo e filho de António (que trabalhou no banco até à revolução) foi apontado como potencial sucessor de Ricardo Salgado e mostrou-se disponível para o cargo. Era já presidente do BESI Brasil e tinha lugar no conselho superior, onde estão apenas os poderosos dos cinco ramos da família. Ao seu lado sentava-se o tio José Manuel.

Mas Ricardo Salgado travou-o com um comentário lapidar:

“O Dr. Ricardo Abecassis é um excelente banqueiro, mas no Brasil estamos em período de férias, entre o Natal e o Carnaval, e ele anda um bocadinho distraído.”

Não existem só banqueiros neste ramo dos Espírito Santo. Há actores, modelos, decoradores, artistas plásticos, golfistas, cavaleiros, pilotos de automobilismo e até criadores de novos conceitos de campismo.

O conde do campismo de luxo e o decorador

Francisco Manuel Espírito Santo de Mello Breyner, de 62 anos, filho mais velho da primogénita Matilde Teresa, não ostenta (mas tem) o título de sétimo conde de Mafra. É descontraído no trato e na aparência — veste calças largas, calça ténis e dispensa gravata.

O administrador do Zmar diz à SÁBADO que, felizmente, o seu negócio — um parque de campismo ecológico com capacidade para três mil pessoas, 150 chalets e piscina com ondas — tem escapado à crise.

“Facturámos mais do que no ano passado, recebemos mil pessoas por dia.”

Quando abriu o parque, em 2009, na herdade A de Mateus, em Odemira, tinha passado pelo ramo imobiliário. Hoje em dia, leva uma vida mais descontraída, mas não deixa de transparecer uma certa tensão na voz quando se fala da crise no BES. Admite que está a lidar “com tristeza” com a situação.

O tio de Francisco Manuel, Pedro Pinheiro Espírito Santo, de 68 anos, também não é dado a uma rotina convencional.

“O meu pai percebeu que era diferente. Frequentei belas-artes, pintura e arquitectura”, lembra o próprio à SÁBADO, a falar do Rio de Janeiro, onde passa largas temporadas numa propriedade de elevada altitude.

O decorador dedicou-se a esta actividade — tal como as irmãs Maria Mafalda, 74 anos, Ana Filipa, 72 anos, e Madalena, 66 —, depois de ter cumprido o serviço militar em Moçambique, em finais dos anos 1960. Fez a decoração da discoteca Stones, do Hotel Tivoli na Avenida da Liberdade (pertencentes à família, mas o próprio salienta ter ganho o projecto em concurso com José Manuel Arez), dos hotéis Pestana Palace, Chiado e Alvor.

A polémica do BES não lhe passa ao lado. Até no Rio de Janeiro os amigos e clientes o abordam sobre o assunto.

“Tenho recebido mensagens de solidariedade. Fico triste de ver a construção do meu avô [José Maria do Espírito Santo Silva], uma vida de trabalho, de seriedade, a cair de um dia para o outro. Temos a moral dos nossos ascendentes. Sempre nos incentivaram a trabalhar.”

As manas Ana e Patrícia Brito e Cunha, de 39 e 41 anos, respectivamente, duas das quatro filhas de Ana Filipa e João Brito e Cunha, arriscaram nas carreiras de actrizes. A primeira sobressaiu, fazendo agora parte do elenco da telenovela da TVI O Beijo do Escorpião.

Após duas décadas de carreira, interpreta com desembaraço a personagem Alexandra Furtado, de voz afectada, casada com um empresário e extremamente fútil. Começou a destacar-se no início dos anos 1990, ao apresentar a série infantil da RTP Jardim da Celeste.

Ana não falhava as festas de Verão da Comporta — propriedade pertencente à holding Rioforte, mais um tóxico do BES mau —, que chegavam a ter mais de 1500 convidados. Os Espírito Santo compareciam em peso.

Este ano, seria para repetir. Os prospectos já estavam prontos, segundo uma fonte da Junta de Freguesia da Comporta, mas após o escândalo a festa foi cancelada.

Não é altura para festejos, explicam vários membros da família à SÁBADO.

“É necessário manter recato.”

Comporta: um negócio de Manuel Ribeiro

O gigantesco terreno com 12 mil e 500 hectares — “a maior propriedade nacional detida por privados”, lê-se no site oficial da Herdade da Comporta — passou a integrar o património dos Espírito Santo em 1955.

As aldeias foram requalificadas, criaram-se escolas e bairros sociais para a população.

O primeiro proprietário chamava-se Manuel Ribeiro do Espírito Santo Silva, fundador deste ramo familiar, que assumiu a liderança do BES precisamente nesta altura e adquiriu as terras de arrozais à britânica The Atlantic Company.

“Acabei de comprar a Comporta!”, anunciou ao filho Jorge Manuel Pinheiro do Espírito Santo Silva.

Este devolveu com uma pergunta:

“O que é a Comporta?”

Passou a conhecê-la bem após a compra do pai, que ia para lá caçar em 1962, como ilustra uma foto publicada na fotobiografia Manuel Ribeiro 1908-1973, de Carlos Damas, lançada em 2008 pelo Grupo Espírito Santo.

A “tia” dos pobrezinhos

A propriedade manteve-se discreta até há dez anos, quando os filhos da princesa Carolina do Mónaco (Charlotte, Pierre e Andrea Casiraghi) começaram a frequentá-la, a convite da condessa Albina de Boisrouvray, amiga dos Espírito Santo. Os paparazzi descobriram-nos e desde então a herdade deixou de ser o esconderijo do jet-set.

Entretanto, soube-se que a filha mais nova de Kiki, Cristina Toscano Rico, de 45 anos, elucidou os curiosos sobre a Comporta numa entrevista ao Expresso publicada em Julho do ano passado:

“É como brincar aos pobrezinhos.”

Os “pobrezinhos” revoltaram-se nas redes sociais e dias depois Cristina desculpou-se, dizendo que tinha sido mal-entendida.

Um familiar explica à SÁBADO que, de facto, o estilo de vida que ali se leva é muito informal. A família descansa num complexo de casas “tipo barraquinhas”, entre o pinhal, onde os sanitários estão à parte. As casas rústicas, algumas com telhados de colmo, mantêm a tipologia original.

O episódio da célebre tirada de Cristina hoje em dia seria irrelevante, já que a Comporta exclusiva pode ter os dias contados. As obras para o hotel de luxo Comporta Dunes, orçadas em 92 milhões de euros, estão paradas.

Entre a ironia e o desânimo, um familiar remata:

“Pegando agora na frase dela, diria: ‘Não vamos brincar aos pobrezinhos, vamos viver a realidade dos pobrezinhos.’”

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