Portugal vence a Croácia no jogo mais louco deste Mundial
Valeu a pena ficar acordado até altas horas da madrugada: foi um jogo impróprio para cardíacos, em que aconteceu de tudo, desde um penálti de VAR, quatro golos anulados e um suspense digno de um filme de Hitchcock. Ronaldo marcou, voltou a deixar Modric a chorar e no final o ouro veio do banco, com o fantástico golo de Gonçalo Ramos. Agora, é respirar fundo, ir medir a tensão, lembrar Diogo Jota e ficar à espera da Espanha.
Portugal venceu a Croácia por 2-1 em Toronto – damo-nos mesmo bem com este “Boavista” de vermelho. Este foi o 11º confronto frente à seleção dos Balcãs, e o saldo é muito positivo: oito vitórias, dois empates e apenas uma derrota, por 2-1 (aconteceu a 8 de junho de 2024, no penúltimo jogo-treino antes do Euro 2024).
Quem diria que o jogo, entre duas seleções cerebrais, iria ser tão emotivo, com um penálti de VAR e quatro golos anulados, um deles já nos descontos dos descontos. Absolutamente impróprio para cardíacos, o jogo não defraudou os milhares (ou milhões) de portugueses que ficaram acordados nesta madrugada para ver o desafio dos 16 avos de final.
Em relação à partida anterior, com a Colômbia, na fase de grupos, o selecionador Roberto Martínez mudou dois jogadores: no meio-campo, tirou Rúben Neves e fez entrar João Neves, enquanto no ataque saiu João Félix e no seu lugar surgiu Rafael Leão.
Com estas duas mudanças, Martínez quis, por um lado, manter o duo-maravilha do Paris Saint-Germain, João Neves e Vitinha (ajudados por Bruno Fernandes), enquanto apostou em dois alas, talvez com o intuito de Cristiano Ronaldo poder ser melhor servido – sendo que Rafael Leão é um desequilibrador, bom no um para um e com capacidade explosiva.
De resto, no setor defensivo, manteve-se tudo igual, com Diogo Costa na baliza e João Cancelo e Nuno Mendes nas laterais, surgindo ao centro a dupla Rúben Dias-Renato Veiga.
Num jogo a eliminar, Roberto Martínez decidiu arriscar logo de início e a verdade é que o lado esquerdo começou a funcionar com as ligações entre Nuno Mendes e Rafael Leão. Logo aos 3 minutos, o extremo do Milan arranca e cruza para o meio, com Bruno Fernandes a rematar de primeira para boa defesa de Livakovic (na recarga, Bruno atirou contra os defesas).
Aos 6 minutos, novo cruzamento perigoso de Leão, com um defesa a antecipar-se in extremis a Bruno Fernandes. No canto, Cancelo apareceu solto à entrada da área, mas rematou muito por cima.
Até à primeira pausa de hidratação, Portugal esteve sempre melhor (aos 16 minutos, num canto, Renato Veiga surgiu sozinho, no centro da área, mas cabeceou por cima), embora os croatas fossem sempre espreitando contra-atacar com perigo, sendo de registar um remate fraco de Buturina (à entrada da área), aos 2 minutos, e um lance em que Budimir surgiu solto na área, mas a cabecear muito torto, aos 10 minutos.
A Croácia ia fechando pelo meio, obrigando Portugal a jogar mais pelos flancos, não pressionando muito alto no terreno, mas mostrando-se perigosa nas transições, embora sem aproveitar alguns ataques rápidos – também porque o setor defensivo português esteve bem, não se importando de fazer faltas sempre que necessário (foi assim que Rúben Dias viu um amarelo logo aos 17 minutos).
Depois dos primeiros 20 minutos mais acelerados, o jogo, entre os 30 minutos e o intervalo ficou mais previsível, com Portugal, ainda assim, mais perigoso, destacando-se dois lances, um deles mesmo em cima do intervalo, quando Rafael Leão, após um corte da defesa, rematou de primeira, mas muito por cima. Outro aconteceu aos 31 minutos, com um cruzamento de Cancelo a rondar a área, mas sem Ronaldo conseguir desviar para a baliza.
Diga-se, a propósito, que os dois veteranos de Portugal e da Croácia (Ronaldo e Modric), estiveram bastante apagados na primeira parte. O número 10 croata falhou um passe em que podia ter isolado um colega (bola com muita força), marcou bastante mal um livre para a área e foi ultrapassado em grande velocidade por Nuno Mendes quando tentava seguir para o ataque. Quanto a Ronaldo, teve duas bolas perto da área às quais não chegou, tentou fazer algumas tabelas e pouco mais.
O selecionador da Croácia, Zlatko Dalic, tinha dito que Portugal “tem jogadores taticamente e tecnicamente muito bons, dos melhores do mundo”. E por isso esperava “uma batalha a meio-campo”, garantindo que os seus jogadores iriam ser “agressivos e disciplinados”. E a promessa foi cumprida.
Dalic referiu ainda: “Já vencemos Portugal num amigável, 2-1, não há muitas surpresas entre nós. Precisamos de aumentar a nossa concentração e reduzir os erros ao mínimo, caso contrário eles vão-nos punir como fez a Inglaterra”. Ou seja, depois de ter tentado jogar de igual para igual com os ingleses (abrindo espaços para as transições), contra Portugal, até ao intervalo esta Croácia nunca se expôs ao risco.
Já Roberto Martínez afirmou que Portugal “conhece muito bem a Croácia” e prometeu “atitude e esforço por parte dos jogadores”. “A equipa tem muita força, união. Os três jogos que tivemos deram-nos uma preparação perfeita para o jogo com a Croácia”, afirmou.
E é verdade que Portugal, na primeira meia hora, apresentou um maior dinamismo e foi mais vertical do que na totalidade de jogos como os que teve frente à Colômbia ou ao Congo. Por exemplo, a nível de remates, nos primeiros 45 minutos Portugal fez nove (mais do que em todo o jogo contra o Congo), face a apenas três dos croatas.
A segunda parte arrancou a toda a velocidade, com as duas equipas a acelerarem mais o jogo (na Croácia, Modric implementou uma mais rápida circulação de bola), e após Nuno Mendes ter desperdiçado uma boa oportunidade (na área, tentou passar a Ronaldo quando podia ter chutado), a Croácia marcou, aos 53 minutos. O lateral croata, Vlasic, surgiu solto de marcação na direita, cruzou largo, os centrais ficaram nas “covas” e Kovacic apareceu sozinho, a rematar cruzado para o golo.
A Croácia marcou novamente dois minutos depois, com Vlasic a surgir outra vez nas costas da defesa e a cruzar para o golo, mas por sorte estava em fora de jogo.
No minuto seguinte, Rafael Leão ficou a centímetros de um golaço, ao disparar uma bomba de fora da área à barra.
Foi depois a vez de Kovacic surgir de novo solto, mas Diogo Costa defendeu para canto. Na resposta, Ronaldo marcou um grande golo, desmarcando-se e dominando com classe uma bola longa, desviando-a do guarda-redes, mas estava adiantado por dois ou três centímetros.
Aos 63 minutos, num canto, Rafael Leão surgiu sozinho, mas atirou ao lado. Só que, nesse lance, Renato Veiga foi agarrado e impedido de chegar à bola. Alertado pelo VAR, o árbitro foi ver as imagens e assinalou o penálti. Na cobrança, Cristiano Ronaldo atirou para o meio, enganando o guarda-redes e restabelecendo a igualdade. Foi o seu terceiro golo no Mundial 2026 e o seu 11º em Mundiais de futebol.
Até aos 80 minutos, os croatas foram mais perigosos (Diogo Costa salvou, com duas grandes defesas) e chegaram a marcar, por Sucic, mas o jogador estava ligeiramente adiantado e o golo foi anulado.
Roberto Martínez quase que perdia o jogo ao mexer mal na equipa. Aos 63 minutos, tirou Pedro Neto, Cancelo, Vitinha e Bruno Fernandes, fazendo entrar Bernardo Silva, Nelson Semedo, Francisco Conceição e Gonçalo Ramos. Estas mudanças apressadas e exageradas, próprias de alguém que entrou em pânico com o desenrolar do jogo, permitiram aos croatas passar a dominar o meio-campo, com Modric, mesmo com 40 anos, a ter um papel decisivo.
Nada a dizer sobre as saídas de Pedro Neto e Cancelo, mas Martínez não deveria ter substituído os dois médios, em especial Vitinha, o equilibrador da seleção. Aos 81 minutos, o momento-chave, com o selecionador a tirar Ronaldo, fazendo entrar Rúben Neves para tentar voltar a reequilibrar a equipa, com Bernardo Silva a ficar no meio, assumindo o papel de maestro.
Sentia-se que o jogo poderia cair para qualquer um dos lados, e depois de duas oportunidades para Portugal (em cabeceamentos de Renato Veiga e de Rúben Dias) e de outra dos croatas (com Pasalic a cabecear pouco ao lado do poste), aos 94 Portugal passou para a frente do marcador: Rafael Leão cruzou do lado esquerdo e Gonçalo Ramos, no meio de três defesas, teve um incrível desvio de cabeça à ponta de lança – puro matador.
Parecia que a vitória já não fugia a Portugal, mas três minutos depois dos 10 de descontos dados pelo árbitro, os croatas marcaram de novo (por Gvardiol, que tinha entrado aos 92). Só que, no início da jogada, parece haver um croata que desvia a bola de cabeça, esta bate em Renato Veiga e sobra para Pasalic (em fora de jogo), que a passa a Gvardiol, à boca da baliza. O árbitro foi ver as imagens, ficando, ainda assim, a dúvida se há mesmo um toque do avançado croata (a acontecer, foi de forma muito ligeira).
O golo foi mesmo anulado e Portugal aguentou mais três minutos (o jogo só acabou aos 118, quase como se fosse um prolongamento), seguindo para os oitavos de final, onde defrontará a Espanha na segunda-feira, dia 13, às 20h.
O duelo Ronaldo-Modric
A fechar, uma palavra para o duelo Ronaldo-Modric. Antes do jogo, foi quase um desafio à parte. Ambos quarentões, são lendas nas suas seleções e os mais internacionais (o português leva 232 jogos pela equipa das Quinas, enquanto o croata segue com 202). Os dois foram colegas no Real Madrid durante seis épocas (de 2012 a 2018), tendo conquistado 13 títulos, incluindo quatro Ligas dos Campeões.
Quem estivesse atento à imprensa nos últimos dias, veria vários ex-jogadores a falar deste duo de “monstros”. A maioria a elogiá-los, como aconteceu com o croata Darijo Srna, que fez 134 jogos pela Croácia e despediu-se da seleção após a derrota com Portugal no Euro 2016. “Na Croácia, Modric é mais do que um futebolista, é um símbolo do nosso país e um dos maiores jogadores da nossa história. Claro que as pessoas podem analisar os jogos, mas o respeito pelo Luka nunca vai mudar. Vejo o Cristiano de forma semelhante em Portugal. Pode-se discutir tática, minutos ou momentos de forma – isso é normal no futebol. Mas jogadores como o Cristiano e o Luka conquistaram um nível de respeito diferente: são lendas”, afirmou ao jornal A Bola.
Já em declarações ao jornal O Jogo, Mladen Karoglan, antigo avançado croata que jogou em Portugal no Sp. Braga e no Desp. Chaves, é mais crítico, adiantando que Modric e Ronaldo “foram os melhores do mundo, mas o tempo deles passou”. Ou seja, afirmou, “estão no Mundial apenas para perseguir alguns recordes”.
Vitinha, médio da seleção portuguesa, admitiu antes do jogo que Modric foi (e ainda é) um dos seus ídolos, referindo-se assim ao duo de lendas: “O Modric e o Cristiano são duas referências do futebol internacional, mas, além de jogadores, são grandes pessoas. Um tem de parar a caminhada, e espero que seja o Modric”. Vitinha, pareces adivinho, pá!
Esta foi a 11ª vez em que Ronaldo e Modric se defrontaram (por clubes e seleções), sendo que o croata nunca venceu. Nas anteriores, Ronaldo tinha oito vitórias e apenas dois empates, o primeiro em 2008 (CR7 estava no Manchester United e o médio croata no Tottenham), mas Ronaldo sairia a sorrir, pois venceu a final da Taça da Liga inglesa nos penáltis. Antes deste jogo do Mundial, tinham-se defrontado pela última vez nas seleções para a Liga das Nações, em 2024, com o mesmo resultado de hoje: Portugal venceu por 2-1 (e com um golo de Ronaldo). Quem diz que a história não se repete?
Uma palavra ainda para Diogo Jota, que morreu de forma trágica há precisamente um ano. Muitos jogadores disseram que queriam vencer este jogo para lhe dedicar a vitória, até porque o extremo do Liverpool tinha o sonho de jogar um Mundial. Curiosamente, o primeiro e o último golo de Diogo Jota pela seleção foi frente à Croácia. Para quem acredita em algo, quem sabe se não foi o espírito do antigo extremo (e do seu irmão André Silva, também futebolista e igualmente vítima do fatídico acidente de carro) que inclinou o jogo para Portugal, no meio de tantos lances decididos por uma questão de centímetros.