Portugal - Uzbequistão: avaliação alternativa dos jogadores
Uma goleada que nos deixa outra vez com "sensações".
Portugal goleou (5-0) o Uzbequistão no segundo jogo da fase de grupos do Mundial 2026. Estiveram em campo 16 jogadores e esta é uma avaliação informal (de 1 a 10) da sua prestação.
Diogo Costa – 5
Tem mantido a calma perante as provocações.
“O Vozinha defendeu mais uma…”
“16 milhões no Instagram, mano…”
“E a tua mãe, ‘tá onde?”
O mundo de facto ilude-se com estes velhos recursos hollywoodescos dos underdogs, hoje o Vozinha, amanhã outra coisa, porque no final de cada espetáculo a violência e a penúria regressam à vidinha do adepto e é preciso continuar ciclicamente a iludi-lo. Entusiasmamo-nos com os 40 anos do Vozinha (idadismo insuportável, ainda temos de trabalhar muito nas escolas), mas por medo do fat shaming não falamos do Lukaku conseguir jogar tão gordo.
Cinismo.
Não contem com o Diogo Costa para estas palhaçadas.
João Cancelo – 6
Não começou a jogar a sério hoje, como outros. Saiu ao intervalo para deixar a Colômbia a roer as unhas.
Renato Veiga – 5
No primeiro jogo, pediu para ser titular quando soube que a transmissão era na TVI com comentários do Rui Santos. Agora era o Dani e até de joelhos se pôs.
Fica a dever duas ao mister.
Rúben Dias – 6
Nesta época, lesionou-se e perdeu o campeonato, a namorada, o Guardiola e o Bernardo. O Porto foi campeão. Vem portanto de um ano difícil, mas quem é que não vem de um ano difícil?
Depois daquele empate com o Congo e do cheirinho a Saltillo, a federação mandou-o para a conferência de imprensa para mostrar que estivemos só a ser infantis.
O Rúben é o líder do grupo que consegue dar-se com todos os líderes do grupo. Dá confiança aos empregados. É o tipo enigmático a quem ninguém oferece louro na rua Augusta – causa a dúvida se é gatuno, ou da bófia. Conduz só com uma mão. Conhece a Amadora. Ficámos todos melhor quando falou naquela conferência de imprensa. Entrou na equipa e obviamente ganhámos. Badass.
Nuno Mendes – 6
Esteve melhor e até marcou um golo – ou, como dizem na taberna, meteu uma batatinha lá dentro.
Alheado e amorfo no primeiro jogo, desmentiu cabalmente a teoria da conspiração de que quem estava a jogar a defesa esquerdo de Portugal era a Shakira.
João Neves - 6
Mais um dia no escritório da melhor pessoa do Mundial.
Vitinha – 6
Aquela forma de jogar da Alemanha mete-lhe nojo.
Bruno Fernandes – 6
Vítima do jet lag no primeiro jogo, começa a pouco e pouco a pôr o soninho em dia.
Pedro Neto – 4
Um caso muito curioso. Acreditando que a sua cabeça é uma gigantesca bigorna a ser puxada por um íman imaginário na relva, Pedro Neto passa os jogos numa luta desesperante para se erguer e passar à fase seguinte da evolução. Às vezes tenta com a força, noutras com a velocidade, o que no fundo é a mesma coisa.
Se Oliver Sacks o tivesse conhecido, tê-lo-ia incluído n’O Homem que Confundiu a sua Mulher com um Chapéu.
Cristiano Ronaldo – 7
É acionista da Medialivre, dona da SÁBADO, patrão de quem escreve.
Os grandes avançados começaram a marcar golos e ele foi lá fazer o mesmo: é uma Maria vai com as outras.
João Félix- 7
Reflexão.
Há muito tempo que quem manda no futebol tenta eliminar o desnorte, a transgressão, a burla, a deriva, a cuspidela, a agressão – em nome da “Verdade” e da “Ordem”, para acabar com os Maradonas, os Romários, os Humbertos Delgados.
Lugares marcados no estádio, proibida a revenda de bilhetes com boa margem de lucro, computadores a verificar linhas foras de jogo até às unhas, jogadores com media training, segundos contados para repor a bola, apanha-bolas despedidos, câmaras espalhadas por todos os locais possíveis, por mar e terra e ar, nas balizas, suspensas, na cabeça do árbitro, que tem um relógio que comunica com um chip inserido na bola e que pode parar o jogo para ir ver “imagens”.
Em nome desta “Verdade” orwelliana, inventaram agora que um jogador não pode dizer nada a um adversário a tapar a boca, porque se parte do pressuposto de que se é às escondidas, é mau. Se não “vemos” nem “medimos”, temos medo e portanto proibimos.
O Estado Novo funcionava assim. A visão inicial de Salazar era a de um imenso parque habitacional de casas térreas (mais fáceis de monitorar do que a construção em altura) com pequenos quintais que necessitavam de manutenção todos os dias (para desviar o homem de todo o potencial das tascas).
A ilusão de controlo consola qualquer ditadura, incluindo a ditadura da nossa esperteza (achamos sempre que somos muito espertos). Exemplo: vemos imagens de jogadores na praia e achamos que estão “de férias” ou “não estão focados”. Acabando-se a praia, acabam-se as imagens e acaba-se a nossa perceção de que algo de mau estava a acontecer. Porque agora só pensamos através de “imagens” e de “medições”. Se agora fosse à hemeroteca ver jornais antigos, o adepto de hoje acreditaria que o Maradona passou o Mundial de 1986 a beber mate no quarto enquanto lia Borges, Galeano e Bolaño.
E depois a vida real expõe o ridículo dos burocratas e desmascara os ditadores. Um uzbequistanês não pode tapar a boca e dizer ao João Félix que o acha bonito com aquele cabelo (?!), mas pode dizer de boca escancarada que a mãe dele é duvidosa. Tapa a boca por vergonha e medo de gostar de outro homem, que no seu país é crime. Na FIFA é cartão vermelho, o que é a mesma coisa. Mas há sempre alguém que resiste, e hipoteticamente o mesmo uzbequistanês pode ofender a mãe do João Félix sem tapar a boca porque fala em uzbeque a um jogador que só entende português, inglês e espanhol à frente de um árbitro marroquino que só percebe árabe, francês e berbere.
(sobre línguas, suas famílias e ramificações pré-históricas ler o muito interessante Proto – Uma História da Linguagem, da Laura Spinney, que saiu agora na Temas & Debates, 334 páginas, €19,90)
Mas há por aí um exército de choninhas à procura destes alçapões, e no próximo Mundial de futebol todos os jogadores terão um chip IA Google Translate incorporado, cujas gravações serão divulgadas, para acabarmos a descobrir a “Verdade” horrível que é o João Félix ser daquelas pessoas que dizem “mano” em todas as frases e isso depois tomar conta da perceção que temos dele, sobrepondo-se ao que verdadeiramente interessa, que é a sua qualidade com os pés e as páginas da sua autobiografia sobre a Magui.
Não devemos portanto, todos nós, acabar com esta loucura em que se tornou o futebol?
Quanto ao jogo, João Félix estava provavelmente a ser o melhor da equipa, mas para castigo foi substituído. Não só estamos a proibir a transgressão, como a combater a arte. Esperemos que Félix resista.
Francisco Conceição – 3
Entrou num jogo já resolvido e demasiado fácil. E portanto não soube o que fazer. Curioso.
Bernardo Silva – 3
Típico gajo que começa logo a dizer “Chéquia” e “Países Baixos”. Perdeu a titularidade. Bem feito.
Francisco Trincão – 3
Jogador agenciado pelo Curto Circuito, tem tido dificuldade em conciliar o cabelo e o bigode com a cor deste novo equipamento da seleção, cópia de atum cru (ver Google Imagens).
Nélson Semedo – 3
Jogou.
Rafael Leão – 4
O seu jogo foi o equivalente ao regresso de Pedro Santana Lopes ao PSD num congresso em Sangalhos.