Secções
Entrar

Mistério: onde estão os milhões de Pinto da Costa?

Carlos Torres 20 de março de 2025 às 15:25

Enquanto presidente do FC Porto chegou a receber €1 milhão por ano e vendeu as suas ações por 350 mil euros, mas no seu testamento não há dinheiro e surge apenas em seu nome um T1. Entre as muitas teorias, há quem defenda que fez um acordo secreto com o filho Alexandre, com quem esteve muitos anos de costas voltadas.

"Neste momento, duas preocupações enchem a minha cabeça e o meu coração. Na minha falta, como será o relacionamento dos meus filhos? Como se vão entender na divisão dos meus bens? Já lhes lembrei o que a minha querida mãe nos dizia, a mim e aos meus irmãos: 'Entendam-se, senão metade do que vos deixo será para os tribunais e advogados. Sábias palavras, que todos seguimos, e tudo dividimos sem o mínimo atrito".

Victor Sousa/Movephoto

Jorge Nuno Pinto da Costa, que morreu a 15 de fevereiro, deixou estes conselhos aos filhos no seu último livro, Azul até ao Fim, editado em outubro de 2024. Também terá dito, conforme o médico Fernando Póvoas, seu amigo, revelou à SÁBADO, que os seus familiares "escusam de andar à procura de dinheiro em contas no estrangeiro, porque o que tem está no banco. E não é o que as pessoas julgam que ele tem".

No entanto, e apesar de todos estes avisos, a divisão dos bens do histórico líder do FC Porto, que foi presidente dos dragões entre 1982 e 2024, promete fazer correr muita tinta e trazer grandes doses de polémica.

O jornal Correio da Manhã revelou que Pinto da Costa "deserdou" o filho, Alexandre, num testamento feito dois meses antes de morrer. O ex-presidente portista terá assinado um novo documento a 9 de dezembro de 2024, três dias depois de ter tido alta médica do hospital da CUF do Porto, onde esteve internado para debelar uma fratura do fémur. Esta alteração revogou assim o testamento que havia feito dois meses antes, em outubro.

Contactado pela SÁBADO, o advogado Pedro Proença explicou que o que está em causa nesta situação é que Pinto da Costa "dissipou parte do património antes de falecer", ou seja, vendeu as ações antes de morrer, de forma a que "esses bens não entrassem na herança". Impedindo os filhos de herdar as ações, "não os está a afastar", mas "a evitar" que esses bens cheguem às suas mãos.

Segundo revela, juridicamente "não podemos deserdar um filho", apenas se este "for condenado na prática de um crime grave", o que não é o caso. O que Pinto da Costa fez, efetivamente, "foi limitar a herança do filho ao mínimo legal a que tem direito", uma quota de 25% garantidos aos herdeiros legítimos.

E que bens é que Pinto da Costa terá deixado?

Segundo adiantou o Correio da Manhã, deixou apenas um apartamento T1 e algumas peças de arte. A totalidade da quota disponível, correspondente a um terço da herança, foi atribuída à sua companheira e à filha Joana. Um dos seus netos, Nuno, ficou também com os direitos de utilização do seu nome.

Não foi ainda divulgado se há contas bancárias que ainda não tenham sido descobertas, nem os possíveis montantes que podem estar em causa. O levantamento na habilitação de herdeiros será feito por quem for considerado o cabeça de casal, que deverá ser Cláudia Campo, a última mulher de Pinto da Costa.

"Oficialmente, a verdade é que não há nada, zero, só uma casinha, que vale meia dúzia de tostões", referiu a Flash, citando uma fonte. A mesma fonte deixa no ar um tom de mistério em relação ao dinheiro amealhado, tendo em conta que só na última década teria recebido entre 800 mil a 1 milhão de euros anuais pelas suas funções à frente da SAD do FC Porto: "Nunca lhe vimos grandes luxos ou um estilo de vida acima da média, nem viagens nem nada. Ora, se não investiu em imobiliário, é legítimo que se questione onde pára o dinheiro". Ainda assim, termina: "Para já, há muita cautela nesta análise ao testamento. Não vamos acreditar que, de repente, Pinto da Costa era uma espécie de pobrezinho que tinha apenas um T1".

Quanto à exclusão de Alexandre Pinto da Costa do testamento, isso até poderia ser expectável, uma vez que o antigo dirigente dos dragões teve várias guerras com o seu filho e os dois estiveram muitos anos de costas voltadas. No seu livro Azul até ao Fim dá para perceber, nalgumas passagens, que os dois estão desavindos, embora Pinto da Costa nunca dê muitos pormenores. A 19 de dezembro de 2022, a propósito da entrega dos Dragões de Ouro, escreveu: "O aspeto negativo foi a ausência do meu filho Alexandre, que não foi à Gala por estarem lá pessoas de que não gosta!!! Incompreensível, mas foi assim!".

Um ano depois, no Natal de 2023, escreveu: "Por discrepâncias com o meu filho Alexandre, não passámos o Natal em conjunto com os restantes familiares, nem sequer nos encontrámos! TRISTE! Quando, no dia de Natal, fui almoçar à minha filha Joana, também seu irmão Alexandre não estava! Por estas ausências e pela falta dos que comigo ceavam em paz e amor senti-me triste".

No entanto, há notícias de que os dois terão feito as pazes na fase final da vida de Pinto da Costa, com o filho a visitá-lo quando ele esteve internado no hospital. A revista TV Guia avança mesmo com a possibilidade de o facto de ele ter "deserdado" o filho ter sido, apenas, uma das últimas grandes manobras do histórico líder do FC Porto.

Uma fonte ouvida pela revista adianta: "A altura em que a alteração [do testamento] foi feita é estranha. Então, se quando estavam de costas voltadas ele nunca deserdou o filho, porque razão o fez quando já estavam mais próximos? O que terá acontecido no hospital?". E acrescenta: "No Porto, toda a gente sabe que o Alexandre tem andado a alienar património e que há várias investigações a decorrer em relação a milhões desaparecidos relativos às comissões de jogadores". 

Ou seja, conclui, o facto de Alexandre ter sido "deserdado" tanto pode ser um castigo como, de alguma forma, uma salvação e uma maneira de salvaguardar o seu património da mira da justiça. É que, com investigações relacionadas com corrupção a decorrer, o seu filho poderia acabar por ver o seu património em risco.

Recentemente, Alexandre Pinto da Costa, quando esteve na gala do jornal O Gaiense onde o seu pai foi homenageado, adiantou alguns pormenores sobre a relação entre os dois, realçando que pretende doar a herança desportiva do pai. "Nunca foi o dinheiro ou os bens materiais que me moveram no apoio que dei ao meu pai nos momentos em que ele mais precisou de mim enquanto filho", adiantou, revelando que teve "desacordos" com o líder do FC Porto por ele "estar tão mal acompanhado nos últimos anos da sua presidência".

"Quando alertei, frontal e diretamente, os perigos que corria pelas escolhas erradas eu, posteriormente, e de livre vontade, afastei-me do presidente", disse, esclarecendo que não se afastou do Pinto da Costa pai: "Desse estive sempre presente quando ele de mim necessitava". Aliás, revelou, foi por essas "escolhas erradas" do pai que decidiu afastar-se "de toda e qualquer atividade do clube, desportiva e socialmente, durante anos a fio".

Alexandre revelou ainda nessa gala que iria doar os bens desportivos do pai: "Como herdeiro legítimo de parte do património do meu pai, e após ser feito o apuramento da divisão legal, tudo o que diga respeito ao espólio desportivo, a um museu fabuloso que o meu pai tinha, onde guardava religiosamente todo e qualquer objeto que lhe foi oferecido ao longo de décadas ao serviço do FC Porto, que me será legitimamente entregue, será doado por mim, graciosamente, ao FC Porto". E sem qualquer interesse financeiro "ou renda futura em troca".

O site The Mag acrescenta que Alexandre, que está de relações cortadas com o seu filho Nuno, um dos netos prediletos de Pinto da Costa, surge isolado em relação à restante família, pois a relação com a irmã Joana e com a última mulher de Pinto da Costa, Cláudia Campo, "é inexistente". Aliás, "as duas uniram-se de forma a cumprir o sonho de Pinto da Costa: manter os seus milhões a salvo".

Na CMTV, a jornalista Tânia Laranjo avançou que neste momento não há um inventário dos bens, com exceção do T1 e de algumas obras de arte. "Ou seja, o património pode estar noutras mãos. Designadamente na posse de Cláudia ou da filha Joana. Esta será a grande dúvida a ser dirimida em tribunal pelo filho Alexandre, que não aceitará seguramente ser prejudicado nesta divisão de bens".

Há ainda outra questão, relativa às ações do clube, pois o antigo presidente portista vendeu-as, num negócio que terá valido 350 mil euros, ao antigo futebolista Caetano, agora o terceiro maior acionista do clube, a seguir aos irmãos Oliveira, António e Joaquim. O antigo extremo, que jogou no FC Porto na época 1989/90, tendo conquistado o campeonato e a Taça de Portugal (apesar de ter tido uma utilização residual, 45 minutos contra o Paredes para a Taça e 21 minutos frente ao Vit. Guimarães na I Liga), é agora empresário com negócios na construção civil e no ramo da hotelaria e do imobiliário. Entre os negócios, o site zerozero dá conta de investimentos no Penafiel Park Hotel & Spa ou num projeto de habitação de luxo, o Douro Residences, junto à ponte da Arrábida. 

Também o filho de Agostinho Caetano, Rui Caetano, ex-jogador e que passou pela formação dos dragões, decidiu apostar no mundo empresarial. Em julho de 2024, numa entrevista ao zerozero, confessou: "Desde os 22/23 anos que comecei a abrir ginásios, health clubs. Neste momento tenho a marca IDEALKORPUS, que conta com quase 10 espaços que se traduzem em ginásios, boxes de crossfit, estúdios de pilates, clínicas de medicina estética, clubes de padel. Além disso, inseri-me no ramo mais importante da família, o da construção e da promoção imobiliária".

Ora, desses 350 mil euros resultantes da venda de ações também não há rasto. No entanto, como diz uma fonte, "Pinto da Costa poderá ter feito doações em vida". Surgem também notícias de que o antigo líder portista terá sempre manifestado preocupação em acautelar o futuro da sua mulher quando morresse. Na CMTV, foi avançado que Cláudia Campo recebe uma pensão de mais de 5 mil euros por mês (60% da pensão do marido). Isso mesmo foi divulgado pelo relações públicas Rui Terra, que adiantou que o valor "passa os 5 mil euros". A viúva de Pinto da Costa continua ainda a morar na mansão onde vivia com o marido, nas Antas, já que ficou decidido que a casa ficaria para ela após a morte do antigo dirigente. 

Zulmira Garrido, ex-mulher do treinador Jesualdo Ferreira e que conhece bem a viúva de Pinto da Costa, também avançou que um dos motivos pelos quais o antigo dirigente quis casar com Cláudia Campo foi para garantir o futuro dela. "Embora ela não precise muito. A Cláudia é filha de boas famílias, o pai já era administrador bancário, ela também era empregada bancária e nunca deixou de trabalhar. Só meteu baixa nos últimos tempos, para estar 24 horas ao lado de Pinto da Costa."

Artigos Relacionados
Descubra as
Edições do Dia
Publicamos para si, em três periodos distintos do dia, o melhor da atualidade nacional e internacional. Os artigos das Edições do Dia estão ordenados cronologicamente aqui , para que não perca nada do melhor que a SÁBADO prepara para si. Pode também navegar nas edições anteriores, do dia ou da semana.
Boas leituras!
Artigos recomendados
As mais lidas
Exclusivo

Operação Influencer. Os segredos escondidos na pen 19

TextoCarlos Rodrigues Lima
FotosCarlos Rodrigues Lima
Portugal

Assim se fez (e desfez) o tribunal mais poderoso do País

TextoAntónio José Vilela
FotosAntónio José Vilela
Portugal

O estranho caso da escuta, do bruxo Demba e do juiz vingativo

TextoAntónio José Vilela
FotosAntónio José Vilela