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Lindsey Vonn: “Rainha do Gelo” ainda vai voltar a competir?

Carlos Torres 21 de março de 2026 às 08:07

Focada na recuperação, após a grave lesão nos Jogos Olímpicos, a esquiadora de 41 anos não quer falar em reforma. "Aviso quando decidir"

“Bem-vinda ao Centro de Reabilitação Vonn”, comentou, de forma humorada, Lindsey Vonn, num vídeo partilhado nas redes sociais a 18 de março, brincando com o azar da sua irmã mais nova, Karin Kildow, que, tal como ela, foi vítima de uma rotura do ligamento cruzado anterior e está a fazer a recuperação com a esquiadora, que é conhecida por “Rainha do Gelo” pelas suas muitas conquistas.

Lindsey Vonn, esquiadora, recupera após lesão nos Jogos Olímpicos e evita reforma Pier Marco Tacca/AP

Lindsey Vonn, de 41 anos, sofreu uma lesão gravíssima (fratura e rotura na perna esquerda) no passado dia 8 de fevereiro, nos Jogos Olímpicos de Inverno, e tem partilhado vídeos da recuperação. Ainda a 6 de março, surge a treinar no ginásio, trabalhando os admoninais, os ombros e mesmo a perna lesionada. E na última semana aparecia numa bicicleta estática, mostrando a grande evolução que tem registado e frisando: "Comecei com 5 minutos".

Talvez entusiasmada com o rumo da recuperação, Lindsey não é taxativa em relação ao fim da sua carreira, e recentemente deixou isso claro numa discussão nas redes sociais. Perante um comentário menos abonatório de alguém, que a acusava de ter um ego “demasiado forte” e que devia “aceitar a realidade”, pois esteve quase a ficar sem a perna, ela respondeu.

“Estás a confundir ego com alegria. Disse-o a vida toda – adoro esquiar. Porei os pés ao alto quando estiver pronta, mas não estou pronta para discutir o meu futuro no esqui. O meu foco tem sido recuperar da lesão e voltar à vida normal. Já estive retirada seis anos e tenho uma vida fantástica fora do esqui. Foi incrível ser a nº 1 do mundo novamente aos 41 anos e estabelecer novos recordes, mas sou a única que decidirá o futuro, não preciso da permissão de ninguém para fazer o que me faz feliz. Talvez isso signifique competir novamente, talvez não. Só o tempo o dirá. Por favor, parem de me dizer o que devo ou não fazer. Aviso quando decidir”.

A loucura de competir lesionada

Quando Lindsey Vonn anunciou que iria participar no slalom nos últimos Jogos Olímpicos de Inverno, em Milão-Cortina, apesar de ter sofrido uma lesão complicada poucos dias antes, muitas pessoas (ela tem 3,6 milhões de seguidores nas redes sociais) acharam que a esquiadora norte-americana tinha enlouquecido de vez. Afinal, ela já tinha feito isso, mas na altura tinha 21 anos.

Na segunda vez que participou nos Jogos Olímpicos de Inverno, em 2006 (Itália), a atleta sofreu uma queda num treino, em San Sicario, e teve de ser levada de helicóptero para um hospital em Turim. Ficou uma noite internada, mas apesar das dores numa anca, menos de 48 horas depois já estava a competir em downhill, acabando no 8º lugar.

Nos Jogos Olímpicos de 2026, Lindsey Vonn deve ter-se lembrado dessa sua “loucura” de juventude – e de muitas outras ao longo da carreira, marcada por lesões e recuperações milagrosas – e voltou a arriscar. Só que desta vez as coisas correram mal e ela sofreu uma aparatosa queda na final do slalom: um dos esquis prendeu-se numa placa de gelo e ela perdeu o controlo 13 segundos após o início da descida, sendo projetada no ar e caindo desamparada.

A gravidade das lesões obrigou a esquiadora a ter de fazer seis cirurgias. “Tive uma fratura complexa da tíbia e também fraturei a cabeça do perónio. A razão pela qual foi tão complexa é que tive síndrome compartimental”, contou, descrevendo a condição como um trauma que causa uma acumulação excessiva de sangue e que “esmaga músculos, nervos e tendões”, o que pode levar à necrose.

“O Tom [Hackett, o médico] salvou a minha perna de ser amputada. Fez o que se chama uma fasciotomia, abriu ambos os lados da minha perna para a deixar respirar e salvou-a”, afirmou.

E deu detalhes sobre a recuperação: “Levará cerca de um ano para que todos os ossos sarem. E depois decidirei se quero retirar todo o metal ou não, e só então voltarei a ser operada para finalmente recuperar o meu ligamento cruzado anterior”.

A atleta, que também fraturou o tornozelo direito, considerou que é preciso “aguentar os golpes” que a vida nos dá e frisou que já fez seis cirurgias. “Estive no hospital um pouco mais do que esperava por causa da perda de sangue de todas as operações. Estava a sofrer muito, a dor estava fora de controlo”.

Os primeiros tempos no esqui

Esta resiliência é a imagem de marca de Lindsey Vonn, que começou a esquiar com apenas 2 anos. Nascida em Kildow, no Minnesota (EUA), a 18 de outubro de 1984, aprendeu a esquiar com o avô, Don Kildow, no Wisconsin, e aos 7 anos já tinha estado nas principais pistas do Minnesota, Oregon e Colorado, chegando a fazer viagens de carro de 16 horas para ir esquiar com a família ou ter aulas em locais como o famoso Ski Club Vail. Aliás, quando ela tinha 8 anos os pais decidiram mudar-se para o Colorado para ela poder esquiar a tempo inteiro em Vail.

Os resultados não tardaram a chegar, com a conquista de um importante troféu em Itália (aos 15 anos), e a sua primeira participação numa Taça do Mundo, aos 16 anos, em Park City, no Utah. Dois anos depois, em 2002, ainda com 17 anos, fez a sua estreia nos Jogos Olímpicos de Inverno (Salt Lake City), onde disputou o slalom e o combinado, conseguindo um 6º lugar. Em 2003, ganhou uma medalha de prata no Campeonato do Mundo de Juniores e em 2004, um mês depois de fazer 20 anos, obteve a sua primeira vitória numa Taça do Mundoa, após vencer o downhill em Lake Louise.

No total da carreira, Lindsey Vonn participou em cinco Jogos Olímpicos e somou 82 vitórias em Taças do Mundo, um recorde que só foi superado em janeiro de 2023, por Mikaela Shiffrin (atualmente, Shiffrin e Ingemar Stenmark detêm o máximo de vitórias, 86).

Lindsey Vonn ganhou quatro títulos absolutos da Taça do Mundo de esqui alpino (é uma das duas únicas esquiadoras a consegui-lo, a outra é Annemarie Moser-Proll), sendo três consecutivos (2008, 2009 e 2010), conseguindo outro em 2012.

Conquistou ainda a medalha de ouro no downhill nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2010 (tem mais duas medalhas de bronze em Jogos Olímpicos) e seis títulos consecutivos na Taça do Mundo na disciplina de downhill (2008-2013). O currículo inclui ainda quatro títulos consecutivos em super-G (2009-2012) e três títulos consecutivos no combinado (2010-2012).

Lindsey Vonn é uma das seis mulheres, no mundo, que conseguiram vencer provas da Taça do Mundo em todas as cinco disciplinas de esqui alpino: downhill, super-G, slalom gigante, slalom e combinado.

Aprender com as lesões

As lesões têm-na acompanhado ao longo da carreira, com a atleta a garantir que quer sair dos problemas ainda mais forte. "Sempre aprendi com cada lesão. Cada uma delas tornou-me uma pessoa melhor e mais forte de diferentes maneiras... mas a batalha da mente pode ser sombria, dura e implacável".

Em 2014, por exemplo, devido a uma lesão no ligamento cruzado do joelho direito (sofrida três meses antes da competição), não pôde entrar nos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, na Rússia, mas esteve no local a trabalhar como… comentadora da televisão NBC.

No campeonato do mundo de 2009, em Val d’Isere (França), sofreu uma lesão caricata. Depois de ter ganho duas medalhas de ouro (super-G e downhill), ao celebrar a segunda conquista, uma garrafa de champanhe estourou-lhe numa mão e cortou-lhe o tendão do polegar. Após uma cirurgia de emergência, falhou a prova de slalom, mas com uma proteção especial (que pesava quase 2 kg) entrou no slalom gigante – sofreu uma queda na descida que, apesar de não ser grave, tirou-lhe a possibilidade de chegar às medalhas.

Depois de ter anunciado a reforma, em fevereiro de 2019, dali a cinco anos e meio (novembro de 2024) regressou às competições, graças ao sucesso de uma cirurgia inovadora num joelho (reconstruído com implantes de titânio sete meses antes), o que lhe permitiu viver sem as dores que a impossibilitavam de esquiar.

Entrou em quatro provas da Taça do Mundo entre 21 de dezembro de 2024 e 23 de março de 2025, obtendo um 14º lugar, um 6º, um 4º e um 2º, tornando-se, aos 40 anos, a mais velha esquiadora alpina a alcançar um pódio. O seu regresso foi descrito como “o maior comeback da história do desporto” e Lindsey Vonn conseguiu mesmo tornar-se a nº 1 do mundo. Agora que teve novo (e bastante complicado) revés, será esta a saída definitiva ou ainda vamos ter um novo e incrível retorno da “Rainha da Neve”?

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