E se uma dose de vacina desse para duas ou mais pessoas?

E se uma dose de vacina desse para duas ou mais pessoas?
Ana Taborda 03 de março

Não é impossível usar apenas 50% de uma dose - ou menos - para imunizar pelo menos o dobro da população. Já foi testado na febre amarela, por exemplo. Os especialistas dizem que não há dados suficientes para o fazer com a covid-19. A Moderna está a preparar ensaios clínicos com doses mais pequenas.

Durante um surto de febre amarela que podia atingir 25 milhões de pessoas, e com menos de 6 milhões de doses de vacina disponíveis, os Médicos Sem Fronteiras decidiram dividir o que tinham numa tentativa de chegar a mais gente: em 2018, a população brasileira recebeu o equivalente a 20% de uma dose normal, o que permitiu vacinar cinco vezes mais pessoas. Aconteceu o mesmo na República Democrática do Congo, durante os surtos de cólera nos quais se chegaram a promover campanhas de vacinação em modo takeaway - tome uma dose aqui, leve a segunda para dar a si próprio em casa.

Noutras situações, prolongou-se o intervalo entre doses - o mesmo que Portugal decidiu agora fazer com a vacina da Pfizer. De acordo com o Governo, atrasar em sete dias a segunda toma (o intervalo entre a primeira e a segunda doses passa de 21 para 28 dias) permitirá chegar a mais 100 mil pessoas. Resumindo: em tempos de surtos e de epidemias, as vacinas podem não ser administradas nas circunstâncias ideais. Mas até que ponto podemos "esticar" uma vacina para chegar a mais pessoas? 

"É um tema que tem sido amplamente debatido na comunidade científica", diz à SÁBADO o parasitologista do Instituto de Medicina Molecular e especialista em vacinas Miguel Prudêncio. "O que está em causa é se há forma de aumentarmos a cobertura nacional numa situação simultaneamente de urgência e de escassez de vacinas. Toda a gente tem a melhor das intenções, mas é preciso ver até onde podemos ir em busca de soluções sem comprometer a segurança e eficácia das vacinas, que é aquilo que não pode deixar de estar garantido."

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