O verdadeiro poder de Maria de Jesus Barroso

Vítor Matos 08 de janeiro de 2017

Não foi apenas a mulher de Mário Soares. Foi actriz. Teve vida política autónoma. Se não fosse a retaguarda sólida da família, talvez o socialista não tivesse sido quem foi

Nas ruas imundas e esventradas, a multidão cantava: "Mamma Soares!" Os refugiados depositavam nela uma réstia de esperança. Por razões de segurança, a visita de Maria Barroso a Ressano Garcia tinha sido realizada contra a opinião do adido militar da Presidência da República. Era perigoso percorrer aquela zona de guerra civil a 100 quilómetros de Maputo, na fronteira de Moçambique com a África do Sul. Dias antes, o Presidente Joaquim Chissano manifestara-lhe admiração pelo "acto de coragem" ao teimar ir a uma região a ferro e fogo. Uma vez em Ressano Garcia, um elemento da comitiva perguntou a uma mulher porque não limpavam as ruas: "Para quê, minha senhora, se não sabemos se daqui a uma hora estaremos vivos?" Era assim, a 12 de Setembro de 1991. Os 200 mil refugiados moçambicanos ainda nem eram reconhecidos pelas Nações Unidas. A mulher do Presidente português, numa acção vista pelo Governo de Cavaco Silva como diplomacia paralela, desempenharia um papel influente nas negociações de paz em Moçambique. Sem poder formal, teve poder efectivo. No fim da visita, chorou numa igreja cheia de gente fugida da guerra. As condições eram dramáticas.

No dia 9 de Setembro de 1991, Maria de Jesus Barroso tinha-se encontrado com Joaquim Chissano. Segundo o protocolo, devia ter sido ela a apresentar-se no palácio presidencial da Ponta Vermelha. Mas foi o próprio Presidente de Moçambique a deslocar-se à residência onde instalara a primeira -dama portuguesa e os seus três acompanhantes: Maria João Sande Lemos e Vítor Ramalho, da Casa Civil, e o comandante Homem de Gouveia, o adido militar. Falaram duas horas. Numa das fases mais delicadas do processo negocial conduzido em Roma pela Comunidade de Santo Egídio para acabar a guerra em Moçambique, Maria Barroso questionou Chissano sobre a situação crítica dos refugiados. A seguir, propôs "o estabelecimento de um corredor de paz, de Maputo até Ressano Garcia, e a canalização daí, África do Sul adentro, de ajudas [humanitárias]", contou o ex-Presidente moçambicano num depoimento, em 2008, para o livro Viagem a Moçambique, editado pela Fundação Pro Dignitate, dirigida por Maria Barroso. Chissano fez um gesto largo e disse-lhe: "Faça o que puder!" A mulher do Presidente português fez mais do que podia. Primeira -dama não é entidade oficial; não tem a legitimidade do voto. Ela sabia disso.

Boicotada por Durão e pelas secretas
Durante essa viagem chegou a ter uma reunião marcada com o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, na região do Kruger Park, território da África do Sul que visitou, mas "houve pressões para impedir esses encontros", assumiu Dhlakama numa declaração para o mesmo livro. A obstrução terá sido exercida através do então denominado Serviço de Informações Militares português, com a cobertura política de José Manuel Durão Barroso, nessa época secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros. O ministro, João de Deus Pinheiro, fora informado da deslocação, mas o governo não deixava de considerar a iniciativa como diplomacia paralela por parte de Belém. Um ano antes, tinha havido conflitos sérios entre Cavaco e Soares por causa dos acordos de paz em Angola. A ida de Maria Barroso a Moçambique tinha sido incentivada pelo padre bretão Jean -Pierre le Scour, que dirigia na região sul-africana de Kangwane, junto a Ressano Garcia, um projecto de assistência a milhares de deslocados de guerra, integrando os jovens numa escola de artes e ofícios que os preparasse para uma vida futura em paz.

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