Crianças com medo do Halloween

Dina Arsénio com Vanda Marques 31 de outubro de 2017

Luís deixou de conseguir dormir sozinho, Pedro fazia chichi na cama, Marta fica mais insegura – estes são alguns exemplos do que este dia provoca

Teias de aranha gigantes, morcegos de asas abertas e olhos vermelhos, serras com sangue e esqueletos de plástico. A sala colorida e alegre do infantário transformou-se e Luís, de 4 anos, não gostou nada. Aquele dia na escola parecia nunca mais acabar. Até as luzes da sala tinham mudado. Estava tudo mais escuro e assustador. O que se via melhor era um boneco de um gato preto que olhava fixamente para ele. Resultado do Halloween na escola: uma noite de pesadelos. 

Luís recriou tudo na sua cabeça. Cada vez que fechava os olhos, via um gato preto. Acordou a chorar cheio de medo que o gato entrasse no seu quarto. Até deixou de conseguir dormir sozinho. Foi através de terapia (ludoterapia e brincadeiras de faz-de-conta) que passado um ano percebeu que nada daquilo era real e finalmente deixou de dormir no quarto dos pais. Este foi um dos casos acompanhados pela psicóloga clínica, Carla Rothes, que já tratou outros miúdos com ansiedade e fobias causadas pelos festejos do Halloween. "A maioria das crianças tem entre 3 e 7 anos de idade", explica à SÁBADO. "Os sintomas que apresentavam era a recusa de dormir sozinhos, faziam chichi na cama e os terrores nocturnos. Isto durava um mês após a experiência do festejo na escola." 

Aos 7 anos, Pedro teve uma experiência parecida, mas que originou um comportamento diferente. Habituado ao seu pequeno mundo imaginário, ao presenciar aqueles festejos na sala de aula, imaginou uma figura alta e rosto branco inexpressivo com uma foice na mão. Desde esse dia que sonhava que a Morte entrava no seu quarto com a foice para o matar. Resultado: começou a fazer chichi na cama, coisa que não fazia desde os 2 anos. "Seguiram-se três anos de psicoterapia, em que se trabalharam os conteúdos da fantasia, do imaginário, do real, da morte", explica Carla. Só aos 10 anos é que Pedro conseguiu ultrapassar esse medo, mas continua a não querer participar nos festejos. "Os medos das crianças estavam relacionados com as figuras com que se confrontaram nos festejos e com o medo que aparecessem no quarto à noite e lhes fizessem mal", explica. 

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