A mulher que rejeitou casar com o violador

Ana Catarina André 25 de abril de 2017

Recusou casar-se com o homem que lhe tirou a virgindade e a raptou - e esta sua ousadia mudou a lei italiana

O plano de Filippo Melodia era igual ao de muitos jovens que viviam na Sicília, na década de 1960. Iria raptar e violar a rapariga por quem se apaixonara, Franca Viola, para que ela o aceitasse como marido. "Antes era normal que a mulher violada se casasse com o violador, porque se considera uma desonra ter em casa uma filha vítima de um acto destes", explicou Franca ao jornal espanhol El Mundo, numa recente entrevista - uma das poucas que deu na vida.

A 26 de Dezembro de 1965, Filippo e mais oito amigos ligados à Máfia entraram de rompante em casa de Franca, em Alcamo, a cerca de 70 km de Palermo. Sequestraram-na, juntamente com o irmão Mariano, de oito anos, e mantiveram-na em cativeiro uma semana. Nesse período, Filippo roubou-lhe a virgindade e agrediu-a várias vezes. Quando a polícia a resgatou, Franca estava triste e revoltada. E poucos dias depois, quando Filippo a pediu em casamento como forma de "restaurar a sua honra", deu-lhe uma resposta inédita: "Só me casarei com um homem que ame". Não só recusou a união, como fez queixa às autoridades.

Em 1966, Franca Viola tornou-se a primeira italiana a rejeitar o chamado "matrimónio reparador" - em 2014 o presidente italiano Giorgio Napolitano concedeu-lhe o título de Grande Oficial da Ordem do Mérito da República Italiana pela coragem. Até 1981, o código penal do país permitia que os autores de violação ou abuso sexual escapassem à prisão se se casassem com a vítima, mesmo que esta não tivesse retirado a denúncia. A violação era, então, vista como um crime contra a honra e não contra a liberdade sexual do indivíduo.

Para continuar a ler
Já tem conta? Faça login
Para activar o código da revista, clique aqui
Investigação
Opinião Ver mais