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Afonso Cruz revisita "Odisseia" em poema épico sobre poder, exploração e desumanização

Lusa 26 de outubro de 2026 às 17:03

A obra será publicada a 2 de novembro pela Companhia das Letras e recupera a personagem de Euríloco, um dos companheiros de Ulisses que escapa ao feitiço da feiticeira Circe.

O escritor Afonso Cruz estreia-se no poema épico com Canção de Circe, uma releitura da Odisseia, de Homero, que transforma o episódio da feiticeira que converte homens em porcos numa alegoria sobre a exploração e a manipulação das massas.

Afonso Cruz reimagina a "Odisseia" explorando poder, exploração e desumanização Mariline Alves

A obra, que será publicada a 2 de novembro pela Companhia das Letras, recupera a personagem de Euríloco, um dos companheiros de Ulisses que escapa ao feitiço de Circe, para construir uma narrativa centrada na desumanização, na perda da memória coletiva e nas relações de poder.

Na Odisseia, poema épico atribuído a Homero, que narra o regresso de Ulisses a Ítaca após a Guerra de Troia, Circe é uma feiticeira que habita a ilha de Eeia e transforma em porcos os homens que entram na sua morada, depois de lhes oferecer uma bebida enfeitiçada.

Este episódio é narrado no canto X da obra e apresenta uma particularidade: apesar de adquirirem a aparência de porcos, os homens mantêm a consciência humana, permanecendo prisioneiros de uma figura animal imposta.

Euríloco, que lidera o grupo enviado por Ulisses para explorar a ilha, desconfia da feiticeira e permanece no exterior do palácio, o que lhe permite escapar à transformação em porco e regressar para avisar Ulisses do sucedido.

Com a ajuda do deus Hermes, que lhe oferece uma planta capaz de neutralizar o feitiço, Ulisses consegue resistir aos poderes de Circe e levá-la a devolver a forma humana aos seus homens.

É a partir deste episódio da mitologia grega que Afonso Cruz constrói uma sociedade distópica, instalada numa ilha coberta pela fuligem e pelas cinzas dos fornos de Hefesto, deus grego do fogo e da metalurgia, revela a editora.

Neste universo, os porcos representam os "trabalhadores explorados e alienados", enquanto os lobos e os leões constituem a elite governante, cujos membros usam máscaras de porco para ocultar a sua natureza predadora.

A população "chafurda literalmente na lama", disputa migalhas e acredita "nas ficções cantadas pelas sereias", vivendo num eterno conflito que alimenta "a gula dos lobos", o poder dos governantes.

Nesta obra de Afonso Cruz, Euríloco, uma das poucas personagens que conservam a forma humana, surge atormentado pela dor e pela impotência perante uma sociedade em que a transformação dos homens em animais ultrapassa o plano meramente mitológico, para assumir uma dimensão política e social.

Enquanto na narrativa de Homero a transformação física não apaga a consciência humana, na sociedade distópica imaginada por Afonso Cruz a animalização surge associada à exploração, à alienação e à perda da memória coletiva.

Através desta releitura da mitologia clássica, o escritor constrói uma alegoria "sobre a desumanização, a perda de memória coletiva e a manipulação das massas", destaca a editora, que a descreveu como "uma obra de grande engajamento político".

Escritor, ilustrador, fotógrafo e músico, Afonso Cruz trabalhou também como cineasta durante mais de uma década e tem uma obra literária que atravessa géneros como o romance, o conto, a poesia, o ensaio, o teatro, a literatura de viagens e a literatura para a infância.

Autor de mais de 40 livros, traduzidos em mais de 20 línguas, recebeu distinções como o Prémio da União Europeia para a Literatura, o Prémio Fernando Namora, o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco e o Grande Prémio de Literatura de Viagens Maria Ondina Braga.

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