Sábado – Pense por si

Odete Severino Soares
Odete Severino Soares Professora Convidada da NOVA School of Law
26 de outubro de 2026 às 11:46

Quando um menor pratica um facto qualificado como crime: onde termina a proteção e começa a responsabilização?

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Edição de 20 a 26 de outubro

A prática de um facto qualificado pela lei como crime não retira ao jovem a sua condição de criança. A necessidade de responsabilização deve, por isso, ser concretizada através de uma resposta adequada à sua idade, ao seu desenvolvimento e à finalidade educativa da intervenção.

O debate sobre a delinquência juvenil e a resposta aos jovens que praticam factos qualificados pela lei como crime tem estado no centro da atenção mediática. Coloca-se um dilema ao sistema: como assegurar a responsabilização do jovem sem perder a natureza educativa e protetiva da intervenção?

Em Portugal, entre os 12 e os 16 anos, o menor não responde criminalmente. Se praticar um facto qualificado pela lei como crime, pode ser sujeito a uma medida tutelar educativa. A lógica não é a da punição penal, mas a da educação para o Direito, confrontando o jovem com o significado da sua conduta e criando condições para uma integração responsável.

O Relatório de 2025 da Comissão de Acompanhamento e Fiscalização dos Centros Educativos sublinha esta finalidade. A medida de internamento, a mais gravosa das medidas tutelares educativas, está reservada às situações em que as necessidades de educação para o Direito e de inserção responsável na comunidade se fazem sentir com maior intensidade. Por isso, não é uma pena em versão reduzida, mas uma intervenção educativa e individualizada.

Contudo, persiste alguma resistência ao recurso à intervenção tutelar educativa, por ser ainda percecionada como resposta punitiva, podendo conduzir à não comunicação ou à comunicação tardia de factos que deveriam desencadear a intervenção do sistema. Confundir intervenção tutelar educativa com punição pode, paradoxalmente, privar o jovem de uma oportunidade de educação para o Direito.

Os dados mostram também que muitos jovens chegam aos centros educativos depois de já terem sido acompanhados pelo sistema de promoção e proteção. O relatório de 2026 regista 165 jovens internados em abril, o número mais elevado desde 2018, e assinala a existência de muitos jovens provenientes do sistema de proteção e com problemas de saúde mental.

Esta realidade não diminui a gravidade dos factos nem elimina a responsabilidade do jovem, mas mostra que a resposta do Estado não pode começar apenas depois da prática do facto. A prevenção, a intervenção precoce, a escola, a família e a saúde mental são essenciais, mas não podem atuar de forma fragmentada. Muitos destes jovens já passaram pelo sistema de promoção e proteção, o que exige uma leitura integrada do percurso e uma maior articulação entre os dois sistemas. O acompanhamento deve prosseguir antes, durante e depois da medida, incluindo a preparação da saída e a reintegração na comunidade.

A prática de um facto qualificado pela lei como crime não retira ao jovem a sua condição de criança. A necessidade de responsabilização deve, por isso, ser concretizada através de uma resposta adequada à sua idade, ao seu desenvolvimento e à finalidade educativa da intervenção.

É precisamente nesta resposta diferenciada que reside a importância do sistema tutelar educativo: uma intervenção própria, centrada na educação para o Direito e na construção de condições para uma integração responsável na comunidade.

A intervenção tutelar educativa, dotada de ferramentas e estratégias jurídicas, psicológicas e de saúde mental adequadas, favorece a reintegração do jovem na comunidade e pode contribuir para interromper percursos de repetição de comportamentos ilícitos antes de estes evoluírem para formas mais graves de criminalidade.

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