É irónico, profundamente irónico, que um artista que se apresenta preocupado com os males do mundo, use e abuse do palanque público para classificar intelectualmente inferiores pessoas que se apresentem pró-Israel.
É difícil ser socialista, suspira o cantor. É, é. Senhorio em Lisboa e inquilino em Barcelona. Antes que algum jornalista da escola de Tânia Laranjo lhe descobrisse a careca, assim que surgiram manifestações pelo direito à habitação em Portugal, Salvador Sobral quis salvar-se, inspirado na velhaca tese que pessoa de esquerda e se preze não deve usufruir, ou mostrar os frutos, de uma conta bancária capaz de suportar a compra de imóvel. Ou dois. Ou quantos forem. Pode, era o que faltava, se quiser dividir o sumo pelas aldeias, avante. Não quer. Rui Rocha subiu cinco estrelas ao desafiar Sobral a receber uma renda irrisória ou renda nenhuma. Dessa forma, a dificuldade de seguir o socialismo amornava. Há cestos de ideias para este tipo de assunto hipócrita.
O perigo não é o idiota ter várias ideias. A ameaça, grave, assume dimensão maior e acontece quando o idiota fecha-se na absoluta certeza que já sabe tudo. O filósofo Kant arrasa os maravilhosos sabichões: apenas o sábio muda de opinião, enquanto o idiota permanece inflexível. Por tal caminho anda gente fina na genealogia e grossa na rotina existencial.
Não deixa de ser uma contradição trágica que um cantor que venceu Festival Eurovisão da Canção com uma mensagem universal sobre o amor e coisas fofas e fofinhas, se esqueça que empatia, e respeito, não se aplicam unicamente aos moribundos que rezam pela mesma cartilha ideológica.
É irónico, profundamente irónico, que um artista que se apresenta preocupado com os males do mundo, use e abuse do palanque público para classificar intelectualmente inferiores pessoas que se apresentem pró-Israel. Esta visão desfocada dos valores- ser pró ou ser anti — é a prova da imensa incapacidade de compreender o significado de viver em democracia. Sabe do peso desse ouro, porém, prefere o pechisbeque da tirania disfarçada na cadência açucarada de se posicionar à frente. Para trás, como disse Vasco Santana às tias interesseiras na deliciosa Canção de Lisboa. Assinou Salvador Sobral um manifesto de vaidade e intolerância democrática pelo atrevimento de catalogar gente. Almas a favor de Israel são, como referido, inferiores ao nível intelectual. Subentende-se, então, que criaturas que não sejam a favor de Israel, serão altamente intelectuais, superiores no intento.
O conflito no Médio Oriente é uma das maiores tragédias geopolíticas da história moderna, atravessado por décadas de traumas, falhas diplomáticas, terrorismo, dor humanitária e narrativas concorrentes. Reduzir o alinhamento ou a análise desse cenário a um teste de QI — onde aquele que discorda do cantor Sobral é automaticamente rotulado como "inferior" — revela um simplismo infanto-juvenil. É o cúmulo do privilégio dos coitados que observam o sofrimento humano a partir do conforto de um feed de Instagram, transformando-no num acessório de estética moral.
A inteligência não se valida pelo insulto fácil nem pelo cancelamento preventivo daqueles que pensam diferente. Opta Sobral pela via preguiçosa: a da desumanização do debate através da soberba intelectual.
Ao fechar as portas ao diálogo e ao rotular milhões de pessoas com um complexo de superioridade digno de nota, o cantor faz precisamente o oposto daquilo que a arte promove. Em vez de pontes, constrói muros de arrogância. O rapaz que outrora venceu a Eurovisão a cantar que "o mundo é só pressa" parece agora ter pressa em julgar a mente alheia. Confundir divergência de opinião com incapacidade cognitiva diz muito mais sobre a fragilidade dos argumentos de Salvador Sobral do que sobre a inteligência de quem ele tenta, sem sucesso, rebaixar.
Salvador Sobral tem todo o direito de ser uma voz ativa na defesa da causa palestiniana e de criticar duramente a política externa de qualquer país. No entanto, ao escolher o caminho do elitismo intelectual para desqualificar o debate, acabou por empobrecer a sua própria causa. Decretar quem possui legitimidade cerebral para pensar de determinada forma, cai precisamente no autoritarismo intelectual que tanto diz combater. Diz, mas não combate coisa nenhuma. A verdadeira sofisticação intelectual reside na capacidade de compreender as narrativas do outro, reconhecer as ambiguidades do terreno político e debater com argumentos. Luzes nunca alcançadas pelo cantor artista poeta que um dia, em pleno concerto de solidariedade pelas vítimas da tragédia de Pedrogão,
Grande, gozou com a assistência e ofereceu-lhe a libertação de gases acumulados no sistema digestivo. Tal e qual. E não era um arroto.
É irónico, profundamente irónico, que um artista que se apresenta preocupado com os males do mundo, use e abuse do palanque público para classificar intelectualmente inferiores pessoas que se apresentem pró-Israel.
Quando o Estado erra na aplicação técnica do seu método mais sofisticado, a execução distancia-se de um acto de justiça e aproxima-se da tortura médica exposta. Isolar um indivíduo para administrar substâncias químicas que partem o corpo a conta-gotas destitui o processo da dignidade que a lei constitucional norte-americana teoricamente ampara, através da proibição de castigos cruéis.
Esmurrar a honra de um ministro baseado nas filiações associativas, religiosas, desportistas, fraternais, as que forem, convoca os terríveis espasmos de caça ideológica do felizmente falecido Estado Novo.
Paulinho, cada vez que elevar Castro e castristas, ri-se do mar das Caraíbas, tingido de vermelho e do sangue dos camaradas que não quiserem ser camaradas.
Há famosíssimo (?) que aproveita a nega que deu para agora abrir o altifalante. Não foi, não foi. A sua tanta falta sentiu-se como um bikini na Sibéria.
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