Assim que termina a conferência na Faculdade de Letras da Universidade Babes-Bolyai de Cluj, António Lobo Antunes tem o impulso de sempre: vai ao bolso das calças, tira um maço de Marlboro e acende um cigarro. Uma mão apoiada na perna, a outra na mesa, é notório como fumar lhe dá prazer e necessidade.
No corpo de 72 anos, que agora se move pesadamente, tinha já ratado (a expressão é sua) um cancro nos intestinos. Mais tarde, apareceria outro cancro no pulmão direito, e ainda veio mais outro, que se dedicou ao pulmão esquerdo. "Tive três cancros e sobrevivi. Tive imensa sorte", diz-nos. "As doenças estão todas curadas, mas saíram-me do pêlo. Foi duro..."
Doutor honoris causa pela Universidade Babes-Bolyai. Leu um discurso em francês e emocionou-se com o Hino da Europa
A palavra Nobel aparecia em todo lado: nos artigos que os jornalistas romenos fizeram da sua visita, nos cartazes do Festival Internacional do Livro da Transilvânia, nas perguntas que lhe faziam e nos discursos oficiais. O rótulo Nobel, o estatuto de celebridade, parecia valer mais do que a obra – na Roménia, apenas seis dos seus livros estão traduzidos. Tudo o oposto do que Lobo Antunes defende, ele que gosta de dizer que "o que interessa são os livros, não é o autor".
Na véspera da atribuição do prémio encontramo-nos com Lobo Antunes a jantar no hotel. A dada altura, a mulher, Cristina Ferreira de Almeida, levanta-se. "Vou ao quarto buscar o telefone, deixei-o a carregar. Just in case [Para o caso de]..."
A razão é simples: Lobo Antunes não tem telemóvel. "Nunca tive. Também nunca tive computador. Não sei mexer naquilo." E segundo ele, a Academia sueca liga na véspera. "Não ganho... Se ganhasse já tinham telefonado. Vão dar ao queniano [Ngugi wa Thiong’o]. Ligam na véspera porque têm de dar ao tradutor o discurso. Por acaso o Mario Vargas [Llosa] só soube uma hora antes. Ele telefonou-me logo."
Perguntamos-lhe se ficaria contente por receber o Nobel. "Sei lá..." Pela cara que faz percebe-se que não é um "sei lá" dissimulado, é um "sei lá" que quer dizer "como posso saber a minha reacção a um acontecimento se ainda não passei por ele?". Mas deixa uma pista: "Até agora não tenho sido uma pessoa especialmente muito alegre."
Lobo Antunes viria a saber da atribuição do prémio ao francês Patrick Modiano quando já estava em viagem para Lisboa.
Criador de frases A organização limita-se, portanto, a improvisar cinzeiros. Na tenda de conferências e lançamentos do Festival do Livro da Transilvânia foi uma folha A4. Na Faculdade de Letras, um copo de plástico – "É melhor enchê-lo com água..."
Tinha sido uma conferência animada, com Lobo Antunes a mostrar uma faceta totalmente diferente da imagem que tem em Portugal. Falando em francês, estava leve e descontraído. À saída, dizemos-lhe isso mesmo. "Quis fazer uma coisa divertida, sabe. Se isto não for divertido..." Parece não querer dizer mais nada, mas depois pára e acrescenta, num tom de quem vai corrigir uma injustiça: "Eu não sou assim tão trombudo como aparento. Não gosto é de aparecer. Há -de ver que em Portugal ninguém me vê."
Aligeirar as coisas foi uma forma de atenuar o cansaço. A dada altura desta reportagem, depois de um dia de agenda cheia, perguntamos-lhe se está com fome. "Não. Estou farto de me chamar António Lobo Antunes." Di-lo secamente.
Lobo Antunes é especialista em tiradas definitivas e citáveis. Por exemplo, quando está a visitar a aldeia onde cresceu o seu grande amigo romeno, Dinu Flamând, este decide oferecer-lhe uma maçã colhida no momento de uma árvore do seu pomar. É uma visita com muito peso simbólico para os dois (ver caixa) e Lobo Antunes recusa comê-la ali, pede para a guardarem e a levarem para Lisboa. "Não quero comer a tua infância", diz.
Muitas destas frases e expressões têm sido repetidas ao longo dos anos em várias entrevistas, mas outras (como a da maçã) inventa no momento, com enorme facilidade em qualquer contexto, como se já as tivesse criado há anos e guardado no bolso à espera dos acontecimentos em que se encaixassem para então poderem ser finalmente ditas – Lobo Antunes haverá de concordar com esta forma de pôr as coisas, porque não acredita na inspiração e vê a criação literária como um processo mecânico, quase fabril.
Com Dinu Flamand, amigo de longa data, na sua aldeia natal, na Transilvânia:
Com Dinu Flamand, amigo de longa data, na sua aldeia natal, na Transilvânia
Muito provavelmente, a frase da maçã não foi para Lobo Antunes um rasgo de inspiração, terá sido o equivalente a ter fabricado uma cadeira numa carpintaria. Veja-se o que diz sobre a forma como escreve livros: "Sento-me à mesa e fico à espera. É preciso que uma parte da cabeça se feche e se abra a outra que normalmente não funciona. Umas vezes vem logo, outras não. Às vezes estou um dia inteiro assim. Comecei a escrever aos 6, 7 anos, não foi uma escolha deliberada. Tem-se a impressão de que fomos escolhidos, que não somos o autor, que somos apenas um transmissor."
Num dos almoços que presen-ciámos, alguém, a dada altura, começa a falar. "Sabe, eu gostava de ter o talento..." Lobo Antunes interrompe logo para dizer uma das suas frases típicas, que gosta de repetir. "Não há talento, há bois..." Silêncio à mesa. "Só há bois a marrar."
A língua de fora e a bossa nova "Estou farto de me chamar António Lobo Antunes", repete. "Isto tem um lado de que não gosto muito, de exposição pública." Havia o cansaço físico, mas também o feitio muito especial de um homem que assumidamente se diz feliz (ele diria talvez "menos infeliz") se o deixarem em paz, sossegado no seu canto.
"Estou cansado do António Lobo Antunes. Porque vamos a um restaurante e as pessoas... [faz o barulho de fotografias], ficam a olhar o tempo todo." A que restaurante vai? "Sempre ao mesmo", responde. A mulher acrescenta: "Fica mesmo em frente a casa, é só atravessar a rua..." Todos riem. "E peço sempre a mesma coisa. Sempre. Se gosto, porque é que haveria de mudar? Portanto tenho uma vida muito monótona", diz o escritor, que depois é capaz de momentos leves como nesta conferência na Roménia, em que sai da redoma onde diz querer estar sempre metido para brilhar num palco.
Estrela da Feira do Livro da Transilvânia, em Cluj:
Estrela da Feira do Livro da Transilvânia, em Cluj
Lobo Antunes divertira a audiência sobretudo com histórias do meio literário, especialmente vencedores do Nobel com quem privou. Disse que Mario Vargas Llosa tinha uma foto dele no escritório – "suponho que é pela minha beleza", numa referência ao afamado estilo de galã do escritor peruano. Contou que não ficou particularmente fã de V. S. Naipaul. E lembrou uma das últimas conversas que teve com Gabriel García Márquez, com este já doente, sobre uma certa noite de núpcias. "Ele tinha uma avó que adorava, e esta um dia disse-lhe, já moribunda, ‘não quero que me enterres ao lado do avô’. Mas porquê? ‘Estás a ver aquela fotografia onde estamos os dois no dia a seguir ao casamento? Ele estava sentado porque já não se aguentava, e eu estava de pé pela mesma razão. Agora vê que ele está à minha espera há 14 anos...’"
Se as histórias e o estado de espírito de Lobo Antunes tinham sido surpreendentes, o melhor talvez ainda estivesse para vir nesse fim de manhã na Faculdade de Letras da Universidade Babes-Bolyai. Seguir -se -ia uma sessão de autógrafos.
Lobo Antunes não apressa nada. Tudo corre ao seu ritmo.
Conferência e sessão de autógrafos na Faculdade de Letras, Cluj:
Conferência e sessão de autógrafos na Faculdade de Letras, Cluj
Quando lhe estendem um livro, olha sempre para a cara da pessoa – fixa-a durante dois segundos e depois baixa a cabeça. Olha para a capa, depois para a contracapa, depois para a capa outra vez. Tenta perceber que livro é aquele que está traduzido para romeno. Gosta de passar a mão pelas capas, para lhe sentir os relevos e a qualidade do papel – faz isso também nas folhas. E com isto sai -lhe mais uma tirada: "Há um poema do David Mourão Ferreira... ‘Papel, a pele que mais tenho tocado.’"
Agradece sempre em português. "Muito obrigado." A uma jovem que está vestida com uma saia e umas meias até ao joelho diz em francês que gosta muito da indumentária – ela não percebe e ri-se.
Entretanto, Dinu Flamând aparece e Lobo Antunes passa-lhe a mão pela cabeça. "Gosto do teu ar mongol." Acende outro cigarro. Não percebe o que quer dizer o título do livro que mais está a autografar,
Inima Inimi. É a sua mais recente obra na Roménia e é uma compilação de crónicas. Explicam-lhe que quer dizer
O Coração do Coração e é o título de um dos textos. "
Inima Inimi... É mais sensual do que em português." Uma rapariga pede uma foto e põe-se ao seu lado. Dinu afasta-se, empunha a máquina e Lobo Antunes deita a língua de fora, ri-se, e deita outra vez. Depois faz uma careta.
O grande momento vem no fim. Uma jovem romena que fala português abrasileirado (há centenas de estudantes de português na Roménia e muitas novelas da Globo a passarem na televisão) traz-lhe vários livros para autografar. "Assine os que quiser", diz ela. "Ora essa, assino todos."
A fã romena que o pôs a cantar:
A fã romena que o pôs a cantar
Minutos depois, conversa puxa conversa, estão os dois a cantarolar bossa nova (pode ver o vídeo deste momento inusitado em www.sábado.pt). Os dois começam com
Desafinado, de Tom Jobim, e rapidamente passam para
Chega de Saudade (também de Tom Jobim) e
O Pato, de João Gilberto.
Pelo meio, Lobo Antunes canta
Amor É Água Que Corre, de Alfredo Marceneiro. Uma oportunidade para a estudante lhe perguntar de que fados gosta. "Não gosto", diz Lobo Antunes, para estupefacção da rapariga, que desconhece o desprezo que o escritor tem pelo género musical. "Não entendo as letras..." Ela pergunta-lhe por Mafalda Arnauth. "Não conheço."
A proximidade da morte Não são só os 72 anos e os três cancros que lhe pesam, parecendo que tem muito mais quilos do que o que a balança lhe diz – num discurso que fez de pé, apoiou o corpo com os dois punhos bem firmados na mesa. São também as mortes na família que o abalam.
O irmão Pedro morreu no Natal passado, a mãe há poucos dias. "Como me senti? Respondo-lhe: como se sentirá no dia em que a sua mãe já não estiver cá."
Na Transilvânia
Os cancros são uma sombra. "Do pulmão fiquei bom, mas hão -de vir mais, não é? Não sei onde. O que faço é o que toda a gente devia fazer. De três em três meses quero um exame. Tenho visto morrer pessoas de 20 anos com cancro, com uma rapidez do caraças."
O tema surge mesmo em conversas que começam banais. Por exemplo, num jantar, a mulher queixa-se que ele tem os prémios todos guardados num armário. Quer dar-lhes dignidade, expô-los, pôr umas portas de vidro. Ele não quer, acha que é vaidade, e isso vai contra a sua natureza (Lobo Antunes tem uma visão muito espartana das suas emoções). "Não sou caçador nem jogador de futebol. Se fizessem um museu não me importava nada de dar aquilo tudo."
Gostava de ter um museu? "Depois de morrer, acho que sim, é tanta coisa." Porque é que não pode ser em vida? "Pode, mas é um bocado cagança, não é...? Se fizerem em vida também não acho mal. Não vou ficar cá muito mais tempo." Porque é que diz isso? "Não sei, tenho esse sentimento. O que é que eu estou cá a fazer? O que é que posso esperar da vida? Amigos? Escrever? Já fiz uma série de livros." Está a lançar quase um por ano. Porquê? "Agora, sim. Tenho dado mais tempo... Com os cancros comecei a sentir a proximidade da morte, ainda tinha livros para dar cá dentro, ainda tenho cá alguns."
Lobo Antunes discorre tristeza com a mesma naturalidade com que come gelado de baunilha, a única sobremesa que pede às refeições. "Eu acho que ainda sou um miúdo. Sempre me senti um miúdo. Toda a gente me engana. Acredito em toda a gente. Sou parvo... Sou parvo... Se não tivesse uma agência, pessoas que tomem conta de mim... Não sei tomar conta de mim. Só faço parvoíces. [Vira-se para uma das pessoas à mesa] Tenho inveja de si. Você é feliz e eu não sou. Nunca fui. Alegria e ser feliz, nunca fui..."
No hotel em Cluj
Mais tarde, dir-nos-á algo que para muita gente soa a terrível: "Acho que tive a sorte de não ter sido amado. Porque me obrigou a fazer outras coisas. Imagine-se que aquilo era uma mariquice de beijinhos e abraços."
"Aquilo" é a sua infância, particularmente o pai, que lhe dava "porrada de criar bicho".
"O meu pai nunca falava connosco, era horrível. Não se falava à mesa, conheço mal os meus irmãos. Para o meu pai a sua vida era uma coisa muito pessoal, não se partilhavam emoções com ninguém e não queria que o fizéssemos com os outros, não fazia perguntas. Batia-me, mas não me falava. Bater-me era uma chatice, doía-me... As vezes penso se não estava desesperado para poder falar, e não era capaz. Por pudor. Por um sentimento de autoridade qualquer. Não me lembro de sentir a boca do meu pai, nunca me beijou, não me lembro de estar ao colo dele, não me lembro de ver beijar um irmão meu. Porrada sim, isso não faltava. Deu-me sovas homéricas. E no entanto sinto-lhe a falta. Depois de morrer, o meu pai começou a mudar dentro de mim, agora estou completamente em paz com ele e acho que lhe devo muita coisa, cada vez acredito mais nisso. O defeito mais feio que um homem pode ter é a ingratidão. Era um homem que me obrigava a ler, que detestava a imperfeição, a preguiça, que tinha esses defeitos todos de violência e brutalidade, mas que era o homem mais honesto que conheci, nunca o apanhei numa mentira, numa contradição, nada. Por exemplo, um tipo fugir aos impostos – ele não compreendia."
Do pai herdou ainda a coragem física. "Uma vez perguntei às minhas filhas: ‘Qual é a qualidade que vocês acham que eu tenho?’ Puseram-se a pensar uma data de tempo e disseram: ‘É valente’. Foi a única coisa que responderam. O meu pai era um homem muito corajoso fisicamente, que é uma coisa que admiro e é para mim muito importante. Eu acho que sou corajoso, não sei, o que é que tu achas? [Faz a pergunta à mulher.] "És um bocadinho brigão, até, mais do que corajoso, sempre a querer a andar à pancada...", responde ela, a sorrir. "Eu adorava andar à pancada, ainda gosto."
Com a mulher, Cristina Ferreira de Almeida:
Com a mulher, Cristina Ferreira de Almeida
O pai também nunca lhe disse o que achava da sua escrita. "Soube o que foi dizer aos meus irmãos. ‘O António tem faísca’, que é o maior elogio que ele podia fazer. No entanto ele morreu, fui ver os livros, e tinha-os todos anotados, notas dele, ‘aqui está óptimo’, ‘aqui teria sido preferível’ não sei quê, escrevia aquilo para ele. Nunca me disse nada, nem uma palavra."
A lentidão É uma frase do pai ("o amor das coisas belas", que disse antes de morrer depois de questionado sobre o que queria deixar aos filhos) que Lobo Antunes cita muito – nestes dias na Roménia, fá-lo várias vezes, em discursos e entrevistas. Há outras repetições, às vezes no mesmo dia.
Por exemplo, a história da mulher que lhe apareceu na rua, muito bem vestida, a dizer que tinha fome. E que se sente um Julio Iglesias da literatura portuguesa devido à popularidade na rua. Gosta também de fazer uma referência aos autores preferidos (nomeadamente Proust, Conrad e Tchekhov) e ao grande amigo José Cardoso Pires. E frases: "Os escritores estão sempre a posar de perfil para a posteridade", "Os bons livros são os que nos apanham como uma doença" e "É tudo a poder de lágrimas e ais".
Na Roménia, ninguém repara, ninguém parece importar-se. Tal como em Portugal, Lobo Antunes consegue falar longos minutos (há respostas a jornalistas que demoram mais de 10 minutos) sem ninguém ousar interrompê-lo, mesmo que fale baixo, devagar e pausadamente, mesmo que, como é frequente, numa mesma resposta divague sobre uma série quase infinita de assuntos.
Conferências e sessões com jornalistas romenos em Cluj e Bistrita:
Conferências e sessões com jornalistas romenos em Cluj e Bistrita
Talvez se deva ao facto de muitas vezes lhe fazerem as mesmas perguntas, ainda mais nestas digressões pelo estrangeiro. Porque escreve? Porque decidiu tornar-se escritor? Como nasce um livro? Qual é o sentido da sua obra?
E Lobo Antunes limita-se a ligar o piloto automático: "Se pudesse responder a isso, não escreveria, de certeza absoluta. Escrever é uma coisa que se faz e de que não se fala. Não se fala da forma como fazemos amor com a nossa mulher. Fazemos simplesmente amor. E sou muito tímido, geralmente não falo com ela sobre o livro. Digo-lhe sempre que estou a escrever merda. Todos os dias. Se pensamos que o que estamos a fazer é bom, não é bom. Mas para escrever temos de estar convencidos de que somos o melhor, temos de escrever contra os escritores de que gostamos. Neste momento não sinto que seja o melhor e estou furioso."