"É uma classe média entalada, muitas daquelas pessoas nunca foram a manifestação nenhuma", realça, considerando que "o Governo está completamente enganado na leitura que faz", afirma.
A arquiteta e ex-deputada Helena Roseta vê nas acampadas pelo direito à habitação "manifestações de inteligência coletiva", das quais participa "uma mistura" de gente, destacando-se "uma classe média entalada", e "está a nascer uma nova geração de liderança".
Acampadas pela habitação começaram a 10 de outubro, no Porto Frame Medialivre
Deputada à Assembleia Constituinte, em 1975, Helena Roseta tem assistido com regularidade às assembleias populares que decorrem na Praça D. Pedro IV, em Lisboa.
"São manifestações de inteligência coletiva, que se está a construir, por isso é que me interessa muito ir lá vê-las, ir lá ouvi-las, perceber quem é que está (...), quem são estas pessoas", disse, em entrevista à Lusa.
E quem são, na sua opinião? "É uma classe média entalada, muitas daquelas pessoas nunca foram a manifestação nenhuma", realça, considerando que "o Governo está completamente enganado na leitura que faz".
Entre os manifestantes há também "uma gente que vem do antigamente" e "miúdos já muito mobilizados, com consciência política, que são muito radicais e exigentes e querem uma mudança urgente".
Mas há sobretudo "muita gente que simplesmente está a dizer 'isto não dá, já não dá, não funciona, não conseguimos'", vinca.
O movimento em curso tem características semelhantes e novas em relação a anteriores, mas o que não tem "é uma infiltração dos partidos de esquerda", sublinha.
"Não é nada disso, há gente ali que nunca esteve em sítio nenhum, são pessoas que querem participar, mas nem encontram forma de participar nos partidos existentes" e "gente muito nova que está a participar pela primeira vez", descreve.
"Não perceber isto é não perceber nada do que se está a passar", remata, instando os governantes a irem às manifestações, "sem intentos mais ou menos persecutórios", para verem como "estão enganados na leitura".
No atual cenário, a ex-deputada -- eleita, em momentos diferentes, em listas dos PPD/PSD e do PS -- não duvida da relevância de António José Seguro no atual cenário de tensão política e social.
"É o tempo do Presidente, o Presidente da República tem um papel central em momentos de grande perturbação social, tem de usar o poder da palavra, o poder da influência, (...) para acalmar as hostes, para criar espaço de mediação", apela, elogiando Seguro por, "através da Casa Civil, dar a indicação de que quer ouvir os manifestantes" pelo direito à habitação.
Na opinião de Helena Roseta, o ministro da Administração Interna "já deu o que tinha a dar" e foi "um erro de 'casting' monumental", pelo que "tem de ser rapidamente substituído".
Luís Neves "está a ser o fautor destas trapalhadas, porque é dele que saem as ordens, o primeiro-ministro esconde-se", critica a arquiteta, recordando que, em 2000, quando era Presidente da República, Jorge Sampaio, "também fez uma pressão enorme" sobre o igualmente socialista António Guterres, quando este era primeiro-ministro, para demitir o então ministro do Desporto, Armando Vara, e o "problema" dessa altura não era de "autoridade, mas de natureza ética".
Sabendo que a composição do Governo é da competência de Luís Montenegro, "o Presidente tem uma palavra a dizer ao primeiro-ministro quando as coisas estão a ultrapassar os limites do que é razoável, que é o caso", entende.
Os manifestantes detidos nas intervenções policiais -- "com pretextos que ainda estamos por apurar" -- "arriscaram muito", nota, recordando que foram acusados de crime de desobediência qualificada, o que tem uma moldura penal até dois anos de prisão.
"Isso faz-me ter ainda mais consideração por eles", admite, ressalvando que "a desobediência à autoridade só é crime se for uma ordem legítima".
Tendo como "critério" a Constituição -- que ajudou a redigir --, Helena Roseta recorda que está lá o direito de manifestação e o direito à habitação.
Ora, a lei fundamental "diz que cumpre ao Estado estabelecer um sistema de renda compatível com o rendimento familiar", cita a autora da Lei de Bases da Habitação.
"Onde é que isso está, o que é que estão a fazer para que isto seja compatível? 'Ah, estamos a fazer muitas medidas para aumentar a oferta'. Quanto tempo é que isso demora? Compatível com o rendimento familiar já, há muita gente que já está a pagar coisas completamente fora da sua capacidade. Que medidas é que estão a tomar para isto?", questiona, acusando o Governo de aprovar "uma lei que ainda agrava isto, que ainda permite subir mais o valor das rendas, que ainda permite despejar as pessoas com prazos mais curtos, de uma forma mais expedita e com contratos que não chegam a três anos".
Para Roseta, a nova lei do arrendamento urbano -- já aprovada na generalidade, no parlamento, com os votos a favor de PSD e CDS-PP e a abstenção do Chega -- "é completamente contrária ao que está na Constituição".
Nas ruas, a arquiteta tem sentido "indignação e revolta", observando um movimento social em "estado nascente", como classificou o sociólogo italiano Francesco Alberoni, e "isso é uma coisa que dá um entusiasmo enorme", nota a também ex-autarca (presidente da Câmara de Cascais, vereadora da Câmara de Lisboa, presidente da Assembleia Municipal de Lisboa).
As acampadas têm demonstrado "um esforço muito grande" de se organizarem "sem ser pelo modelo tradicional dos partidos políticos", de liderança e bases.
Esta "inovação democrática" tem de ser acompanhada: "Nós precisamos de aprender a ter lideranças partilhadas. A liderança tradicional, que é inspirada nos exércitos e nas igrejas, já deu o berro. O mundo já não funciona assim."
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