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(Enviada semanalmente)
Cada escudo era contado, mas – talvez porque o melhor eram as pessoas – não faltou comida nem roupa. A casa mudou e a vida também. Hoje, nada parece ultrapassar o renovado consolo que lhe trazem as intempéries: “a chuva fica lá fora”.
O quarto acomodava dois, às vezes três, raramente quatro membros da família. Partilhavam uma casa de banho com outra hóspede de outro aposento. Pelo que a oportunidade era a casa – haveria mais quartos e talvez emprego. A sinalização familiar dava alguma esperança e era altura de rumar umas boas dezenas de quilómetros a norte.
Impunha-se a viagem de madrugada – uma aventura numa carrinha, gentilmente conduzida por conhecido a quem se pagariam as despesas. Tudo montado, o acordar já se fez de colchão sobre o soalho.
A barata. Muitas décadas se passaram, mas aquela barata a sair debaixo do colchão é imagem que não se esquece. A barata, a luz ofuscante dos estremunhados, o colchão. Não gosta de baratas. Ninguém gosta. Sempre que vê uma convoca-se a que com ele acordou.
Colchão na carrinha a completar a carga da véspera. E a aventura avançou pela estrada.
A chegada foi uma excitação infantil. A casa era grande, mas as surpresas não ficavam atrás: tinha uma praga de pulgas (os grandes andaram a espalhar um pó que era preciso evitar), as paredes buracos, o chão e o teto porosidades com vários palmos. Algumas janelas mereceram vidros, outros quadrados tiveram a transparência de plásticos. Não era mau, já que havia vidros em quase todas, para além da piada de várias serem de guilhotina e de precisarem de um jeito para não ficarem encravadas a meio.
A largueza oferecia um sótão onde era perigoso entrar por causa da madeira apodrecida – uma aventura, com acesso ao telhado e vista para o moribundo mastro de antena que só anos mais tarde deu sinal à televisão. Até lá, porque não havia dinheiro para caixa nova, nem para ligações competentes, as quartas à noite – e as suas sessões de cinema –, ou os fins de semana, davam direito a excursão à casa de familiares que viviam com luxos como elevadores e chão sem buracos.
A eletricidade circulava entalada por pregos em forma de gancho e caía sobre as zonas essenciais. Comprar casquilhos era um investimento.
Ladeando a chaminé – que um dia se desmoronou um bocado –, havia um teto apodrecido de onde “chovia como na rua”; e, claro, estudava-se numa bamboleante mesa de cozinha sobre a qual pendia o caro casquilho e a lâmpada humedecida pelas gotas que teimavam passar pelas telhas partidas. “Um dia, há aqui uma desgraça!”
Os melhores quartos, naquele labirinto de paredes caiadas (aquela coisa que se fazia no Alentejo e que deixava as casas lindas) e de buracos mal disfarçados, tinham os dois habitantes. Ele beneficiava do quarto dos fundos, depois de impor a mudança porque já era crescido. Em baixo, uma pensão onde algumas senhoras levavam clientes e faziam uns barulhos; no piso térreo, uma oficina de motas madrugadora – esse incómodo despertador que funcionava também aos sábados de manhã.
No quarto seguinte, brincava-se e faziam-se experiências científicas, como deslizar acetona pela carcaça de uma Bic, fazendo passar os pingos, na extremidade, por um fósforo aceso. As gotas de fogo deixaram marcas no chão, mas não foi nada que merecesse repreensão adulta, talvez por se confundirem com o que já lá estava, não denunciando o perigo do entretenimento infantil.
A cozinha – a da chaminé e da mesa bamboleante – tinha sítios onde se enfiava o remédio para os ratos (o que levou o homem da drogaria a perguntar jocosamente se estariam doentes). Havia ratoeiras onde apenas caíam os mais pequenos. Um dia, ouviu-se estalar e o jovem estudante contou seis, um ou outro a tentar fugir, mas preso pela cauda. Nada que uma pá e uma vassoura não resolvessem. Os outros – os grandes – secavam com o veneno, o que era ótimo e resolvia temporariamente as assustadoras patadas que se ouviam entre o teto e o telhado dos quartos. Em certas alturas, era preferível imaginar que seriam gatos, ainda que nunca se ouvisse miar.
Não havia água quente, pelo que a higiene tinha uma sequência própria. Aquecia-se a água num panelão e transportava-se, sem derrames nem queimaduras, até à casa de banho. Uma bacia que ocupava a largura da banheira estava posicionada a meio desta, debaixo da torneira. Depositada a água a ferver, a torneira permitia ir temperando. De cócoras, na extremidade da banheira junto ao ralo, posicionava-se o pronto a assear. Um copo de plástico – daqueles para as escovas de dentes – levava a água da bacia ao topo da cabeça. Sabia tão bem aquela água quente na cidade fria. Champô, sabão e nova operação com o copo. Nesta fase já podia ir para dentro da bacia. A casa de banho tinha uma inclinação, sendo mais baixa junto à banheira, pelo que ficar de pé significava bater no plástico que sustinha alguma madeira apodrecida e deixar cair vestígios de decrepitude no lugar da limpeza. Para quem foi educado no hipercontrolo da higiene pessoal era bem mais do que um contratempo.
O melhor eram as pessoas: a roupa que davam, os livros que pagavam, o azeite que traziam, as tábuas que tapavam buracos sem pedir um tostão; aquela cama que se foi buscar à antiga casa de alguém; ou a secretária para estudar que um amigo se lembrou que podia servir.
Havia o senhor da loja da frente, quando se comprava roupa nova. Ou o da avenida mais abaixo. Desmanchavam tudo para se experimentar o barato, sabendo que, muitas vezes, não se levava nada. O melhor eram as pessoas.
Cada escudo era contado, mas – talvez porque o melhor eram as pessoas – não faltou comida nem roupa (de outros, às vezes curta, muitas cerzida).
A casa mudou e a vida também. Hoje, nada parece ultrapassar o renovado consolo que lhe trazem as intempéries: “a chuva fica lá fora”.
Cada escudo era contado, mas – talvez porque o melhor eram as pessoas – não faltou comida nem roupa. A casa mudou e a vida também. Hoje, nada parece ultrapassar o renovado consolo que lhe trazem as intempéries: “a chuva fica lá fora”.
Ser pai é lembrar-se da queda do muro de Berlim, ter jogado à estátua ou ao bate-o-pé e conhecer ao mesmo tempo a Abelha Maia, o Gumball, as Winx ou iCarly. Tudo culminando num debate sobre as regras do “carro amarelo”.
Com o “Doutor Pascoal” a ciência era só um sintoma do homem honesto. Conhecia-me de ginjeira, sabia perfeitamente que eu era muito menos do que parecia, que tinha as minhas ambições e peneiras. Pascoal era o oposto: discreto e silencioso; sólido. Ele era a enciclopédia e eu uma espécie de resultado de pesquisa de IA.
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