Sonhou-se (talvez se sonhe) de várias maneiras. Do que tem mais saudades é de sonhar-se compositor. Realiza-se advogado, roubando tempo para compor em palavras o que já não sabe escrever em pautas.
Sonhou-se (talvez se sonhe) de várias maneiras. Do que tem mais saudades é de sonhar-se compositor. Realiza-se advogado, roubando tempo para compor em palavras o que já não sabe escrever em pautas.
Com o “Doutor Pascoal” a ciência era só um sintoma do homem honesto. Conhecia-me de ginjeira, sabia perfeitamente que eu era muito menos do que parecia, que tinha as minhas ambições e peneiras. Pascoal era o oposto: discreto e silencioso; sólido. Ele era a enciclopédia e eu uma espécie de resultado de pesquisa de IA.
Aos poucos, já começava a "sonhar para a frente e a sorrir para trás", recuperando a mensagem adormecida de uma curvada idosa e a sabedoria dos levadeiros que preferiam encaminhar a água para fazer vida a desperdiçar vida à espera da água.
O restaurante ficava perto da Igreja de São Roque, com a promessa de descida ao Cais do Sodré para lavar as vistas com nacionais e estrangeiras, já que era importante que eu não me esquecesse de que "há mais mundo".
As semanas passavam e sentia-me de castigo, à experiência, como se me coubesse conquistar a confiança. Mas sonhava-nos velhos. E ela sorria, afagava-me a mão, brindava-me com um jogo de pés, já se pendurava no braço. Estávamos a evoluir. Só começámos devagar.
A semana passou devagar. E escondi. Escondi o mais que pude. Do "super slim", do convertido, das miúdas, de toda a gente. Escondi para que não me demovessem. Não se pede o conselho que não se quer.
A mala e a minha organização eram o primeiro desconfortável conforto de quem tem demasiado controlo sobre as suas rotinas. Não havia ninguém para me desempoeirar.
De volta ao trânsito, entre a irritação de não me deixarem respirar e a vaidade de me sentir imprescindível. Ia gozá-la um bocadinho.
O café não arrefecia e espreitei o telemóvel: mais um retrato de uma conta qualquer, publicado por uma família despreocupada, sem olhar à perfeição dos cenários, celebrando apenas a alegria da viagem. Atrás, sem filtro, um casal perdia-se num beijo apaixonado.
Adormeci e tomei-me de pesadelos. A desempoeirada, o seu telemóvel, a intimidade que já só surgia a pedido, como se eu fosse um macho de outros tempos a quem devia uns favores para acalmar. Quando o corpo desanima a cabeça acompanha.
De novo o telefone. Fiquei desconfortável por estar a olhar para ela. Decidi pegar no meu. Ainda despachei um pequeno email de trabalho e mandei uma mensagem ao novo grupo.