Algum brio, senhores deputados e ativistas! Com essa delicadeza não sobreviveriam dois dias na clandestinidade. Ao primeiro toque à campainha, entregavam a tipografia, os camaradas e a localização do duplicador, pedindo apenas cuidado com o casaco.
A propósito da dispersão acalorada dos acampamentos do Rossio e da Praça D. João I, que assisti em direto, estoicamente, com um olho meio aberto na madrugada do último domingo, devo confessar que fiquei muito desiludido com a resistência física dos nossos deputados ( ex, atuais e futuros) do Livre e do Bloco de Esquerda.
Mas que raio de «Barreira de Proteção Institucional» é esta que nem se mexe um milímetro para barrar os chuís ( não deixarei morrer esta expressão!) da Tropa de Choque (nem esta)!?
Algum brio, senhores deputados e ativistas! Com essa delicadeza não sobreviveriam dois dias na clandestinidade. Ao primeiro toque à campainha, entregavam a tipografia, os camaradas e a localização do duplicador, pedindo apenas cuidado com o casaco.
Retirados da barreira como se fossem velhinhas de 85 anos, sem um «Tira as patas de cima de mim, pá!», sem uma rotação de braço para se libertarem, sem um «¡No pasarán!», sem se misturarem com a massa de acampados para serem tratados, na confusão, como qualquer um deles, a meio centímetro de um olho roxo?
Qual o impacto nas sondagens de uma cabeça rachada? Quanto está a valer, nos índices de popularidade, um nariz partido? Não haverá, nas sedes partidárias, alguém que faça estas contas? Tanto gabinete de estudos para depois desperdiçar uma oportunidade destas. A Marinha Grande ficaria envergonhada!
Não estão sequer ao nível de um Torres Couto, quando se deitou no chão por ter sido atingido por uma perigosíssima moeda de dez tostões. Aquilo era entrega. Aquilo era compromisso. Era arte coregráfica ao nível duma Olga Roriz. Hoje, com a inflação, provavelmente seria necessária uma moeda de dois euros para produzir o mesmo efeito político.
Esperto foi o Pedro Delgado Alves, o que é uma redundância, pois está num nível absolutamente diferente, que saiu a tempo. Há quem domine o direito constitucional e há quem, além disso, saiba reconhecer uma boa hora para ir andando.
Admito, porém, que a delicada retirada dos senhores deputados possa ter sido uma demonstração pedagógica aos restantes campistas: como proceder para não levar umas lambadas.
Se não se mexerem e deixarem passar os senhores bofias, como fizeram heroicamente os doutores Fabian, Muacho e o outro que teve menos votos do que o Manuel João Vieira dos Ena Pá 2000, não há cabeças partidas nem narizes. E, se não lançarem petardos ou very lights, provavelmente também reduzem as possibilidades de serem detidos. Uma técnica revolucionária de grande simplicidade, embora com escasso potencial para cartaz.
Ouvi um patusco na televisão, umas horas depois, assumir aquela posição nada interesseira e absolutamente nada sonsa: «A polícia tem toda a legitimidade para tirar as tendas.»
Que é como quem diz: o Rossio não é confundível com o parque de campismo do Meco e, de resto, até já se está a pôr frio.
Mas, atenção: «A carga policial é completamente desproporcionada.»
A expressão tornou-se uma espécie de muleta linguística para quem não se quer comprometer. Serve para chegar ao fim do comentário com um pé de cada lado e a coluna vertebral devidamente dispensada. A polícia pode tirar as tendas, desde que o faça sem perturbar quem impede que as tire. Recomenda-se, talvez, um pedido por escrito, em papel reciclado, seguido de uma sessão de escuta.
Eu, que sou do tempo em que a Brigada de Choque arreava num Benfica–Liverpool a eito, sem poupar grávidas nem octogenários, olho para aquelas imagens e não me parece que, se os «campistas da Baixa» tivessem ficado no modo congelado do eterno «Um, dois, três, macaquinho do chinês/meia-lua» (conforme a zona do país em que estiver a ler), alguém lhes batesse.
Quando a polícia, armada de bastões e escudos até aos dentes, começa a avançar, os campistas já sabem que, em poucos segundos, as tendas «já eram». Não é propriamente um daqueles finais de um longa de Hitchcock, que nos deixam em suspenso.
Claro que, se não imitarem os senhores deputados e não deixarem passar a bófia, arriscam-se a levar um calor. Mas, se fizessem como os heroicos políticos, a coisa teria outra tranquilidade. Imitavam o homem-estátua da Rua Augusta, as tendas eram levadas na mesma e não existiriam traumatismos cranianos, ou capacetes amolgados, para contar aos netos. Ficava uma história bastante menos interessante, reconheço. «O avô esteve lá e afastou-se ligeiramente» dificilmente entra no cancioneiro da resistência.
Mas. Eis que a meio deste texto, aterra a decisão do Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa, permitindo a manutenção da tenda duma manifestante até ao dia 24 de novembro, data da votação global do Orçamento do Estado para 2027. A escolha da data é tão criativa como qualquer outra, mas supõe-se que o OE vá providenciar casas, ou pelos menos tendas, para toda a população. Talvez seja já Jorge Pinto a responder programaticamente ao vinho canalizado e às estradas alcatifadas de Manuel João Vieira.
Porém, assegura tempo suficiente para os campistas decidam a duração do acampamento.
A História acelerou, a jurisprudência montou a tenda e a bófia foi posta no seu lugar.
A decisão inaugura, na minha muito entusiasmada leitura imobiliária, um novo capítulo no combate à precariedade habitacional e ao despovoamento do centro das cidades.
Até agora, um cidadão que quisesse viver no Rossio precisava de dinheiro. Muito dinheiro. Pelos vistos, faltava-lhe sobretudo imaginação reivindicativa.
Uma tenda, uma causa e uma comunicação à Câmara. Eis um programa de habitação que cabe numa mochila. E não precisa esperar pelo Orçamento de Estado.
A decisão tem prazo, até 24 de novembro, mas o meu entusiasmo urbanístico já está a trabalhar numa solução de longo prazo. Porquê ficar pelo Rossio ou na Praça D. João I? temos os Aliados ou o Terreiro do Paço, por exemplo. Localizações excelentes, transportes à porta e uma oferta cultural que nenhum empreendimento novo consegue igualar.
Convém, naturalmente, escolher um objetivo último suficientemente largo em termos temporais para podermos, passados uns anos, começar a falar em usucapião. Quem protesta pela reparação de um passeio arrisca-se a ver o problema resolvido na terça-feira. É preciso pensar em grande. A paz mundial oferece outra estabilidade residencial.
Já imagino um acampamento, ou umas barracas improvisadas, em frente aos Jerónimos, com os ocupantes a explicarem aos malvados dos agentes da PSP:
«Ó senhor agente, não seja parvo (ao abrigo dessa nova prerrogativa, tão em voga, de se poder insultar a autoridade!), isto não é um bairro de lata improvisado. Estamos a protestar em favor do pagamento de indemnizações aos antigos territórios do império, por usurpação e esclavagismo. Só saímos quando forem pagas as indemnizações.»
Era habitação para toda a vida. E para os descendentes. O processo de descolonização podia finalmente assegurar uma coisa duradoura: um T0 com vista para os Jerónimos.
Imagino a conversa com os miúdos:
«Esta tenda um dia será tua, meu filho. O teu avô começou a manifestação e, se Deus quiser, ainda cá estará o teu neto para a concluir.»
E há ainda a extraordinária solução de encarregar a Câmara Municipal de Lisboa de conciliar o acampamento com o mercadinho de Natal. Tudo na placa central, junto ao repuxo. Uma tarefa que vem finalmente dar utilidade ao pelouro do Urbanismo: organizar a convivência entre a revolução e a banca dos enchidos.
Proponho que as barracas do mercado circundem o acampamento. Assim, não se põe em causa a privacidade das «intimidades» dos campistas e até se reforça a sua proteção: entre uma banca de fumeiro e outra de vinho quente, nenhum jornalista conseguirá espreitar para dentro das tendas. Uma cintura de segurança à base de alheiras, bastante mais eficaz do que a barreira institucional dos senhores deputados.
Ao mesmo tempo, alimentam-se os manifestantes e sacia-se-lhes a sede, gratuitamente, naturalmente, que estes são manifestantes e têm direitos especiais. Quem passa paga; quem ocupa é servido. A Câmara que trate dos vales de consumo e assegure que o vinho chega à temperatura constitucionalmente adequada.
Afinal, se o município tem de compatibilizar as duas utilizações, convém fazê-lo em condições. Ninguém quer uma revolução interrompida por falta de mostarda.
De resto, os manifestantes já parecem ter percebido as potencialidades da coisa, com marcas no chão a delimitarem onde os elementos exteriores, jornalistas, não campistas, polícia e outros espécimes sem credencial revolucionária, podem ou não circular.
O espaço é público, mas também não vamos levar o conceito à letra. Uma coisa é combater a apropriação da cidade; outra é permitir que qualquer cidadão a utilize sem autorização de quem a está a ocupar.
A propriedade privada é um escândalo. Já a fita no chão, pelo contrário, é uma conquista.
Fica por saber qual será a decisão sobre o novo jogo pacífico do centro da cidade. Como não gostam do macaquinho do chinês, os campistas parecem preferir a «caça ao paisana», modalidade em que se aborda um transeunte e se procura descobrir, por métodos bastante físicos, se é um polícia infiltrado.
Nos vídeos que circulam, aparecem pessoas perfeitamente identificáveis, que uma busca rápida os identifica como empresários ou professores, a levarem uns sopapos e uns pontapés enquanto tentam provar que não são uns malvados de uns polícias. Uma espécie de controlo de identidade com a ordem dos procedimentos ligeiramente alterada: primeiro a abordagem pedagógica; depois, se ainda houver disponibilidade, os esclarecimentos.
O transeunte sai de casa a pensar que vai atravessar o Rossio e acaba numa prova de admissão à sociedade civil.
Como é evidente, os campistas e manifestantes também precisam de se distrair e de fazer exercício. Isto de estar acampado só provoca suor no período das «intimidades», a tal justificação invocada para os jornalistas não se aproximarem das tendas, e uma pessoa não pode passar o dia inteiro à espera da revolução, sentada numa cadeira da Decathlon.
Uma caça ao homem por dia mantém a comunidade ativa. Não faz mal a ninguém, evidentemente. Tirando ao próprio homem, mas também não se pode agradar a toda a gente.
E há que manter o sentido das proporções: um pontapé reivindicativo nunca se poderá confundir com uma bastonada policial. A bastonada terá sempre de ser avaliada quanto à sua proporcionalidade. O pontapé, como é óbvio, beneficia da presunção de boas intenções.
Quanto à barreira institucional, continuo desiludido. Tanto espantalho, tão pouca resistência.
Para fechar o círculo do pagode só faltava mesmo o inenarrável Luís Neves vir alimentar ainda mais a polémica, oferecendo uma nova rodada de atenção mediática a quem parece alimentar-se precisamente disso. Quem verdadeiramente estiver por trás dos acampamentos nem precisa de contratar uma agência de comunicação. Basta esperar pelo próximo esclarecimento do MAI.
Desta vez, o ministério veio explicar que a decisão se circunscreve a uma «situação individual e concreta». Traduzindo para linguagem de parque de campismo: a Renata pode montar a tenda; os outros que se amanhem.
Esta interpretação, com a sua fita métrica à entrada da tenda, não lembrava nem ao guarda dos filmes do Charlot. Estou a imaginar o agente de serviço a levantar a lona: «Boa noite. Qual de vocês é a situação individual e concreta?»
Agora é que os campistas podem trazer uma tenda-hotel e acomodar toda a gente. A senhora fica como titular da reserva; os restantes entram para as «intimidades», supõe-se. Não são cinquenta manifestantes acampados. É uma manifestante com uma vida privada extraordinariamente preenchida. Um verdadeiro “Bairro do Amor” com mais líbido que a canção do Palma.
Será necessário esclarecer se o direito abrange uma tenda de duas pessoas, uma familiar ou um daqueles pavilhões com quartos, sala e avanço. E, sobretudo, se a decisão permite cama extra. A polícia terá de consultar o tribunal antes de contar os sacos-cama. Recomenda-se que bata à porta: nunca se sabe a que horas decorrem as intimidades.
O que deveria ter sido feito, desde o início, era deixá-los acampar, fazer as suas intimidades durante dois ou três dias e esperar. Esperar pelo frio, pelo chão duro e pela primeira manhã em que levantar-se exigisse uma negociação entre a vontade revolucionária e as vértebras lombares.
Em vez de alimentar a polémica, era deixar a meteorologia trabalhar. Ao terceiro dia, a luta contra o sistema começaria a disputar espaço com uma reivindicação muito concreta: um colchão.
Esperar até lhes doerem as costas. Há causas que resistem a tudo, mas poucas saem ilesas de três noites de humidade e de um saco-cama mal fechado. Cada intervenção oferecia-lhes mais uma notícia, mais uma entrevista e mais uma razão para ficarem. Já o frio, pelo contrário, não costuma dar conferências de im
O Bairro do Amor! (e a Barreira Institucional de Espantalhos)
Algum brio, senhores deputados e ativistas! Com essa delicadeza não sobreviveriam dois dias na clandestinidade. Ao primeiro toque à campainha, entregavam a tipografia, os camaradas e a localização do duplicador, pedindo apenas cuidado com o casaco.
Legiões de devotos que tudo desculpam e justificam, não obstante as evidentes tropelias à legalidade, e às vidas sumptuosas que gozam, sem justificativo plausível.
Não quero colocar em causa a transição energética, nem todas as medidas cheias de boas intenções ambientais. Mas irrita-me uma coisa bastante mais simples: enquanto salvávamos o planeta em PowerPoint, fomos desmontando, peça a peça, parte da nossa soberania energética.
O cemitério está pejado de insubstituíveis: alguns têm estátuas, outros avenidas e uns quantos apenas campas discretas. A democracia foi inventada precisamente para sobreviver aos indispensáveis.
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