Covid-19: "O efeito maior do vírus foi colocar a sobrevivência como risco imediato"

Rui Avelar 24 de maio de 2020

Catedrático de Filosofia na Universidade de Coimbra, António Pedro Pita vê o combate à pandemia da Covid-19 a “prosseguir um processo de controle”. “A vídeo-vigilância, o GPS, os drones, os telemóveis são, ao mesmo tempo, dispositivos de emancipação e dispositivos de controle”, diz


Autor de "O aprendiz do mundo e outos fantasmas", Pedro Pita foi diretor regional (Centro) de Cultura e é professor visitante na Universidade de Cadiz, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de 
Janeiro e na Universidade de Santiago de Compostela.

A defendida reabilitação da Filosofia pode beneficiar do rescaldo da pandemia da covid-19 ou, pelo contrário, fica comprometida?
Há uma relação, porventura constitutiva, entre a prática da Filosofia e o núcleo enigmático do acontecimento. O filósofo intervém (ou, pelo menos, sente-se interpelado e, à sua maneira, responde) quando a "normalidade" é interrompida, quando o quotidiano habitual é ou parece subvertido. Por vezes, intervém quando considera necessário sublinhar uma excepção desapercebida na regra reproduzida e aceite. De qualquer modo, é na determinação (talvez pudéssemos dizer: da invenção) de uma interrogação irrespondida que se localiza o ponto de arranque do trabalho filosófico. A atual pandemia constitui um desses acontecimentos. Em primeiro lugar, pela surpresa.Mas só houve surpresa porque a "cultura dominante" foi-se consolidando como um espaço de cada vez mais respostas para cada vez menos interrogações. Essa "cultura" elaborou, consolidou e foi reproduzindo um otimismo acrítico gerado pelo desdobramento de propósitos de controle: controle da Natureza; controle do tempo e da História; controle, evidentemente, dos indivíduos. Para uma interpretação parcial da modernidade (na acepção histórico-cultural), parcial porque a entende como o processo homogéneo que ela não é, todas as razões para ser otimista resultam desses propósitos de controle. As informações que poderíamos recolher do conhecimento da longa duração dos processos históricos são anuladas pela auto-suficiência do otimismo. Por exemplo: sucessivas vagas de argumentos nascidas nas preocupações ecológicas tenderam a ser desvalorizadas, colocadas como oposição às conquistas da Ciência ou ao progresso técnico ou sujeitas a um tortuoso processo de compatibilização com essas conquistas e esse progresso; ou: muitos politólogos foram peremptórios perante a constelação de acontecimentos de 1989: a História (quer dizer: a tensão interna do devir histórico) estava finalmente a consumar-se na forma da democracia demoliberal. Em comum, no fundamento dessas atitudes, está a intuição, a percepção ou a convicção (podemos escolher) de que a Natureza e a História (já) não têm reservas de sentidos novos: quando muito, nós ainda não sabemos o que, no entanto, já está mais à frente no caminho que estamos a trilhar. Neste ambiente difuso, mas dominante, a hipótese de uma epidemia como esta era uma impossibilidade: a Civilização Moderna controlou as epidemias, o Conhecimento venceu a Doença. Como a mediação entre o processo de inovação científica e o plano das existências quotidianas nem sempre é esclarecedora, quando o acontecimento tem a globalidade e a velocidade desta pandemia, a surpresa ocorre e rasga uma rede de expetativas consolidada. Neste sentido, a surpresa tende a ser interpretada mais como o sinal de uma fragilidade dessa rede do que a irrupção de uma novidade, de um inesperado. Ora, é enquanto "inesperado" que a covid-19, ao suspender o movimento do mundo numa escala desmedida, se torna um objeto de instante interpelação (também) para os filósofos. Numa entrevista, ao tentar esclarecer a relação entre o trabalho do filósofo e o trabalho do historiador, Michel Foucault avançou uma resposta que podemos repescar: "a questão da Filosofia foi durante muito tempo: "Neste mundo onde tudo perece, o que é que não passa? Nós que devemos morrer, o que somos relativamente ao que não passa?" Parece-me que, desde o século XIX, a Filosofia não deixou de se aproximar da questão: "O que é que se passa atualmente, e o que somos nós, nós que não somos talvez outra coisa e nada de mais do que se passa atualmente?" A questão da Filosofia é a questão deste presente que é nós- mesmos. Por isso, a Filosofia, hoje, é inteiramente política e inteiramente histórica". Entendida como "ontologia do presente" – resposta à pergunta: "o que é que se passa atualmente?" – a Filosofia coloca, evidentemente, a pandemia no âmbito das suas preocupações: tem a configuração de um acontecimento e não de uma ocorrência superficial e passageira.

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