Secções
Entrar

"Ninguém quer afastar Saramago" do currículo, garantem professores

Pedro Henrique Miranda 31 de março de 2026 às 19:35

Têm-se espalhado "falsidades" em torno da remoção dos livros de Saramago das aulas de Português, dizem professores, que garantem que o escritor "nunca sairia" do currículo, estando em causa a "diversidade" no ensino.

A notícia gerou polémica e comoção geral entre os amantes da literatura: o Ministério da Educação, Ciência e inovação, chefiado no atual executivo pelo ministro Fernando Alexandre, estaria a considerar que constam atualmente do currículo da disciplina de Português do 12º ano, Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis. Em substituição, passaria a fazer parte do programa a obra Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde, de Mário de Carvalho.

, entretanto, que a possibilidade é "absolutamente técnica" e ainda está em discussão, mas a sugestão, sujeita a consulta pública iniciada no passado dia 27, gerou celeuma na sociedade civil, com a Fundação José Saramago a e comentaristas a do legado de Saramago por um governo conservador. Ainda assim, os professores de Português, que, pelo menos em parte, encaminharam este projeto, dizem tratar-se de um mal-entendido.

"É preciso esclarecer os contornos da proposta", disse à SÁBADO Carla Marques, integrante da direção da APP, a Associação dos Professores de Português. Explica que a iniciativa "nasce de um pedido vindo do governo no sentido de rever as aprendizagens essenciais e dar a conhecer aspetos nos quais estão em falta, mal definidas ou a precisar de acrescentos", para a qual a APP reuniu, para revisão, "especialistas em várias áreas, como a oralidade, a leitura, a escrita, a gramática e a literatura".

Para a área da literatura, acrescenta, foi consultado o CLEPUL, o Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Universidade, cujos especialistas, que desenharam as propostas de autores a abordar, "seguem o princípio da diversidade, procurando permitir aos professores escolher mais do que uma obra ou mais do que um autor". É neste contexto, continua a professora, "que surge a proposta de o ensino poder abranger José Saramago e Mário de Carvalho", que, na opinião da associação, tem gerado "muita polémica e muitas falsas questões".

"Mário de Carvalho não exclui José Saramago"

A primeira delas, para a APP, é que "é falso que esteja em curso uma tentativa de afastar Saramago dos programas": "Não há esse projeto ideológico, até porque estamos a falar de dois escritores situados à esquerda". O que se pretende, afirma, é que "os professores possam ter outra opção de autor para estudar, atendendo aos perfis do aluno e da escola e às necessidades específicas de ensino", uma possibilidade em que, crucialmente, "escolher trabalhar Mário de Carvalho não exclui a leitura de José Saramago". 

Carla Marques explica que "há dois quadros de ensino de literatura em Português, o quadro tradicional da leitura e estudo da obra em aula, e o quadro do contrato de leitura", em que "o aluno compromete-se a ler duas ou três obras e propõe-se a dar respostas de leitura relativamente a elas" ao longo do ano. O currículo, continua, estipula que "um autor seja estudado em aula e outro em contrato de leitura", o que significa que, "sendo cumprido este propósito, Saramago nunca sairia do programa" – "continuaria dentro das salas de aula em respostas de leitura".

A associação volta a sublinhar que "ainda estamos em fase de consulta pública", e que, "se se considerar que não se pode colocar Mário de Carvalho no mesmo plano de José Saramago, o ministério e a APP estão abertos a outras possibilidades" – como, por exemplo, "ter Saramago como autor obrigatório em sala de aulda e Mário de Carvalho no quadro do contrato de leitura". O plano, repete a professora, é que "o professor seja livre para optar por um ou por outro para a sua sala de aula", acreditando a APP que, de qualquer forma, "mesmo que vá avante esta proposta de alternativa, a esmagadora maioria dos professores continue a trabalhar com Saramago".

Para a representante dos professores de Português, é preciso vincar ainda que é falsa a ideia de que "se está a substituir um autor difícil por um autor fácil". "De facto, os textos de Saramago são difíceis, pela escrita, ideias e universos", reconhece, mas "a escrita de Mário de Carvalho está cheia de segundos sentidos, ironias e camadas de interpretação" – são, do ponto de vista da associação, "autores com ideário distinto, mas o mesmo grau de complexidade".

A APP sublinha que "o mais importante é passar a ideia de que os nossos alunos estão a ler pouco, e deve ser uma missão nacional ler mais". Segundo Carla Marques, "todos os resultados das avaliações internacionais indicam que os nossos alunos têm dificuldade em interpretar obras complexas, e estas aprendizagens têm em vista trazer mais diversidade de obras para abordar um grau crescente de complexidade". É, na sua visão, uma "urgência nacional": "Os nossos alunos não conseguem descodificar textos sozinhos, e logo têm dificuldade em desenvolver pensamento crítico em relação a ideias complexas que surgem em sociedade – esse pensamento tem que ser desenvolvido pela abordagem de obras complexas, é preciso discutir isso."

Artigos Relacionados
Artigos recomendados
As mais lidas