Das ilhas à diáspora, da polarização à habitação: o primeiro discurso de Seguro no 10 de Junho
Presidente da República pede "palavras do meio" para travar a polarização e destaca problemas no País que enviam talentos portugueses para o estrangeiro.
O Presidente da República, António José Seguro, falou às comunidades autónomas, aos emigrantes e a todos portugueses, pedindo "palavras do meio" para travar a polarização, esta quarta-feira, no discurso comemorativo do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, nos Açores.
"Neste tempo, faltam-nos cada vez mais as palavras do meio. Aquelas que não nascem entre muros, mas nos espaços abertos. As que não ficam sitiadas nem sitiam, mas que se abrem como convite ao diálogo e ao encontro", num momento em que o espectro político é cada vez mais polarizado, Seguro pede às pessoas que se encontrem no meio para alcançarmos um país unido.
As "palavras do meio são mais de tolerância do que de exclusão"; "são o antídoto para o vírus da polarização que tende a substituir a argumentação, o debate e a negociação". Entre elas, Seguro destacou a 'esperança'.
Seguro reforçou que os Açores situam-se num ponto estratégico de relação entre a Europa e o continente americano e referiu que "a autonomia estratégica europeia como prioridade não é contraditória com a defesa transatlântica", asseverando que "a autonomia não enfraqueceu Portugal, fortaleceu".
"A garantia da segurança dos países europeus só é possível com cooperação dos nossos aliados", acrescentou.
E na sequência da viagem ao Luxemburgo, Seguro não podia esquecer a diáspora. "Portugal pensa em vós. Portugal precisa de vós. E Portugal estará sempre de braços abertos a receber-vos, se e quando assim o decidirem", afirmou.
"Precisamos de políticas que fixem talento em vez de o exportar. De salários que reflitam a produtividade e a qualificação dos trabalhadores portugueses. De um mercado de habitação que permita aos jovens construir uma vida no país onde nasceram ou estudaram", exortou o Presidente.
O Presidente reconheceu que há muito talento português que "parte para outros destinos, demasiadas vezes, porque não encontra em Portugal as condições para crescer", nomeadamente devido à habitação inacessível e aos baixos salários.
António José Seguro destacou que "Portugal é maior quando é plural". Voltando atrás na história até ao início da autonomia regional dos Açores e da Madeira, Seguro conclui que a definição das Regiões Autónomas "não enfraqueceu Portugal, fortaleceu", permitindo desenvolver políticas adaptadas às realidades locais.
No seu primeiro discurso no 10 de Junho, António José Seguro refere-se aos portugueses como resilientes perante tempestades: "o mar não é apenas uma geografia que nos rodeia, o mar é memória. Enquanto outros viam o fim da terra, os portugues viam o início de um caminho. O mar ensinou-nos a partir, mas também a regressar. Ensinou-nos o valor da saudade, uma palavra tão nossa. Falar de mar é falar da identidade portuguesa".
O Presidente da República asseverou ainda que "invocar Camões significa reconhecer a sua herança e a sua importância simbólica para nos prolongarmos como povo".
António José Seguro chegou ao primeiro 10 de junho celebrado como Presidente da República pelas 11h15. O Presidente foi recebido, pelo ministro da Defesa, Nuno Melo, e algumas figuras militares, com honras militares.
A Banda da Força Aérea tocou o hino de Portugal para dar início à comemorações. Seguro passou a revista às Forças Armadas em parada, seguindo-se a cerimónia de homenagem aos militares mortos que defenderam Portugal.
O antigo Presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, chegou pelas 10h45, marcando presença nas comemorações do Dia de Portugal como ex-Presidente da República pela primeira vez. Poucos minutos depois chegou o primeiro-ministro, Luís Montenegro.
Miguel Monjardino discursa sobre mudanças do quadro geopolítico mundial
O presidente da Comissão de Comemorações, Miguel Monjardino, lembrou as origens dos Açores, durante o discurso na cerimónia do Dia de Portugal, recordando Luís Vaz de Camões, que estava entre a tripulação da primeira nau que atracou no arquipélago. "Camões deve ter avistado com alegria a costa sul desta ilha verde", disse Monjardino.
O presidente realçou que os Açores e a Madeira celebram, em 2026, 50 anos da sua autonomia.
As mudanças do quadro geopolítico mundial marcaram o discurso. "O mundo multilateral e apoiado por instituições internacionais que nos foram muito benéficas está a desaparecer", disse Monjardino, notando que o mundo está a transformar-se num "mundo muito mais hierárquico, complexo e fragmentado".
"Somos um País com quase nove séculos de história. Tal deve dar-nos confiança", afirmou Monjardino destacando que "uma nação livre não deve ter medo". O presidente explicou que temos de enfrentar as ondas grandes como os surfistas da Nazaré e terminou: "Heroínas e heróis do mar, o amanhã não é longe demais".