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Octávio Lousada Oliveira
Octávio Lousada Oliveira Consultor de comunicação
02 de janeiro de 2026 às 07:56

As reformas dos professores não dizem respeito só aos professores

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Edição de 12 a 18 de fevereiro

Enquanto nos digladiamos com as frivolidades quotidianas, ignoramos um problema de escassez estrutural que tratará de dinamitar as nossas parcas possibilidades de liderarmos o pelotão da economia do futuro, para a qual não estamos minimamente preparados.

No final do resplandecente ano de 2025, a turba mediática entreve-se a debater se a 11 de Dezembro o país tinha testemunhado uma verdadeira paralisação total ou, ao invés, se o comum dos mortais mal se tinha apercebido do impacto da greve geral. Do lado dos sindicatos, como sempre, vingou a tese de que a massa de aderentes à greve terá sido superior ao total de trabalhadores existentes em Portugal, ao passo que, para o Governo, terão estado no batente inclusivamente pessoas que não se encontram (ou nunca encontraram) no activo.

Triste sina a nossa. Só para estas guerras pueris é que as entidades em que depositamos alguma fé estatística se convencem da importância dos números. O mesmo Portugal em que ninguém sabe quantos cidadãos de cada nacionalidade por cá residem, em que a Administração Pública tem dificuldades em quantificar o absurdo de funcionários que tem ao seu serviço, em que o Estado desconhece a extensão do seu próprio património imobiliário, em que nenhuma reforma da floresta permite apurar os proprietários de vastas parcelas de terreno abandonado e em que nenhum ministro das Finanças ou da Reforma do Estado consegue descortinar a colossal e risível participação pública em empresas de todos os géneros e feitios é aquele em que, em meia dúzia de horas, são produzidas sentenças com dados precisos sobre abstenção laboral e os seus efeitos nesta frágil economia celebrada com pompa pelos neoadoradores de revistas internacionais.

Ainda que ninguém saiba grande coisa sobre o que quer que seja, nesta espécie de navegação à vista ditada pelas parangonas com que involuntariamente colidimos, lá vamos conhecendo alguns dados a que até os mais incautos deveriam dispensar alguma atenção. Exemplo? Os que dizem respeito aos professores e ao futuro da educação. Há três meses, o Expresso noticiava que até ao ano lectivo 2034/2035 cerca de 37% dos docentes hoje em funções (46 mil no total) passariam à reforma. O que, em rigor, obrigaria a que se recrutassem 3800 professores por ano durante uma década para não agravar a crise já sentida nas salas de aula de todo o país.

O ano transacto é um exemplo eloquente da tendência. Em 2025, reformaram-se mais de 3600 professores. Só em 2013 o cenário foi mais negro, com 4600 aposentações. Acresce a este envelhecimento generalizado outro problema: o número de novos diplomados em ensino tem ficado bastante aquém do necessário. Em cada um dos últimos anos, ter-se-ão formado, em média, pouco mais de metade do que seria necessário para garantir uma justa ponderação entre entradas e saídas. Além disso, o desequilíbrio entre a oferta e a procura de professores, com a severidade que isso representa na vida de milhares de crianças, é particularmente visível nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto.

Enquanto nos digladiamos com as frivolidades quotidianas, ignoramos um problema de escassez estrutural que tratará de dinamitar as nossas parcas possibilidades de liderarmos o pelotão da economia do futuro, para a qual não estamos minimamente preparados, e, pior ainda, de liquidar os discursos floridos sobre o papel da escola pública como maior garantia de mobilidade social (que, de facto e felizmente, já foi).

Ao mesmo tempo que aplaudimos medidas que devolvem alguma atractividade à carreira docente e procuramos mitigar as iniquidades inerentes ao concurso nacional e aos primeiros anos de profissão, não podemos condescender com a falta de compromisso com as futuras gerações dos professores que, reformando-se com o ano lectivo em andamento, condenam os alunos à lotaria das substituições centralizadas e, por maioria de razão, os entregam à sua própria sorte (ou à da carteira dos encarregados de educação).

Em 2024, o Governo implementou um mecanismo, um suplemento salarial de 750€, destinado aos professores que, reunindo as condições para se aposentarem, continuassem a dar aulas. Ainda assim, continuam a chegar-nos relatos mais ou menos próximos e notícias, como a desta semana no Diário de Notícias, de que as centenas de reformas com o ano em curso agudizam um problema em que as soluções eficazes estarão longe de ser populares. Não sendo a bala de prata, deixo uma: que os professores só possam reformar-se no final de cada ano lectivo. Que me desculpem a franqueza, sobretudo os realmente empenhados nos respectivos projectos pedagógicos e os verdadeiramente comprometidos com o futuro dos mais novos: desta vez não é - nem pode ser, como em tantas outras ocasiões -, sobre eles próprios e sobre as reivindicações da sua poderosa classe. As reformas dos professores não dizem respeito apenas aos professores. Haja coragem.

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