Sábado – Pense por si

João Carlos Barradas
João Carlos Barradas
03 de janeiro de 2026 às 08:00

Como odiar um político

Por ter quebrado promessas e não ter até agora estado à altura de responder ao desafio de lutar "pela alma do nosso país" é de antever o pior para Keir Starmer.

Ano e meio passado sobre um triunfo eleitoral de monta Keir Starmer é o primeiro-ministro mais malvisto das sondagens no Reino Unido.

Starmer acabou 2025 rejeitado por 64% dos inquiridos a maior desfeita de sempre de qualquer chefe de governo trabalhista ou conservador.

A rejeição de Starmer abarca, ainda, a chanceler Ralchel Reeves – tida como a pior responsável de sempre na pasta das Finanças – e supera, também, os momentos mais negativos de primeiros-ministros conservadores como Rishi Sunak, antes das eleições de Julho de 2024, ou John Major, no final de 1994.

Estes dados da agência «IPSOS», que iniciou sondagens regulares sobre as taxas de aprovação/desaprovação de chefes de governos britânicos em 1997, são, igualmente, corroboradas pela «YouGov».

A governação do primeiro-ministro de Carlos III é classificada como má por 73% dos inquiridos pela «YouGov».

Na Europa Ocidental, só Emmanuel Macron se sai pior, colhendo opinião desfavorável de 79% dos franceses no final de 2025.

Na tabela da «YouGov» destacam-se, ainda, o chanceler alemão Friedrich Merz, 69% de taxa de desaprovação, e o espanhol Pedro Sánchez, 66% de avaliação negativa.

Para termo de comparação refira-se que as avaliações ao executivo de Luís Montenegro variavam entre o «razoável», 49%, o negativo 32% – «mau», «muito mau» – e o «bom», «muito bom» para 17% dos inquiridos no início de Dezembro de 2025 pelo «Centro de Estudos e Sondagens de Opinião – Universidade Católica».

Extrema exasperação

Starmer, antigo procurador da Coroa, líder da oposição desde 2020, foi eleito com uma maioria de 411 deputados entre os 650 mandatos da Câmara dos Comuns, pondo termo a 14 anos de governação do «Partido Conservador».

Empolgante ou arrebatador nunca foram adjectivos que pudessem caracterizar o causídico nascido em Londres, em 1962, mas Starmer atinge níveis de desaprovação que revelam extrema exasperação da opinião pública.

O governo trabalhista frustrou as expectativas de mudança na ressaca da péssima gestão do «Brexit», consumado em Janeiro de 2020, por Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss e Rishi Sunak.

Aumentos de impostos sobre o rendimento nos orçamentos de 2024 e 2025 marcaram a quebra de uma solene promessa eleitoral.

A primeira grande machadada na reputação trabalhista ocorreu, todavia, logo em Julho de 2024, quando a chanceler Reeves anunciou a retirada de subsídios nas contas de gás para aquecimento de Inverno a cerca de dez milhões de reformados.

A contestação no «Partido Trabalhista» foi sinal de que Starmer não poderia contar com o apoio submisso dos deputados e as crises sucederam-se.

Grupos de extrema-direita instigaram motins no Verão de 2024 com protestos anti-imigração e a tensão quanto a política de migração e asilo continua presente.

O tom agreste do debate sobre a adopção de legislação mais restritiva de direitos de residência para emigrantes tem como pano de fundo a incapacidade de travar a imigração clandestina: 41 472 detenções em travessias do Canal da Mancha, em 2025, quase mais 5 000 do que em 2024.

A incapacidade policial para reduzir drasticamente os frequentes crimes de rua envolvendo uso de facas e navalhas, rondando 50 mil casos por ano em Inglaterra e Gales, ou a ausência de melhorias nos transportes públicos, especialmente na rede ferroviária, afectam também seriamente a imagem do governo e das instituições.

A tradicional quota de escândalos cedo extravasou além do tolerável.

A fuga a imposto imobiliário da parte de Angela Rayner, número dois do governo e no partido, obrigou, em Setembro do ano passado, a uma remodelação de fundo – três ministros abandonaram funções e doze mudaram de pastas – numa altura em que já se contavam oito substituições de vulto no elenco inicial.

Recusas muito públicas em aceitar cargos no governo e críticas desaforadas de deputados e militantes trabalhistas tinham-se acentuado após uma séria derrota nas eleições locais de Maio em que os populistas de direita anti-imigração do «Reform UK», de Nigel Farage registaram forte subida.

Nem o esforço de contemporização de Donald Trump para salvaguardar a «relação especial» ou o empenho no apoio diplomático, financeiro e militar à Ucrânia têm valido de muito a Starmer.

A imponderada nomeação do negocista Peter Mandelson para embaixador em Washington, em Fevereiro de 2025, redundou em escândalo com a revelação dos continuados contactos do político trabalhista com o pedófilo Jeffrey Epstein.

A Starmer só restou demitir Mandelson, em Setembro, nas vésperas da segunda visita de estado de Trump ao Reino Unido.

As facas afiadas

Por ter quebrado promessas e não ter até agora estado à altura de responder ao desafio de lutar «pela alma do nosso país» num desafio «tão grande quanto a reconstrução da Grã-Bretanha depois da guerra», conforme afirmou na Conferência do «Partido Trabalhista» de Setembro último, é de antever o pior para Starmer.

Entre os trabalhistas afiam-se as facas.

As sondagens vão no sentido de novo aumento da votação a favor de Nigel Farage nas eleições locais no Reino Unido em Maio deste ano e de perdas para trabalhistas e conservadores nas votações para os parlamentos da Escócia e País de Gales.

O «Financial Times Stock Exchange 100 Index» – congregando as empresas de maior capitalização – bateu, entretanto, esta sexta-feira, um recorde simbólico, depois de ter registado um aumento de 22% em 2025.

A chanceler Rachel Reeves comentou de imediato na plataforma X: «O FTSE 100 superar 10 000 pontos pela primeira vez é um voto de confiança na economia britânica e um começo forte para 2026».

O optimismo da senhora das finanças com o desempenho da bolsa londrina contrasta com o repúdio dos eleitores e a depressão política dos trabalhistas que fazem outras contas, calculando que Starmer não dure até às eleições legislativas a convocar até Agosto de 2029.

Texto escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1945

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