Os introvertidos
Pedro Marta Santos
13 de junho

Os introvertidos

Os extrovertidos fazem a festa e apanham as canas, mas quem inventou os foguetes e melhor aprecia a sua beleza são os introvertidos. Abordar a vida como os acordes de Kashmir dos Led Zeppelin não é a única forma de a saborear. Existe também a guitarra de Carlos Paredes

O 10 de junho não deveria ser o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Devia ser o Dia Nacional dos Introvertidos. Portugal está atulhado de meliantes expansivos e aldrabões sociáveis. Camões era um desinibido nato, capaz de seduzir infantas, aias ou alcoviteiras.

Só com um olho, piscava-o incessantemente a Catarina de Ataíde e a Dinamene. Integra uma longa lista de poetas descontraídos, enquanto comparsa de Petrarca e de Boccaccio, esse espalha-brasas. Não é por acaso que o 10 de Junho pertence a Luís Vaz e não a Pessoa, um caixa-de-óculos com mundos infinitos na imaginação, mas pavor do real, tão atadinho que foi incapaz de desatar o négligé de Ofélia.

As comunidades portuguesas deleitam-se em arraiais, cantigas ao desafio, romarias de anedotas, a tenda ideal para o extrovertido consumado. O introvertido é o eunuco no meio do bacanal, mas o seu fogo é criativo e intenso, embora tolhido por oportunidades perdidas. Um introvertido é menos do que um tímido. O tímido é esquivo, receia a intimidade. Mas há imensos tímidos extrovertidos - este que vos escreve é um deles -, capazes de discursar num 10 de Junho. Já os introvertidos escrevem os discursos mais sublimes, mas tremem com a ideia de os ler em público.

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